Nem sempre.
"The greatest burden a child must bear is the unlived life of its parents." - C.G. Jung
Olá,
O verão chegou, com força, dias de sol, brincadeiras ao ar livre e vontade de aproveitar cada nesga de sol. Costuma ser a altura do ano em que mais gosto de existir: picnics com amigos, idas à praia, brincadeiras com água, diversão. O dias cheios de luz solar reconfortam-me a alma e contrastam com o negrume do Inverno que não deixou saudades.
Este ano, estou cansado. Os últimos meses têm sido duros, entre doenças, cuidar, saúde mental, exigências, trabalho. A vida acontece, de forma cíclica: algumas fases fluem melhor que outras. Não tenho estado no meu melhor, confesso. Tenho enfrentado os meus demónios, à minha maneira. Nem sempre é a melhor. Ando menos paciente, menos disponível, menos carinhoso, menos inventivo, menos criativo. Muito agarrado às minhas rotinas e padrões, como se estivesse a ser sustentado pelo exercício físico e a leitura. Se um destes falha, sinto-me desamparado; perco o que resta da homeostase e esse dia acaba por ser dado como perdido. Cumprir com estes meus rituais permite-me ter a sensação de controlo sobre algo já que, na verdade, não controlo nada e lido muito mal com esta realidade.
Na verdade, não é só cansaço. A minha saúde mental não tem estado no seu melhor, apesar da terapia e todos os mecanismos que fui encontrando para lidar o melhor que posso com a bola escura que habita dentro de mim. Às vezes tem o tamanho de uma gota, noutras o tamanho do mundo. Dou por mim a pensar na série “Desassossego” do Fumaça. Ainda tenho receio de a ouvir e estão quase a passar-se dois anos do seu lançamento. É difícil olhar para as nossas sombras e cantos escuros do nosso interior. Acho que só consegui ouvir um ou dois episódios. Esbarrei na familiaridade que nos leva para sítios onde não quero ir, para já. Dói-me, só de pensar. À medida que digito estes caracteres, sinto um enorme desconforto. Com a exposição, claro; fui socializado a não expressar nada disto e vivo numa sociedade onde, ainda, persiste um enorme estigma em assumir que não nos sentimos bem mental, emocional e psicologicamente.
Como pai e companheiro, isto tem consequências. Crio um ambiente em casa mais tenso e forço quem convive comigo a ficar num estado de alerta, a tentar decifrar o meu estado de espírito e que tipo de interações se podem ter. Lembro-me de ter sido criado neste ambiente e não é uma boa memória. Pelo contrário, é a raiz de muitos dos meus comportamentos adaptativos menos bons. Impede-me a espontaneidade. Rouba-me a dinâmica dos dias. E tira-me tempo de qualidade com quem mais amo.
Pai, hoje estás cansado, não é?
Passei a ouvir este tipo de perguntas que me recordam quando eu era criança. São questões que tentam tomar o pulso da situação e colocar em perspetiva o tom de voz, uma expressão facial ou simplesmente um estado de fechamento emocional. Fico incomodado e alimento esta pescadinha-de-rabo-na-boca: sinto-me mal porque estou mal e fico pior por ter esta noção. Torna-se difícil ir saindo de uma espiral que tende para o infinito.
Tento fazer diferente com os meus filhos. Verbalizo o que estou a sentir e o que estou a precisar. Seja tempo, espaço, silêncio ou tranquilidade. Nem sempre da melhor forma, nem de forma empática e consciente. Explico que não me sinto emocionalmente bem e vou tentando fazer reparações das situações onde não estive no meu melhor. Reconheço o erro, peço desculpa e relembro quem está à minha volta que a culpa é somente minha, nunca deles. Assumo a minha responsabilidade pessoal; vale o que vale. Digo, no fundo, o que gostava que me tivessem dito quando era mais novo, na esperança de contribuir o mais possível para um saudável desenvolvimento emocional dos meus filhos. É assim que tenho lidado com este melting pot de situações que me têm arrastado para determinados estados de espírito.
