Ironias, Chavões e os melhores 20% de 2023
Olá!
Entrámos em 2024. Muitas pessoas aproveitam esta data para fazer um balanço e perceber as expetativas para o próximo ano. À minha maneira, já pensei nas minhas mas, não querendo agoirar, guardo-as para mim. Enfrentar-me-ei no final do ano e perceberei o que poderia ter feito melhor. Até lá, dia a dia, momento a momento, lua a lua, vou ser a melhor versão de mim mesmo que me for possível. Porque sinto que o ano que se avizinha vai trazer muitas mudanças, novos projetos, novas formas de pensar e olhar este mundo. Ele está mais cruel e frio, no geral. Há muita indiferença para com temas que nos fazem chorar baba e ranho nos filmes, ironicamente. Agora que acontece na vida real, em direto, ficamos em silêncio. E nessa ausência de som escuto o meu incómodo com os lugares comuns. Chavões que ouvi ao longo da vida: “como foi possível?”, “nunca mais” ou “hoje em dia isso não seria possível”. Há limpezas étnicas a acontecer no preciso momento em que escrevo estas palavras. O horror desenrola-se e torna crianças, mulheres e homens inocentes em vítimas. Da crueldade de uns e da indiferença de outros. Temos um novo chavão: “é complicado”. Escudamos a nossa cumplicidade silenciosa atrás destas duas palavras, lavando as mãos como Pilatos. É irónico porque enquanto me debato com estas ruminações mentai - e aproveito o privilégio da paz, segurança e estabilidade em que vivo - nalguns lados do mundo vive-se na iminência da morte. Pudessem antes ter uma intermitência, diria Saramago. Há uma desproporção existencial no mundo. Nos últimos meses ultrapassou a clássica luta de classes, tomando uma proporção diferente. Assistimos, diariamente, à perda da humanidade, de uma forma geral. Já não nos escudamos nos sistemas económicos e políticos onde vivemos para justificar o injustificável. Vamos escamando o que nos torna humanos. Quando soubemos, ou deixámos de poder negar, dos milhares de Judeus exterminados na Alemanha Nazi, ficámos horrorizados. A memória fantasmagórica, a personificação do mal: o Holocausto. Mas agora vemos em alta definição o extermínio na mesma escala - sem fornos crematórios, mas com bombardeamentos em campos de refugiados - e ficamos indiferentes, dormentes. Agora sabemos e não pudemos negar desde o início. Irónico. Pergunto-me: se o povo palestiniano tivesse feições mais ocidentais - caucasianas, portanto - a indiferença seria igual? Aquando da invasão Russa na Ucrânia, ficámos novamente - e corretamente - indignados e com uma vocalização nacional e internacional como há muito não via. Talvez seja porque o povo Ucraniano tem a benesse de ser mais loiro e com uma pele clara. Irónico.
Fico intrigado com estas ironias, incongruências e incoerências que vou aceitando que são nucleares na humanidade. Encolho mentalmente os ombros: o que podemos fazer? Acho que todos sabemos a resposta, mas evitamos enfrentá-la. Porque é difícil e dá trabalho: sermos melhores uns para os outros. Com tudo o que isso implica. Este chavão cheio de raízes (e algum bolor) da tradição Judaico-Cristã que nos faz tanta falta nos dias de hoje. Amor e empatia para com o próximo. Usarmos ambos como lente para as nossas visões míopes do que se passa à nossa volta. Quando a greve, seja ela qual for, nos incomoda e cria dificuldades, tentar de forma empática perceber a sua origem - nobre, como quase todas as reivindicações por melhores condições de vida - e abraçar as consequentes dificuldades com aceitação. Quando a conversa difícil sobre valores e direitos humanos nos deixa desconfortáveis, tê-la na mesma. Quando nos são apontados erros ou falhas, refletir sobre a origem dessas críticas e julgamentos e perceber quais as necessidades e contexto de quem as pratica. Aprender a estar com os nossos desconfortos e perceber que não devemos fugir deles, mas sim aceitá-los como parte integrante da nossa existência. Nessa aceitação podemos encontrar aquela nesga de espaço para crescer mais um pouco. Somos há muitas décadas socializados num individualismo crónico que nos isola. E há muito medo - fundamentado, bem sei - em visões coletivistas e comunitárias. Mas acho que precisamos de começar pelas bases e procurar melhorar os nossos núcleos mais íntimos e as nossas comunidades mais próximas com base no respeito mútuo, na empatia, na aceitação. Porque só assim podemos começar a gerar mais solidariedade entre todos: nas nossas famílias, nas pessoas que nos rodeiam, nas comunidades. Extrapolemos esta harmonia e crescimento à escala regional, nacional, internacional e global. O que seria, penso, meio relutante e meio esperançoso.
