Fora da Caixa
Olá,
No fim-de-semana passado fui com o A fazer uma atividade pai/filho diferente da do habitual. No grupo de conversa do Paternidades, foi recomendada uma oficina que ia haver em Lisboa, onde se misturava arte-terapia, com psicologia e leitura de histórias infantis. Achei interessante, mas pensei o A não iria achar piada a trocar a natação pela ida a esta atividade. Não obstante, resolvi perguntar-lhe e ele mostrou-se muito entusiasmado e, de facto, preferiu experimentar isto em vez de ir dar os seus adorados mergulhos.
O tema da oficina era “A Zanga Precisa-se”. Abordar as questões da regulação emocional, bem como da normalização da zanga como uma emoção saudável, não é uma tarefa fácil, nem comum. Foi algo que me fez sentido: ir desconstruir as emoções associadas à zanga com o meu filho mais velho, mesmo não sabendo ao que ia exatamente. Mas desde que vi o post a anunciar, fiquei curioso e foi um daqueles momentos em que sentimos que faz sentido, reforçado pelo interesse - inesperado, confesso - do A.
O reconhecimento e integração daquilo que sentimos é um pilar fulcral na nossa formação enquanto humanos. Faz parte da nossa inteligência emocional, tantas vezes descurada e diariamente exigida numa panóplia de situações diferentes. Desde que tomei consciência da minha iliteracia emocional e incapacidade de percecionar e nomear o que estou a sentir - e de como isso afeta vários setores da minha vida - que lá em casa tentamos verbalizar o que sentimos. Tentamos acolher as emoções com perguntas de onde se estão a fazer sentir, o que elas estão a fazer-nos sentir e o que podemos fazer com essas sensações. Tivemos o privilégio de ter conseguido proporcionar ao A dois anos de Jardim de Infância numa escola diferente, onde a gestão emocional era uma das maiores prioridades. O vocabulário dos sentimentos, emoções e necessidades de uma criança com quatro e cinco anos não rivalizavam com os meus; ultrapassavam-nos em larga escala. Arrisco dizer que é o membro da família com maior capacidade de reconhecer e expressar as suas emoções de uma forma saudável.
As zangas fazem parte da nossa vida. É como nós lidamos, numa primeira instância, com o conflito. Muitos de nós, eu incluído, temos formas muito imaturas de lidar com a zanga, caindo em mecanismos e comportamentos pouco saudáveis de lidar com a frustração em situações conflituosas. Reparo que nas gerações anteriores às minhas - e isto é transversal a estrato social e económico - deu-se uma supressão terrível da expressão emocional. Há uma enorme dificuldade em reconhecer o erro, em ser-se imparcial. Porque reconhecer a falha é assumir um desconforto que foi condicionado a ser engolido, ignorado e jamais processado. Eu, como filho e neto destas gerações, fui educado nas mesmas regras mas, desta vez, com um maior acesso à informação, à reflexão e a ter a porta aberta para saber que posso fazer diferente. No final é uma escolha, é sempre uma escolha, mas a grande diferença que vejo é que - social e culturalmente - temos mais ferramentas e informação em relação às gerações mais velhas.
Existir uma oficina que combina arte-terapia, com narração de histórias e reflexões sobre as nossas emoções, para adultos e crianças, é uma grande ajuda nos tempos que correm. Porque normaliza este tipo de atividade e a naturalidade com que podemos mostrar interesse. Ainda há um longo caminho a percorrer: eu e o A éramos os únicos homens. As restantes participantes eram mães e filhas. E isto revela, de imediato, um desfasamento de género no interesse, e procura, deste tipo de atividades. E reforça a iliteracia emocional nos homens e a consequente supressão e condicionamento sócio-cultural. Mas este tipo de oferta existir, é ótimo. Permite começar a percorrer um caminho que gostava de ver banalizado, para o bem de todos. Como já aqui escrevi muitas vezes, devemos almejar ser a mudança que queremos ver no mundo.
Eu detesto trabalhos manuais e não tenho o mínimo jeito para eles. Normalmente, coisas de expressão artística lá em casa são feitas com a Sofia, porque tem mais jeito e é-lhe natural partilhar entusiasmo com este tipo de atividades. Saí, portanto, da minha zona de conforto ao participar nesta oficina. Foi das melhores coisas que fiz nos últimos tempos. Desenhei com pastéis, moldei barro, e construí coisas com múltiplos materiais em conjunto com o meu filho. Não fazia coisas deste tipo há mais de duas décadas, seguramente. Durante as atividades fomos instigados a conversar sobre o que estávamos a fazer. O tema era a zanga, mas abriu as portas para se falar de um manancial de outras emoções, de caracterizar (e desenhar) a nossa zanga, dar-lhes nomes e permitir criar micro narrativas com elas. Nunca tinha feito nada disto e achei muito interesse esta mistura entre terapia de família com a criação artística. Já tinha reparado que quando desenhava (já não acontece há algum tempo) com o A, à noite, antes de irmos para a cama, abria-se um espaço onde podíamos conversar. Era uma mistura de ambiente meditativo da pintura com canetas de feltro e simplesmente estar e conversar. Esta oficina trouxe-me um pouco disto, talvez de uma forma mais estruturada.
O balanço foi muito positivo. Gostámos os dois e faz-nos falta fazer coisas diferentes, sair da rotina. É importante permitirmo-nos experimentar este tipo de abordagens quando fazemos da educação emocional uma prioridade. Quando estabelecemos a intenção de que é este o caminho que queremos para a nossa família. E na tomada de ação, damos mais alguns passos no nosso próprio crescimento.
Até para a semana,
João



Bravo!