Frustrações
Olá,
Um dos grandes choques que tive quando me compreendi como pai foi ter que tentar dar ferramentas aos meus filhos que eu próprio não domino. Como se lhes tivesse que ensinar a operar uma máquina sem nunca a ter visto. Sendo um homem criado numa estrutura patriarcal, as questões emocionais nunca foram lineares, bem pelo contrário. É-me difícil gerir emoções ou reconhecer o que estou a sentir; e não reconhecendo, torna-se quase impossível integrar e acolher essas sensações. Não me estou a desculpar: tenho plena consciência que, em comparação com as gerações anteriores, a minha literacia emocional tem evoluído. Foi feito um trabalho em terapia enorme e faço esforços activos - e até divertidos - para enfrentar as minhas lacunas.
A nobre arte de lidar com a frustração
Isto não é uma sinalização de virtude, tão comum nos dias de hoje. Tenho, hoje, ferramentas para lidar emocionalmente com o meu dia-a-dia que o meu pai, por exemplo, nunca teve. Não tenho interesse em fazer gestão de uma imagem pública porque a minha prioridade é ser o melhor que consigo ser em casa. O resto é resto. Todavia, tenho a metacognição que perante os desafios da parentalidade a que me proponho – as minhas intenções alinhadas com os valores e crenças – fico aquém do que gostaria de ser. Sinto que ser pai ou mãe, em consciência, é muito isto: uma constante sensação de insuficiência ou falta para com as nossas crias. Lido mal com a frustração; custa-me a dificuldade de não conseguir resolver algo ou não conseguir alinhar a minha mundivisão com outra pessoa. Era assim em criança: chorei baba e ranho por não conseguir desenhar a letra i. Foram inúmeras as vezes que me enervei porque não compreendi um processo matemático e não conseguia avançar na solução da conta. Faltava-me a capacidade de respirar, de criar espaço mental e tentar novamente, com calma. A frustração com a minha incapacidade levava a melhor de mim. Chorava, desistia e zangava-me com os cadernos da escola, com níveis de jogos de computador, com primos que me ganhavam no monopólio, com livros demasiado herméticos para o meu nível de leitura. Foi-me diagnosticado défice de atenção e hiperactividade que nunca foi considerado algo sério lá em casa. Admito: as ferramentas que fui reunindo ao longo da vida para lidar com a frustração não foram as mais saudáveis. E hoje, longe dos mecanismos de escape perigosos de outros tempos, noutra fase da vida, percebo que cheguei a adulto com uma deficiente falha na capacidade de lidar com a frustração. Não me tranquiliza saber que estou longe de ser o único e que este problema é socialmente estrutural. A regulação emocional é uma batalha nos dias de hoje. Para as mulheres e, sobretudo, para os homens. Remamos contra uma maré complicada e patriarcal onde nos é ensinado a suprimirr o que sentimos. Como pai, sinto-me insuficiente para lidar com a gestão da frustração dos meus filhos, parece que há um fantasma da insegurança que me garante que não vou conseguir. Sim, estou a anos luz da supressão emocional que gerações anteriores tiveram que lidar, mas o problema ainda persiste na nossa sociedade; e ainda pagamos o preço.
Mitos e Fábulas
A propósito de um evento que espoletou uma enorme frustração no meu filho mais velho, socorri-me da história da lebre e a da tartaruga. Reconheço o enorme poder nas narrativas universais porque acarretam com elas o poder transformador de colocar em perspectiva algo. E de apresentar uma lição, de difícil compreensão, numa forma digerível e que apela ao palato. Neste caso, a fábula permite demonstrar algumas ideias chave: que devagar se vai ao longe, que a pressa é inimiga da perfeição e que quem tudo quer tudo perde. Não deixa de ser curioso que consigo extrair as lições de um mito com ditados populares: é a tal universalidade de certas narrativas a funcionar perfeitamente. Na prática, ensina que devemos fazer as coisas com calma e ponderação, que apressar a execução das nossas tarefas pode induzir a erros e a resultados menos bons e que acharmo-nos demasiado bons em algo pode fazer com que a ideia de dormir numa corrida contra um tartaruga nos parece exequível. Eventualmente, perdemos a corrida. É este o poder da mitologia; nas epopeias dos gregos e romanos com os seus deuses, nas aventuras épicas das divindades nórdicas, nas histórias da bíblia. Há lições que já foram aprendidas há milhares de anos neste colectivo humano e que perduram através das histórias. Espero que esta sabedoria colectiva sirva, também, o meu filho numa próxima vez.