Eu escolho começar em casa. Ser Pai é também poder criar um espaço de liberdade, sentido crítico e imaginação orientados para um mundo melhor. E só o posso fazer através do exemplo: da forma como trato as outras pessoas, como ofereço empatia, como inserimos as nossas atividades como família dentro de um espírito comunitário. Como partilhamos os nossos recursos, somos generosos, ajudamos e apoiamos. Incondicionalmente. Na forma como acolhemos, abraçamos e escolhemos amar. Não é fácil. Lutamos contra condicionamentos geracionais e sociais, somos impelidos a sermos egoístas. Temos que escolher, nas nossas ações, ser altruístas para conseguirmos encontrar versões melhores de nós mesmos. Nem sempre conseguimos, é certo, mas somos o somatório de todas essas ações. Se a maioria, for em prol de um bem maior, é esse o exemplo de parentalidade que passamos. As palavras de nada valem para uma criança que todos os dias nos observa e aprende connosco.
Estas crónicas semanais nascem de uma necessidade de escrever e os últimos quatro meses têm servido para perceber que voz é a minha. Falo de ser pai, ser filho, trabalhador, professor. Falo das várias dimensões que me compõem, todas com a sua complexidade muito humana. Mas, enquanto ponderava no que esta crónica semanal significa para mim, e como queria que ela crescesse no futuro, perguntei-me: escrevo para quem? Quem é que é o meu leitor imaginário, com que propósito escrevo, peso e escolho o que dizer? Andei a escrever sem grande consciência da resposta. Até me aperceber do óbvio: escrevo para os meus dois filhos. Escrevo o que gostaria que eles lessem. Que conhecessem sobre mim. Que sou feito de falhas, de sonhos, de ambições. De amor. Porque há uma imensidão interior que guardamos dentro de nós que muitas vezes não conseguimos dar a conhecer no tempo de uma vida humana. Somos demasiado imensos. Quero que eles tenham a possibilidade de perceber porque penso certas coisas, sinto e penso do que sinto, e o que é realmente importante para mim trazer ao mundo. As reflexões, opiniões, ideias, descobertas. De como devemos esperar o melhor de todos mas preparar-nos para o pior. Escrevo para que também possa pensar a paternidade, as relações e a vida em geral com quem me lê. Olhar para o exercício da masculinidade de forma diferente. Estas crónicas são o testemunho desse exercício, dessa desconstrução.
Agora que 2023 acabou, permitam-me a ousadia de escolher as coisas que mais gostei de consumir este ano. Foram obras e conteúdos que me deixaram marca. E quando levamos essas marcas connosco, sabemos que o livro, a música, o filme ou o que quer que seja era mesmo bom. Não quero ser presunçoso; são mesmo coisas que tiveram um impacto na minha vida ou perspetiva dela. Se forem atrás de alguma destas recomendações, digam-me coisas. Também vos quero ouvir sobre as coisas que acho interessantes.
Abraço-vos, imensamente grato por me lerem.
Até para a semana!
20% de 2023
Livros
Daniel & Gabor Maté - The Myth Of Normal (O Mito do Normal)
A Sofia ofereceu-me este livro num aniversário (ou natal?). Um livro seminal no entendimento do trauma e condicionamento traumático que é provocado por fatores externos. Não é um compêndio académico mas sim uma reflexão que o comum mortal pode entender. Fazem falta estas reflexões. Sobre trauma com a letra “t” minúscula ou maiúscula. O entendimento que trauma não e o que nós acontece mas sim a forma como reagimos ao que nos acontece. Há toda uma socialização de traumas que varia conforme a nossa classe, género e lotaria social e genética. Que o nosso ambiente social e familiar é um fator determinante. E precisamos falar disto, sem entrar no registo de culpabilização da nossa ascendência. Para perceber e, com um melhor entendimento, corrigir. Mudar. Fazer de outra forma. Entretanto ele foi traduzido e publicado em Portugal durante 2023 pela Lua de Papel e acho que é a obra que mais me impactou no último ano.
