Irmão mais velho
Agora és irmão mais velho, com tudo o que isso acarreta.
Esta crónica foi escrita num passado não muito distante e acabou por não ser publicada na altura. Estivemos todos de férias esta semana e, então, permiti-me publicar este texto que tinha na gaveta. Espero que (ainda) faça sentido e que gostem.
Eu tenho a clara memória de sempre ter querido ter um irmão.
Tenho duas irmãs, vinte anos mais velhas que eu. Amo-as muito, mas a diferença de idades sempre fez delas uma espécie de segundas mães. Quando tinha oito anos já ambas tinham saído de casa e acabei como uma espécie de filho único.
O que eu queria era ter companhia. Um parceiro, ou parceira, para as brincadeiras e, acima de tudo, ter alguém com quem me conectar - sempre senti que os meus pais eram mais uns avós com a minha custódia. Tiveram-me tardiamente, aos quarenta e três anos. Uma geração bem distante e diferente da minha. Quando vim ao mundo, já não acompanhavam a minha energia. Acabei por não brincar com eles, não joguei à bola, não tenho memória de os ver correr comigo. Faziam outras coisas, claro; mas senti muita falta de companhia lá em casa.
O A. é agora o irmão mais velho e acho que enverga essa camisola com orgulho. Ainda nem um ano passou, mas ele quer sempre interagir com o irmão, fazer-lhe parvoíces e estar com ele. Quase todas as manhãs, assim que o sente acordado, vai a correr para se deitar com ele na cama. Acabamos, muitas vezes, os quatro juntos a rir e a fazer macacadas. O A. estica o seu dedo indicador e, devagar, toca na ponta do nariz do M. E diz “Púp!”, como se de um botão de carinho se tratasse.
Acabo por sentir inveja desta interação. Mesmo com a diferença de idade entre ambos, sinto que têm uma relação única e muito bonita. O mais velho é ternurento e bondoso por natureza. Nutre um carinho e amor pelo irmão que me comove e que reflete a maturidade que às vezes me esqueço que tem.
Claro que de vez em quando acusa a presença de um novo elemento que lhe roubou o estatuto de filho único. Ambos os pais estão mais ocupados com as lides domésticas e o cuidado com o bebé e a disponibilidade agora é outra. Há ciúme também. Ele aparece sob a forma de chamadas de atenção ou frustrações exacerbadas. Quando se mostra muito prestável e maduro ou quando se frustra com um de nós e se zanga. Vou-me lembrando que é uma criança que está a regular novas emoções e a gerir expetativas. Conheço tantos adultos que têm dificuldades com isto, que me esforço para ter empatia para todo o processo de adaptação que está a ser esta jornada a quatro. Quantas vezes eu não consigo ter a maturidade emocional para lidar com o que se passa na minha vida?
É preciso um cuidado redobrado com o filho mais velho para nunca o fazer sentir-se responsável pelo irmão. Não é o nascimento de um bebé que lhe vai retirar o direito a ser criança. Infelizmente, temos esta ideia do irmão mais velho como co-responsável e co-cuidador dos irmãos muito disseminada na nossa sociedade. Quantas vezes ouvimos dizer que “agora tens que tomar conta do teu irmão”. Fomos pedindo ao nosso círculo social e familiar para não verbalizarem este pensamento. Porque a responsabilidade é sempre dos progenitores ou cuidadores das crianças. A decisão foi dos adultos e não pode ter como consequência uma responsabilização da criança mais velha. Parece-me perversa a ideia de se roubar a infância, a inocência e a liberdade que se encontra na ausência de responsabilidade. Ouvi já várias vezes de casais com filhos mais velhos afirmarem que “a mais velha/o já ajuda muito, é um descanso”. Não é suposto ser um descanso. Olho com empatia para estes irmãos mais velhos e não sei como os acolher. Sinto-os preteridos, forçados a cuidarem de alguém sem serem consultados nem tidos em conta. Simplesmente porque as coisas são assim. Já aqui falei muitas vezes sobre termos sentido crítico e questionamento das coisas como elas são. Este é um caso claro onde o questionamento pode proteger a integridade emocional de uma criança. Onde um dogma social que considera as crianças mais velhas uma espécie de tutores protetores dos mais novos pode e deve ser desconstruído. E isto é fácil de se conseguir. É só não pedir ao mais velho para tomar conta do outro; porque quando só havia um, era sempre um dos pais a tomar conta. É não fazer crer que há um sentido de responsabilidade ou de dever para com o irmão. Essa tarefa é dos pais.
É na nossa ação que podemos influenciar o comportamento dos nossos filhos. Aceitando as suas reações e dando-lhes espaço para poderem existir - tarefa que nem sempre é fácil de se conseguir. E confortando, tentando lembrar que continuamos a amá-lo como são, como sempre, e que os seus pedidos serão atendidos. E nesta prática, fazê-los perceber o que são necessidades e desejos e as diferença entre ambos. É mais fácil escrever sobre estas ideias do que as por em prática. Nós, pais, somos feitos da matéria que habita os dias e nem todos os dias temos a força de vontade para sermos super pais conscientes. E ter esta noção é meio caminho andado para garantirmos a única coisa que poderemos garantir: que todos os dias vamos dar o nosso melhor. Acho que desta forma podemos vir a mostrar como lidar com compassos de espera e com a distribuição da atenção dos pais.
Até para a semana,
João

