Não celebrar.
Maneiras diferentes de olhar para o mesmo dia.
Olá,
No sábado passado celebrou-se, em muitas partes do mundo, o dia da criança. O dia começou a ser celebrado em 1950 por iniciativa das Nações Unidas, com o objetivo de chamar a atenção para a situação das crianças à data. No últimos setenta e quatro anos percorremos um caminho de conquistas sociais, e económicas, que nos permitiram retirar da miséria milhões de crianças e proporcionar-lhes os direitos plenos consagrados na Declaração Universal dos Direitos da Criança. Mas ainda há um longo caminho a percorrer e os últimos meses têm-nos mostrado o quão fácil é desumanizar e desrespeitar a vida das crianças.
Nós fomos celebrar o dia da Criança num picnic, com amigos, muitas crianças, brincadeira, acolhimento e amor. Éramos mesmo muitos, perdidos entre sorrisos e aventuras, brincadeiras com água, snacks e conversas boas. Arrisco dizer que todos os que participaram saíram de lá de coração e alma cheios e pudemos usufruir de um privilégio que tantas vezes ignoramos: celebrámos a efeméride em paz, com acesso a comida e água potável, onde o direito a brincar prevaleceu sobre qualquer entrave. Foi um dia, de facto, bom. Não tirei uma única fotografia o que, nos dias que correm, é um ótimo sinal. O smartphone foi deixado de lado e permiti-me estar presente. Que privilégio.
O dia acabou. Estávamos todos cansados, comemos qualquer coisa leve e fomos indo para a cama. Primeiro as crianças - exaustas mas felizes - e depois os pais. Foi neste momento de silêncio noturno que resolvi abrir o Instagram e deparei-me com um post da Erva Dulce que me deu que pensar.
Hoje é o Dia Internacional da Criança. Em solidariedade e humanidade com as crianças da Palestina, e de todas as que estão a ser dizimadas pelo mundo, junto-me em retrato a algumas crianças de Gaza. A ideia é de @teodelnorte e soube dela pela @catherine_corkfield. Sente-te à vontade para fazer o mesmo no teu perfil. Os vídeos são de @duaa_tuaima fez um vídeo das crianças que viviam nas tendas que foram alvo no domingo pelo IOF. A segunda fotografia é de @haitham_nuralden. A última é de Motaz Azaiza e diz tanto sobre o dia de hoje. O Dia Internacional da Criança é comemorado anualmente a 1 de Junho, principalmente nos estados membros das Nações Unidas, e o seu objectivo é contribuir para o fim do abu5o infantil, acabar com a privação de direitos das crianças e melhorar as suas vidas em todo o mundo. Hoje não celebro. Mas como mãe de duas crianças, todos os dias, TODOS, educo para a paz. Estás comigo?
Adorei assinalar o dia com amigos e rodeado de crianças a brincar. Mas fi-lo sem pensar, uma única vez, na barbárie que podemos testemunhar diariamente na Palestina. É um tema que me toca muito, sobre o qual leio e mantenho-me informado. Nos últimos meses, deixei de seguir contas de redes sociais com partilhas mais gráficas porque, sinceramente, o meu coração na aguenta. É um privilégio do caraças poder ter esta escolha, mas também preciso de cuidar da minha saúde mental neste tema. Fico muito gatilhado com as partilhas e com certos comentários é ainda pior. Mas estou consciente do extermínio que está a ser levado a cabo e cujos dois terços das vítimas são mulheres e crianças. Mas, tal como muitos de nós, estou calejado com a exposição ao genocídio e limito-me a encolher os ombros para não lidar com a sensação de frustração imensa que me assola quando percebo que pouco ou nada posso fazer. Continuo a ter imenso cuidado em não comprar nada de origem Israelita, sempre com a sensação que as grandes superfícies comerciais nem sentem este ativismo nos seus relatórios de contas. Vou partilhando a visão do povo Palestiniano, ocupado e violentado, que vai sendo vítima de um extermínio ímpar. Fico, também, com a sensação que estas partilhas caiem em olhos cegos de tanto scroll e mentes cansadas demais para pensar sobre isto. É importante colocar em perspetiva os nossos privilégios para que possamos ter diferentes visões sobre os dias que correm, as efemérides que assinalamos.
A Dulce acaba o seu texto com uma frase importante: todos os dias educa as suas duas crianças para paz. E haverá algo mais importante que termos o trabalho de combater a formatação social e as convenções para fazermos crescer crianças que abominem uma vida de guerreiros? Todos os dias educamos pelo exemplo; quando optamos por não dizer mal das pessoas, nem julgá-las. Quando tentamos ter sempre a interpretação mais generosa das situações, olhando para as emoções e necessidades de cada um de nós. Quando damos importância à literacia emocional e à expressão das emoções. Quando ensinamos que bater não é a resposta e não utilizamos a violência física e psicológica como ferramenta pedagógica. Ser o exemplo de paz, nas palavras e ações. Este é, sem dúvida, o maior contributo que posso fazer como pai. Para que os meus filhos possam ser, mais tarde, uma influência positiva noutras pessoas da mesma forma que eu tento ser com eles.
Até para a semana,
João