Rick Rubin - The Creative Act: A Way of Being
Sempre gostei de ler livros sobre o processo criativo. O Robert Mackee aguçou-me o apetite com o Story, o Stephen King com o seu On Writing mas em cada um deles senti que faltava alguma coisa. O processo criativo tem qualquer coisa de esotérico e efémero que precisa de uma abordagem diferente das sistematizações ou descrições de processos individuais. O Rick Rubin é um produtor musical por detrás de inúmeros sucessos com uma filosofia e sensibilidade artística fora da caixa. E o livro dele é exatamente um tratado de inspiração taoista sobre a criatividade. Não é um livro para se ler de rajada. Está estruturado para quase impossibilitar a leitura rápida e consumista. É para saborear e refletir a cada instante. Gostei muito dele, porque me fez pensar em novas formas de abordar a minha própria criatividade e olha-la numa perspetiva espiritual - talvez a primeira vez em que a vi nesta perspetiva e me tenha parecido tão lógica e natural. Recomendo a todas as pessoas com um fascínio pelo processo criativo. Porque o livro cumpre com um dos desejos do autor que é servir como catalisador para criar. Rara é a vez que folheio o livro e não fico com vontade de fazer alguma coisa. Um sucesso, portanto. Também já se encontra traduzido e publicado em Portugal.
Podcasts
Sou fã de podcasts, assumo. Num dos programas académicos que leciono, chego a dar uma aula inteira sobre o que são podcasts, a sua origem e o que os torna tão distintos enquanto formato de áudio. Ouço enquanto caminho, no ginásio, enquanto cozinho, enquanto passeio com o M. no porta-bébés. E aprendo muito. Há uma democratização no acesso a conteúdos de áudio - e respetivo conhecimento - que valorizo muito. Vou conhecendo outras visões, que muitas vezes chocam com a minha, e vou aprofundado temas num formato que me é fácil de absorver: a palavra falada.
Estive indeciso se ia escrever uma lista dos melhores programas de podcasts ou se iria escolher os episódios que mais me marcaram. Optei pelos episódios, para poder balizar melhor os temas que são tratados e/ou as pessoas que são entrevistadas.
Não sou muito dado a gurus da felicidade. Mas ver o tema tratado de forma académica por um professor de Harvard fez-me perder algum ceticismo e escutar a conversa com algum foco. Também dou valor ao Rich Roll que tem feito um trabalho incrível como entrevistador e fala sobre temas duros e difíceis de escutar, com os mais variados tipos de pessoas- tal como eu gosto. Falar sobre felicidade é tentar quantificar aquilo que percecionamos como um sentimento de bem estar: alegria, entusiasmo, contentamento. Mas a felicidade, vamos percebendo nesta conversa, não é palpável. Não é uma meta. E percebemos muita da influência da filosofia e cosmologia budista (apesar de ser um acérrimo e praticante católico) em Brooks quando ele assume a felicidade é o caminho a percorrer. Esta conversa vem a propósito do seu novo livro co-escrito com a Oprah Winfrey Build the Life You Want: The Art and Science of Getting Happier.
A Beleza das Pequenas Coisas com Diogo Faro
Gosto muito do trabalho que o jornalista Bernardo Mendonça tem feito com o seu podcast. Sigo-o quase desde o início e vou ouvindo os entrevistados que me cativam o interesse. Se fosse 2022 o ano que tivesse terminado recomendaria a maravilhosa conversa que foi tida com o Padre Tolentino Mendonça. Mas estou a falar de 2023 e tenho que falar sobre o episódio com o Diogo Faro. Para além de interessante, fez uma desconstrução importante desta pessoa que tanta animosidade gera. Do suposto extremismo, que afinal é apenas o mais básico humanismo, à postura humilde e sensata. E também auto-consciente do seu privilégio. Foi uma conversa surpreendente que gostei muito de ouvir.
