Limites
Definir as fronteiras do bem estar do núcleo familiar.
Não foi há muito tempo que compreendi melhor o conceito da imposição de limites. Foi com a psicóloga Nicole Lepera, no primeiro livro que li dela. E foi esse mesmo livro que funcionou como pontapé de saída para eu começar a olhar para o meu processo de terapia como algo essencial. Conhecendo-me, conheço os meus limites.
Permitam-me uma tradução livre de uma das suas definições.
Limites: A delimitação pessoal e clara de como as pessoas se comportam para connosco. Boundaries: “A personal clear limit for how people behave toward us.” (Dr. Nicole Lepera of The Holistic Psychologist).
Durante anos - principalmente com as pessoas com quem estabelecia uma relação de dependência emocional (e esta questão será todo um outro texto) - tive dificuldades em traçar linhas claras do que eram os meus limites. Ficava com uma sensação de desconforto desagradável na barriga e um sentimento já muito familiar de impotência - com outras origens, é certo, mas que, todavia, assumia o papel de gatilho emocional. Evito conflitos - pelo que me fazem sentir - logo evito evidenciar os meus limites para não me colocar em posições conflituosas. É complicado, eu sei, mas faz parte da minha humanidade.
A primeira dificuldade com este processo de delimitação é ter o auto-conhecimento do que estou a sentir e perceber que necessidades preciso de priorizar em detrimento das dos outros. Trocando por miúdos, preciso compreender o que sinto para poder saber que limites colocar em situações que me façam sentir desconfortável.
Nem sempre é fácil perceber onde estão e que forma assumem estas fronteiras, é certo. A minha geração, por exemplo, foi educada a suprimir o que está a sentir e a ver os seus sentimentos e emoções ignorados, desvalorizados e até ridicularizados. Salvo raras e honrosas exceções, não temos maturidade emocional para identificar o que estamos a sentir. E, nesta ignorância, não impomos os limites que não sabemos que precisam ser impostos. E esta desconstrução pode bem nunca acontecer.
Numa primeira instância, como Pai e um dos cuidadores primários dos meus filhos, cabe a mim e à minha companheira delimitar os comportamentos e ações que aceitamos para com os nossos filhos. Arrisco-me a dizer que isto até nos sai naturalmente no início da jornada da parentalidade: as limitações ao contacto físico da criança que impomos aos outros, a forma como avaliamos o trato e tratamento médico, a escolha da primeira creche e respetivo projeto educativo. Impomos a nossa visão de como queremos que seja o trato com o nossos filhos pelos familiares. E, mais importante que tudo, decidimos em que tipo de ambiente queremos envolver os nossos filhos. É sabido que o meio ambiente e estabilidade emocional do contexto sócio-familiar são fatores de extrema importância na formação das crianças. Os exemplos de ações que são observados, a tipologia das conversas escutadas e a atitude na resolução de conflitos, são observados e apreendidos. Por tudo isto, os limites do que aceitamos para os nossos filhos são imperativos, para além de formativos.
Mas nesta ânsia de querer o melhor para as crianças, conscientes de tudo o que as pode influenciar - e traumatizar - devemos questionar. Quando, e de que forma, devemos impor limites a quem nos está a fazer mal, seja através de ações diretas ou de comportamentos tóxicos?
Eu reajo muito mal a pessoas tóxicas. Tendem a espoletar o que há de pior em mim: as minhas piores reações, atitudes, comportamentos e forma de estar. Hoje sei que este tipo de comportamento afeta as minhas necessidades de justiça, paz e tranquilidade e o mecanismo que assimilei para lidar com isto foi ser ainda mais tóxico, provocador e conflituoso. Mas como saber se estou a exagerar ou ser injusto na reação? Estou a ter uma resposta natural ao comportamento que está a ser tido comigo?
Acho sempre que estas questões não têm respostas simples nem podem ser simplificadas. Mas, em boa verdade, há uma maneira de medir a necessidade da imposição de limites. Quando o nosso bem-estar é posto em casa. É uma definição muito subjetiva, assim como aquilo que consideramos ser o nosso bem estar e respeito pela nossa integridade. E, extrapolando para a questão do nossos filhos, quando o bem-estar do núcleo familiar é posto em causa. Quando as necessidades básicas de tranquilidade, estabilidade e segurança são postas em casa, elas devem ser asseguradas a todo o custo. Sejam quais forem as nossas definições destes conceitos e partindo do princípio de que agimos em boa-fé. Isto implica afastar pessoas nocivas - mesmo que tudo o que façam seja em perfeita ignorância e com a melhor das intenções. É cortar o mal pela raiz e impedir os comportamentos tóxicos de minarem o núcleo familiar, salvaguardando o bem estar de todos. O normal é existir paz e harmonia nas relações. É existir em respeito pelas necessidades individuais de cada um. Para isso, temos que as saber expressar, de forma clara.
Da minha parte, é um trabalho em construção. Definir e exigir respeito pelos limites que acho importantes para mim e os meus filhos não é uma tarefa fácil. Implica um trabalho de reflexão diário e, acima de tudo, de auto-conhecimento. Compreender o que sentimos e porque sentimos não é fácil para os dias de hoje. Sejamos, então, empáticos para os processos diários das pessoas com quem nos cruzamos. Mas também connosco, porque somos os principais intervenientes nesta desconstrução e somos merecedores dessa empatia.

