Natal
Olá,
Este texto é hoje publicado, no dia 26 de Dezembro. Mas começou a ser escrito semanas antes. À data da publicação, o Natal já passou: ainda haverá família a dormir no escritório e acalento a esperança de ainda ter restos de azevias e bolo rainha na mesa de jantar. Mas a celebração do nascimento do menino Jesus terminou, já sentámos a família à mesa, já partimos pão e vinho e prendas e sorrisos e tudo aquilo que estimo como importante nesta altura do ano.
Atualmente, o Natal representa tempo e espaço para poder estar com quem me ama e quer estar comigo. Vamos estando juntos ao longo do ano, uns mais que outros. Mas percebemos todos o enorme privilégio que é podermos sentar-nos a uma mesa e cruzar gerações e histórias e vidas tão diferentes mas unidas por um amor que se constrói todos os dias. Com telefonemas, partilhas, abraços, sorrisos e lágrimas. A família é essa súmula de vidas que escolhem - através do amor - edificar-se numa estrutura de apoio mútuo e empatia.
Uma família é a colisão pacífica de dois mundos absolutamente distintos que, por amor, escolhem ultrapassar tudo o que os divide para viverem focados naquilo que os une.
O Zé Pinho escreveu sobre a família há umas semanas e ofereceu-nos esta definição maravilhosa. Retrata o núcleo duro, a vida conjugal, mas acho que é extrapolável para a família como um todo. Não só dois mundos, mas os que forem, distintos e que escolhem ultrapassar tudo o que os divide para viverem focados naquilo que os une. Esta frase é uma lição de humildade e relembra-nos que para vivermos em Amor precisamos de o fazer sem condições. Só assim se ultrapassam as divisões e se olha para o que nos une.
Infelizmente, ao longo dos anos, tenho visto sucumbir ao rancor partes da família. Escolhem a sua razão - e têm todo o direito a isso. Ficam presos nas suas narrativas e interpretações das histórias - muitas delas com décadas - mal resolvidas. Essa fel tolda a visão, borbulha nas vísceras e divide famílias. O amor não consegue penetrar nessa casmurrice, nessa vontade enorme de defender a crença cega. E sem essa luz torna-se difícil encontrar a força para amar e superar a divisão.
A minha mesa da ceia de Natal tem metade das pessoas que poderia ter. Estão sempre convidadas e, de certa forma, há sempre pratos postos para cada uma delas. Habitam na memória, nos pequenos rituais, nos pormenores, na saudade. Gosto de imaginar que também sentem essa saudade e que pensam “para o ano a ver se voltamos a estar todos juntos”. Mas nós somos feitos de escolhas - reforçadas todos os dias. Há dias falava com o meu filho mais velho sobre todos os dias nos serem postas à frente opções. E podemos escolher fazer o que achamos correto, partindo do amor, ou escolher as coisas menos boas, partindo do medo e do ressentimento. Apesar de também cometermos erros por amor - intenções com bom fundo mas que podem ter resultados nefastos - a grande maioria dos erros que cometemos é por medo ou ressentimento. É mais fácil deixar algo estragar do que cuidar. Nutrir quem nos rodeia dá trabalho. E muitas destas escolhas menos felizes que vamos fazendo nem conscientes são. São produto de anos de condicionamentos vários e pode ser hercúleo combatê-los.
A mesa da minha ceia de Natal tem precisamente as pessoas que escolhem amar, ao longo do ano. Que percebem que as animosidades entre uns não precisam contaminar outros. Que o amor pode ajudar a superar divergências e vencer essa difícil batalha do ego, do rancor. Crentes ou não, esta data é a celebração cultural do nascimento de Jesus. Podemos olhar se forma secular para tudo isto, e arrancar os rituais e evangelismo da data e ficar somente com a lição principal: amar-nos uns aos outros. Se despirmos a apropriação cultural capitalista que tenta associar este amor ao consumo material, ficamos apenas com um amor genuíno: que quer estar presente, partilhar, sorrir, aceitar e ser aceite. Sentados à volta do privilégio de uma boa comida, dá-se a consumação da família. Ela existe nas tais colisões pacíficas e na escolha diária do amor. Talvez por isso o Natal não seja mais do que o pretexto - tão necessário neste mundo cada vez mais demasiado rápido - para podermos ultrapassar o que nos divide e focar naquilo que nos une. O que eu desejo é poder viver desta forma o ano inteiro com quem, como eu, escolhe amar. E cá estarei, sempre de braços abertos, para quem se queira juntar neste amor.
Abraço-vos, e desejo-vos que continuem com boas festas.
Até para o ano,
João
Coincidência ou não, no dia que terminei de escrever este texto a Sofia enviou-me um vídeo do José Luís Peixoto a ler um dos meus poemas preferidos. Li-o pela primeira vez no livro do autor, o “Criança em Ruínas”: há versos que ficam connosco, pelas mais variadas razões. Estes ficaram bem fundo na pele, na alma e naquele centro sem nome tão esotérico que não o conseguimos definir. Lembrei-me muito deles quando a minha mãe morreu - senti-me perto do JLP, percebi melhor a angústia. A ele morreu-lhe o pai, mas também partilhamos o número de irmãs, igualmente mais velhas. Quando a minha avó paterna faleceu, a minha prima Rute usou este poema para por nas folhas da agência funerária que estão na entrada das casas mortuárias. Do outro lado estava uma fotografia da avó Leta. Já o li aqui, mas volto a deixar este maravilhoso poema convosco.