Na mais recente conversa do Huberman com o Rick Rubin, surge uma referência a um podcast sobre a história do Rock em 500 canções criado por Andrew Hickey. É um autor mistério, de acordo com este artigo da New Yorker. Contudo, tem criado desde 2018 um dos podcasts sobre música mais fascinantes - e bem construído - que já tive o privilégio de ouvir. Já lá vão alguns anos de episódios pelo que proponho que os listem dos antigos para os recentes; logo na introdução, ele explica ao que vem e assume que é um projeto para os próximos 10 anos. Tem também o intuito de publicar um livro de 2 em 2 anos para fazer o apanhado da sua missão de contar a história do Rock em 500 canções. E, até agora, tem cumprido. Já lá vão dois livros e quase duas centenas de episódios. Ainda só ouvi os primeiros 3 e aprendi mais sobre história do rock do que em toda a minha vida. Tem sido uma aventura didática e divertida, porque Hickey permite-nos escutar excertos de bandas e artistas a que se refere e sempre muito bem contextualizados.
Filmes & Séries
Não tenho conseguido ver filmes. Vi alguns, claro, mas sinto que precisava de ter visto mais. Principalmente em sala. São hábitos velhos de quem estudou Cinema na faculdade que não quero largar. Mas vou deixar algumas referências que achei interessantes. Depois de ler um livro sobre Budismo que acompanhou o Bertolucci nas filmagens de O Pequeno Buda (”Buda e os Seus Ensinamentos” de Samuel Bercholz e Sherab Chödzin Kohn, nesta edição com prefácio do próprio Bertolucci) consegui ver o filme. O Keanu Reeves primeiro estranha-se e depois entranha-se. O filme consegue captar algum do misticismo das filosofias e doutrinas budistas de uma forma muito interessante. Há qualquer coisa na fotografia do filme que tenta replicar a essência transcendental da budicidade - uma aura energética que casa muito bem com a narrativa: a história canónica da vida de Buda.
Tive o privilégio de ter ido ver o Oppenheimer em sala. Gosto da maioria das coisas que o Nolan já fez. E achei a biopic muito bem conseguida: em termos imagéticos, perfeita. Há um trabalho da cadência e sequência de imagens do mundo atómico que hipnotizam e tingem a narrativa de uma profundidade. A escolha estilísticas do tremelicar da câmara/imagem quando o personagem principal está sob stress. A brilhante interpretação do Cillian Murphy torna tudo ainda mais arrebatador. A narrativa pode pecar pelo americanismo (demasiado) exacerbado, mas penso que seja um pecado menor no grande esquema das coisas. Conto que em 2024 consiga ir mais vezes ao cinema!
Outros
Este ano descobri a Maria Popova do blog The Marginalian. Antigamente chamava-se Brain Pickings, mas também não conhecia na altura. Fiquei fã desde a primeira leitura. Há peso em cada texto. É denso, no sentido filosófico da palavra. Requer tempo. Pausa. Mas cada palavra é tecida cuidadosamente para expressar uma ideia e desenvolver um pensamento que se vai interligando com outros, de outras hiperligações. Sinto que a página dela é um organismo literário vivo, uno, que nos impele a descobrir pérolas que alimentam a alma e o intelecto. É ainda mais fascinante perceber que é o trabalho a tempo inteiro dela, que existe e depende das doações dos seus mecenas e há quem queira e precise destes conteúdos. Numa era de imediatismo, vídeos curtos e textos com 280 caracteres, cada crónica semanal da Popova é uma lufada de ar fresco. Ela também é deveras interessante, e deixo-vos aqui uma das conversas que ela teve com o Tim Ferris no podcast dele.
Vou terminar estes 20% com uma recomendação que não é novidade nesta página, aqui e aqui. A Vanja Vukelic é uma artista. Acho que é a melhor forma de a descrever. Também é mãe, ativista, humanista, espiritual. E escreve uma das newsletters que mais anseio receber na minha caixa de e-mail. Sinto-me em harmonia com o que ela escreve, semana após semana. Desde a sua cosmovisão, à forma como encara a arte, à honestidade com o que produz, escreve e pensa. À forma simples de ser, da forma mais humana possível, uma criadora. Já me fez chorar, pensar, querer agir e perceber que podemos todos contribuir para um mundo melhor de muitas formas. Ela tem uma loja e assina a newsletter Multilayered. Vão lê-la, acho que não se vão arrepender.


