11 Comentários
Avatar de User
Avatar de Raquel Dias da Silva

Também sonho e penso muitas vezes que se calhar não acabei o meu mestrado, provavelmente porque há anos que não faço nada com ele (nada como quem diz; na verdade faz parte de mim e tenho a certeza que a forma como abordo determinadas tarefas no meu trabalho e até no meu dia-a-dia sofrem de alguma forma influência do que aprendi em comunicação de ciência). De resto, sobre a questão das expectativas, acho que é inevitável tê-las, para os outros, mas sobretudo para nós próprios. Elas não nascem necessariamente de alguém, como um pai, a dizer-nos que temos de ter boas notas e escolher um curso que dê dinheiro, mas das comparações que vamos fazendo ao longo da vida (sobretudo agora que as vidas dos outros, ou a vida que os outros efabulam, está exposta nas redes sociais). Acredito que haja quem seja mais resistente a essas pressões externas e espero que a minha filha venha a ser uma dessas pessoas, mas acho que é importante não nos massacrarmos tanto com questões que talvez não estejam tanto sobre o nosso controlo como pensamos.

Avatar de João Azevedo

Que curioso partilhares esta tipologia de sonho da não conclusão de um curso. Também te assalta a sensação de insuficiência para o concluir? E concordo, claro, que muitas das expetativas também são criadas pelas pessoas com que nos vamos cruzando, dos meios onde crescemos e nos formamos. São pressão externas, lá está, mas que quero acreditar que é possível fazer uma desconstrução dessas mesmas pressões: que não passam de conceitos ilusórios de valor próprio que ignoram que já o temos (o valor) a partir do momento em que existimos. E apreender este conceito, para mim, é o que permitirá que os meus filhos construam uma maior resistências a essas mesmas pressões. A minha reflexão não vem de um sentimento de opressão destas questões, mas sim de como podemos construir formas de viver e estar que possam lidar com as pressões e conceitos sociais menos benéficos de formas mais saudáveis. Concordo que não devemos recear e remoer estas temáticas, mas acho importante pensarmos nas melhores formas de as encarar.

Avatar de Raquel Dias da Silva

Sim, quando penso sonho/penso que se calhar não concluí o curso, assalta-me sobretudo um sentimento de impostora, como se andasse a enganar as pessoas todas à minha volta e a minha vida possa estar à beira de acabar quando os outros descobrirem 🤣

E percebo melhor agora o que dizes sobre a importância de racionalizar estes medos e descobrir como os ultrapassar

Avatar de João Azevedo

Também tenho muito essa sensação do impostor, com o meu pai, que lhe estou a custar dinheiro para nada. É isso, continuar a refletir sobre como podemos fazer melhor, a cada momento.

Avatar de Gonçalo Pinto

Muitas e muitas vezes acordo sobressaltado, angustiado depois de acordar de algo que em sonho parecia real...desta vez.

A questão das expectativas é crucial para estudar várias dimensões da vida social.

Padronizam-nos à nascença, para sempre.

E, afinal, quem decidiu nascer? E quem escolheu o que ser, como, onde?

O "menos dotado", não consegue porque não quer; o "feio" não arranja alguém porque não se esforça (afinal, há sempre uma "tampa para cada panela") e quem nos ensinou a só apreciar o físico?

O criminoso, escolheu o que fez e faz e vai continuar a fazer se for "atirado" para trás das grades?

O adúltero, tem culpa, ou viu e segue padrões?

A verdade pode ser "sim" a todas as perguntas, ainda assim, ninguém escolheu ser e fazer o que é e faz!

A nível de evolução de consciência dos comuns, não podemos continuar, só a atirar culpas.

Devemos condescender diante do errado? Não! Devemos entender que a "cura" é um caminho conjunto, que desistir do outro não é hipótese, que abrir portas à aceitação da diferença é preciso e que a nossa liberdade termina sempre onde começa a do outro, é uma verdade e princípio eterno!