O Poder do Exemplo
Mas vou conseguindo, afinal. Vou descobrindo o que é importante valorizar, as fábulas que melhor ilustram as ideias que quero passar e tento ser o exemplo. Primeiro, assumindo as falhas: pedir desculpa, reconhecer o erro, explicar onde a frustração levou a melhor de mim e, num dia mesmo bom e inspirado, como poderia ter feito de outra maneira. Não vi este exemplo, nunca. Nunca. Nem nos meus pais, nos pais dos meus amigos, nos adultos mais velhos que fui conhecendo. Há um fosso geracional na incapacidade crónica de reconhecer o erro perante os filhos, de assumir a falibilidade, de mostrar a fragilidade, tão humana, de que somos feitos. Depois, tento conversar muito com os meus filhos: tento perceber o que os afligiu ou atormenta e mostro-lhes como eu resolveria as coisas. O meu filho mais velho pergunta-me muitas vezes, se partilho que já passei por situações semelhantes, se posso contar como foi comigo. Quer pormenores de quem eram as pessoas, o que acontecia, como eu lidava. Fico tão feliz quando isso acontece – há elos que se criam somente com uma transparência radical e lá por casa temos tido sucesso nessa secção. Ele procura em mim o reconhecimento do problema e a orientação para a solução. Eu conheço bem a teoria: li muito sobre parentalidade feita de forma consciente, sei os mecanismos que devo promover para uma comunicação saudável e funcional. Mesmo assim, da teoria à prática há um enorme fosso. Demasiadas vezes caio na tentação de dizer as coisas ao invés de mostrar. Mas o melhor é dar o exemplo. Posso contar como lidava com certas situações ou sugerir caminhos que trilhei na procura de soluções saudáveis e empáticas. Mas é no meu exemplo que a coisa se dá. E na falta dos exemplos que precisei, vou tentando construir os meus. Aqui é que vejo e sinto a parentalidade como o maior desafio da minha vida. Porque enfrento não só os meus demónios como sou o farol que os meus filhos utilizam para navegar os deles.
O Efeito Terapêutico da Escrita
Este mês, no clube de leitura da Raquel Dias da Silva , estamos a ler “A Escrita como uma Faca” da Annie Ernaux. O livro tem um registo de entrevista feita por e-mail ao longo de um ano. A certa altura, é perguntado à autora, parafraseando, se a psicanálise tem relevância na sua escrita e na sua criação. Ela afirma que o processo de criação dela e a forma da sua escrita é o oposto “de um trabalho sobre si” p. 50. É inevitável a comparação com a minha escrita e sou obrigado a discordar da afirmação da autora. No meu caso, escrevo longe de psicanálise – escrevo essencialmente através de um fluxo que demasiadas vezes me aparece como inevitável – mas ela é sempre um reflexo das minhas inquietações, quer sejam conscientes ou inconscientes. Os meus textos são uma forma de pensar sobre mim, sobre o que me rodeia. Por vezes, são formas de me forçar a olhar para mim com a distância da palavra escrita e uma tentativa de deslindar o que estou a sentir, porque o estou a sentir e o que tudo isso significa. Por mais que uma vez, em terapia, a minha escrita revelou parte de algo que me inquieta e ter escrito sobre esse tema trouxe-me clareza. A frustração, essa, combato-a também a escrever para lhe conhecer as origens, as zonas do corpo que me habita. Eventualmente, torna-se um paliativo: escrevo para que o peso da frustração diminua. A escrita tem esse poder. Gostava que os meus filhos conseguissem desenvolver mecanismos saudáveis para lidar com a frustração; cá em casa vamos fazendo o que podemos para que hajam aprendizagens conscientes e empáticas. Porque lá fora os exemplos são maus: creio que grande parte dos males do mundo advém da incapacidade de homens frustrados não se conseguirem auto-regular. De, no pico da sua frustração, se sentirem legitimados a serem maldosos para consigo e os outros.
A Construção de um Mundo Melhor
Todos os dias lido com a frustração mal resolvida de outras pessoas. Todos lidamos. É sintomático da sociedade em que vivemos, dos males que a afligem. Também contribuo para esse caldeirão de fel que borbulha todos os dias – faço o melhor que posso para contribuir o menos possível. É uma responsabilidade enorme mostrar aos nossos filhos que podemos fazer de outra maneira. Há dias em que tenho sucesso e vamos todos para a cama empoderados porque sentimos que deixámos o mundo um bocado melhor. Noutros, parece que estou destinado a falhar, a errar e a não conseguir fazer diferente. Por enquanto, o importante continua a ser ter esta consciência e noção de que se pode fazer melhor, de outra maneira. Espero conseguir fazê-lo o máximo de tempo possível e com cada vez menos frustrações. E que os meus filhos também.
Abraço-vos,
João
Tirando uma gralha ou outra, este texto foi escrito com o antigo acordo ortográfico.
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