A história repete-se; os padrões e arquétipos também. Continuo a errar. Sei que há luz no final deste ciclo, que haverá uma outra disposição. Desta vez, calhou na minha época preferida do ano, enquanto o sol brilha, o calor aperta e tudo nos convida a sorrir. Ainda teimo em achar que sou a soma das minhas falhas e ignoro o que tenho de bom. Uma tendência autodestrutiva terrível neste processo; lembro-me de a ver validada por outros. É uma sensação amarga. Hoje encontro uma clareza e tranquilidade em perceber que a insuficiência e a falha fazem parte de mim. Que não vou eliminar décadas de condicionamento e formatação sócio-familiar de um dia para o outro. Vou marcar os meus filhos, nem sempre de forma positiva. Vou ser um companheiro egoísta. Vou ser um filho ausente. Um amigo em falta. Mas também vou ser um pai fantástico e que acolhe, vou apoiar e nutrir quem mais amo, vou ser presente para quem é importante na minha vida. Talvez nunca deixe, realmente, de ser o produto de onde vim. Mas quero continuar a tentar ser mais do que isso.
Abraço-vos,
João
PARTILHAS
Há umas semanas tive uma conversa muito interessante com colegas de trabalho sobre se a espécie humana é genuinamente boa ou má. Se somos corrompidos, ou moldados, pelas sociedades e estruturas familiares em que nascemos, crescemos e vivemos. Eu gosto de pensar que somos estruturalmente bons (seja lá isso o que for) e propensos para o altruísmo. Nessa conversa, foi-me recomendado ouvir o episódio “Anjos & Demónios” do podcast (In)pertinente. Gostei muito de conhecer algumas teorias e estudos sobre o assunto.
Venho partilhar convosco, uma vez mais, um maravilhoso texto da Vanja. Fala sobre encontrarmos momentos profundamente espirituais nos detalhes mundanos no quotidiano. É profundo e desmistifica uma parentalidade onde a prática espiritual não requer ritualizações e pode ser muito bela na sua simplicidade.
E vi, com bastante atraso, o filme King Richard. Estava à espera de outra coisa e fiquei agradavelmente surpreendido. Há muitas lições neste filme, principalmente sobre formas de amar os nossos filhos e parentalidade. Vemos, em tempo real, o que a exigência pode fazer para o bem ou para o mal. Vemos o que é querer, muito, que a nossa descendência tenha uma vida melhor que a nossa. Que se consigam superar, em todos os campos. Não acho que o desempenho do Will Smith seja digno do Óscar que ganhou, mas foi um excelente papel de um pai que ama as suas filhas da melhor maneira que sabe.


João, obrigado por partilhares os problemas que sentes. Acho isso muito importante. Queria comentar que para mim a meditação (indissociável de uma aplicação da teoria budista) tem sido fundamental para mim. Eu não acredito que sejamos bons ou maus por natureza. Aprendi com Thich Nhat Hanh a ver a natureza humana como fortemente dependente dos estímulos que entram no cérebro (e que incluem, além de estímulos sensoriais, o próprio resultado da atividade mental, ou seja pensamentos e memórias). Saber analisar a realidade do ponto de vista da atenção plena como descrito pelo budismo (Satipatthana Sutta) é uma grande benção. Claro que o facto de eu neste momento ter pouco stress na minha vida, de poder descansar, é fundamental e essencial para esta felicidade, e compreendo que sou um privilegiado. Tens todo o meu apoio se quiseres algum conselho sobre isto que falei. Já que isto é um espaço de partilha, e já que sou vegano, deixo um texto interessante sobre como os animais oferecem chaves importantes para o colapso da ética na sociedade moderna. É um texto leve, embora refira a tentativa de assassinato do Trump. https://blog.simpleheart.org/p/how-animal-rights-challenges-political
Um abraço e conta comigo!