Memória
Estava sol e o dia estava quente, sem ser desconfortável. Devia ser primavera ou início do Verão. Também podia ser um dia solarengo de Outono ou Inverno, falta-me precisão na memória. Os miúdos da escola em frente deviam estar em aulas, ou de férias; sei que não os ouço na recordação deste passado e que os meus dois pais, professores, estavam presentes. Estava em casa com a D. Piedade, provavelmente, ou com alguma das minhas irmãs. Não me recordo do ano com precisão, nem que idade tinha. Arrisco que devia ter uns oito ou nove anos. Ou ligaram para casa ou chamaram pela janela, mas os meus pais queriam que eu descesse as escadas. Havia um tom de novidade, surpresa, descoberta e entusiasmo na voz. O timbre mais doce, excitado com alguma coisa. Desci e lembro-me de sentir uma mão na cabeça, um beijinho e um abraço. “Olha para o carro novo”. Talvez tenha sido isto que me disseram, ou uma qualquer variante. E eu, claro, olhei. Fiquei deslumbrado. Estava habituado ao velho Renault 5 da década de 80 e tinha à minha frente um Volkswagen Golf Branco dos anos 90.
Nunca gostei de carros, nem tive nenhum interesse nos meandros do automobilismo e mecânica automóvel. Hoje, adulto, ainda não sei com detalhe como um carro funciona, e pouco mais sei do que verificar o nível do óleo e a pressão dos pneus. Basta-me que tenham quatro rodas e funcionem e não exijo muito mais. Mas partilhei o entusiasmo dos meus pais com o carro novo, maior, mais confortável, pronto para nos levar a inúmeras viagens. Havia ali uma promessa de qualquer coisa inefável. Os meus olhos fixaram-se na matrícula. Era diferente da do carro anterior. O Renault tinha uma matrícula de fundo negro com as letras e números de um branco grande, bojudo e destacado. Este tinha o fundo branco e letras pretas, com um relevo suave. Fiquei com a sensação de que fomos os primeiros a ter estas matrículas novas lá na rua.
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Passados mais de trinta anos, ainda me lembro desta matrícula. Quase que sinto o cheiro a novo do carro quando entrei nele pela primeira vez. Há coisas que ficam gravadas na nossa memória, impregnadas de significados, de experiências e acontecimentos. Foi no Golf que passámos férias no sul de França, em casa de um casal amigo. Aix-en-Provence, cuscus, os meus primos, Nirvana, praia, sandes de ovo com atum, maionese, cenoura em palitos. A memória do carro encapsula recordações. Nele, fomos ter a um turismo de habitação numa quinta na Bélgica – invenções do meu pai. Queijos feitos à mão, saltos em fardos de palha, pé partido, Hospital em Bruxelas, turismo com um pé engessado envolto num saco de plástico, por causa da chuva. Há detalhes que ficam connosco, tatuados na memória, cravados no peito da saudade e da nostalgia. Foi neste carro que, numa autoestrada com cinco faixas, nos arredores de Paris, a minha mãe fez marcha atrás na berma porque tínhamos falhado a saída, para mal dos pecados do meu pai, que se agarrou ao manípulo do pendura em agonia. Hoje conduzo um Skoda preto que os meus pais compraram em 2003 e ainda não decorei a matrícula. Porque decoramos certas coisas em detrimento de outras?
Estou de volta ao escoteiros, a fazer formação de dirigente, e recordo na perfeição o hino da Associação de Escoteiros de Portugal. Ainda o sei na ponta da língua, a melodia, a primeira estrofe dos Lusíadascom a qual impressionei vários professores de Português. Ainda me recordo do grito da Patrulha Leão, onde fui tesoureiro, sub-guia e guia. Ainda sei, de cor e salteado, o número de telefone da casa dos pais da Sofia. Porque guardamos nós estas coisas, e somos incapazes de memorizar outras? Que processo inconsciente é este? Também me lembro das coisas más. Os colegas na escola que me fizeram bullying, os momentos humilhantes, os episódios de violência pelos quais passei. São memórias vívidas, claras, que ficam connosco. São pedaços de nós, que nos formam. Memorizo e decoro pequenas parcelas do que me vai sucedendo; sinto que há uma aleatoriedade, uma ausência de causalidade e, no entanto, são memórias que fazem sentido. Acarretam narrativas e cristalização de momentos da nossa vida. É certo que uns farão mais sentido que outros. E talvez haja uma seleção subconsciente do que se guarda de forma indelével na nossa mente. Não preciso de saber a resposta, apenas continuar deslumbrado com os caminhos desconhecidos da psique humana.
Abraço-vos,
João
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