Avatar de João Azevedo

São questões pertinentes, claro. Regressamos sempre ao eterno dilema de saber se como bons por natureza ou é a natureza que nos torna bons (ou maus, claro está). Mas acredito que podemos fomentar ambientes e nutrir relações com quem amamos e de quem cuidando de outras formas. Mais benéficas, do meu ponto de vista. Obrigado pelo comentário!

Avatar de João Madureira - Nutricionista

Olá. Ainda agora comprei o livro "Somos Animais Poéticos" de Michele Petit, que aborda também o facto de precisarmos de arte, de coisas que não têm um valor muito claro. Precisamos de experimentar, que, no fundo é a base da ciência.

Outro comentário que posso fazer é a estranheza com que encarei um conceito do budismo tibetano, de ver sempre os outros como mais importantes que eu. Sempre achei um pouco estranho, pois é óbvio que eu valho o mesmo que os outros. Mas ultimamente tenho percebido como é um "meio hábil" tão eficaz para lidar com os problemas do dia-a-dia, onde temos sempre a arreigada mania de nos colocarmos no centro do universo.

Avatar de João Azevedo

Olá João. A premissa desse livro parece-me interessante, vou adicionar à lista de leituras futuras. Em relação ao conceito budista de vermos os outros como sendo mais importantes, percebo que como técnica possa funcionar, como exercício de "descentralização" de nós mesmos. No entanto, também o estranho - ou se calhar, desconfio. Porque esse mecanismo pode ter consequências terríveis na perceção que temos de nós mesmos. Pode, também, contribuir para a anulação da nossa ação em detrimento de outros, seja porque razão for. Percebo o fundamento ideológico, mas, lá está, desconfio - e esta desconfiança talvez seja consequência dessa tal mania de nos colocarmos no centro do universo, mas mesmo assim, desconfio.

Avatar de João Madureira - Nutricionista

Eu também concordo que a anulação do individual nos países budistas é um bocado doentia, e pode servir para controlo político da população. Mas em termos de aplicação às relações pessoais, acho cada vez melhor.

Claro, os monges alertam que não se trata de cumprir todos os desejosinhos das pessoas, e muito menos de pactuar ou apoiar pessoas com agendas imorais.

Mas para as relações sociais, acho que talvez seja mesmo a chave da extroversão, do intercâmbio de ideias construtivas. Pelo menos é o que eu tenho sentido. Especialmente se tivermos um ego um pouco disfuncional como o meu.

O livro parece-me interessante, é de uma antropóloga. Comprei na livraria Inquieta.

Avatar de João Azevedo

Contudo, traçar os próprios limites sobre onde a nossa abnegação deve terminar não é fácil. Mas percebi o teu ponto, em termos sociais e relacionais, pode ser útil e benéfico.

Avatar de João Madureira - Nutricionista

Tenho visto referires-te ao "igual valor". Acho que és uma pessoa que busca a justiça, por isso espero que talvez te interesse este comentário:

Falando outra vez do budismo (eu sei que pareço uma cassette riscada), uma das coisas que gosto mais é de ser uma ideologia que não deixa espaço para nenhuma posição intelectual.

Há, por exemplo, o ensinamento dos 3 Complexos. As pessoas vêem-se como superiores às outras, ou como inferiores. E ambas são obviamente erradas. Mas a terceira posição, de que somos iguais, também é uma ilusão.

Há um ditado holandês a que vi referência no outro dia, e que os holandeses gostam muito: "não somos iguais mas temos dignidade igual". E claro, apesar de terem um rei e outras elites.

Acho que uma coisa é a lei, outra coisa é a interação social. Desejar o máximo de bem aos outros é pôr em cheque o ego e a sua ganância, que é o modo padrão em que funcionamos.

Acho que o capitalismo seria um sistema óptimo, se, em vez de incentivo ao lucro e à ganância, as pessoas se importassem primeiro com os outros.