Máscara
"All the world’s a stage, And all the men and women merely players;" William Shakespear
Esta primeira frase custou-me a sair. Olhei para a página em branco enquanto perscrutava o que sentia que queria escrever. Há fases na vida em que andamos com um aperto no tórax e sentimos os pulmões comprimidos. Mas há coisas que escrevo e que são só para mim, para me organizar. Não as posso publicar: porque ainda não tenho a certeza que realmente sinto e penso isto ou aquilo. Há partes de mim que teimo em não querer desvendar. A mim mesmo, até.
Tenho tendência a esconder quem realmente sou, borrado de medo do julgamento de outros. Medo de não ser aceite como sou. Que as minhas imperfeições e falhas sejam mais pesadas que as minhas qualidades. Desde novo edifiquei uma máscara. É das boas: permite-me ser socialmente aceite, interagir com outras pessoas até certo ponto e exponho apenas as partes de mim com que me sinto confortável. Habituei-me a sentir que quem realmente sou, o que realmente penso, é de alguma forma errado. Não importa dissecar as origens deste padrão adquirido neste texto, tenho o consultório do meu psicólogo para esse trabalho. Mas tenho sentido que não consigo largar a máscara na maior parte das vezes. Dou por mim a pensar se não a uso também com os meus filhos e se projeto uma realidade que não sou eu. Porque com eles, principalmente eles, quero ser a melhor versão de mim ou ser, pelo menos, a versão que idealizo. E muito daquilo que quero ser para os meus filhos não faz parte de mim. Requer esforço e trabalho.
Ontem li um texto da Paula Cosme Pinto em que ela falava da falácia que era olhar a maternidade como algo nato. Concordo e permitam-me fazer a extrapolação: em mim a paternidade não é algo nato. Sim, quero fazer melhor, sim quero amar o melhor que sei ambos os meus filhos. Mas faço-o por uma questão de obrigação e responsabilidade. Assumo que cabe a mim educar e proporcionar o melhor que consigo aos dois. Assumo que as minhas emoções são só minhas e não da responsabilidade deles. Assumo que as minhas frustrações não são fardos para partilhar com eles. Isto não me sai naturalmente. E muitas vezes, demasiadas, não me apetece assumir.
Exige um esforço. Porque o que me apetece é chegar a casa e ignorar a existência dos meus coabitantes, de modo a poder desligar o cérebro. Apetece-me vegetar a olhar ecrãs, deixando o tempo escorrer. Pior. Apetece-me regressar a padrões de um passado não tão distante e alhear-me da realidade através de psicotrópicos. Old habits die hard. Anestesiar a dor de existir. Senão faço esse esforço, caio num laxismo que revela o pior que há em mim, as piores reações, o meu egocentrismo, a visão míope de que tudo gira à minha volta e dos meus interesses e necessidades.
Sempre apregoei que não queria ser Pai. Trazer crianças a este mundo sempre me pareceu um exercício de egoísmo (querer exercer o estatuto de pai às custas de um ser vivo) e de irresponsabilidade (que mundo é este onde vamos criar os nossos filhos?). E porque sempre tive noção que a paternidade acarreta um conjunto de responsabilidades que me pareciam hercúleas e que requeriam um nível de altruísmo enorme. Para o bem e para o mal, tinha razão. De outra forma, seremos apenas mais alguém que procriou sem ter uma verdadeira noção do que é preciso para educar um ser humano de forma empática. Ironia do destino, ambos os meus filhos não foram planeados.
Mas agora sou Pai e enquanto escrevo estas palavras dou por mim a pensar: porque faço esse esforço?
Faço-o porque acredito, de verdade, que uma criança nunca deve sofrer pela inépcia de um progenitor ou cuidador. Porque há uma responsabilidade que advém do pacto não falado que é assumir o papel de pai. É uma escolha. Não sei se a faço conscientemente ou por algum imperativo biológico. Talvez a faça por um condicionamento sócio-familiar: tive exemplos diversos do que poderá ser uma paternidade. Dos melhores, aos piores, com maior ou menor grau de proximidade. Mas a que me sai naturalmente, é uma paternidade assente na austeridade, na autoridade, na imposição pelo medo da consequência. Sou uma criança dos anos 80 e estes valores e padrões eram a norma. Isto cria um conflito interno. Porque quero, sinto e penso que este padrão é algo que não quero perpetuar com os meus filhos. Porque conheço outras maneiras de fazer as coisas. Com maior empatia, consciência, compreensão. Com amor, sem condições. Em aceitação. Então, esforço-me.
Há dias em que o esforço me parece mais natural. Outros em que parece impossível e fico demasiado aquém do que quero ser. E também fico confuso. Se me estou a perder numa máscara, naquilo que quero ser ou naquilo que quero que pensem que sou.
O que me leva à reflexão final: porque dou tanta importância ao que as outras pessoas pensam de mim?
Há biologia evolutiva neste facto. Somos programados para querer aceitação nos nossos grupos e comunidades pelo medo de sermos excomungados e postos à parte. Nos primórdios da humanidade, estar-se só era uma sentença de morte. Queríamos ser aceites pelos nossos pares, a todo o custo, porque não queríamos morrer. Mas, milhares de anos depois, consigo intelectualizar que não é esse o caso. Pô-lo em prática é outra conversa.
Há um texto, que descobri através do Tim Ferris, muito interessante sobre o que os outros pensam de nós. Acho que todos devíamos ler porque nos relembra que temos escolha na forma como reagimos ao nosso “mamute”.
Devo ser como tantas outras pessoas. Inseguro de si mesmo e em busca de se afirmar de alguma maneira. Por isso tenho o cuidado de relembrar os meus dois filhos que o seu valor é intrínseco e deve-se apenas à sua existência. Que não é preciso fazerem nada para provarem o valor. São aceites como são. Mesmo que a sociedade diga o contrário e que exiga feitos e conquistas. A maior conquista que quero para os meus filhos é que suguem o tutano da vida, como Robin Williams diz n’O Clube dos Poetas Mortos. Sem máscaras. Para isso, tenho que deixar cair a minha.


