Falar do Lugar
Privilégios, consciência e compreender onde a nossa liberdade pisa a dos outros.
Olá,
No filme Conclave, o personagem interpretado por Ralph Fiennes, o cardeal Lawrence faz uma homilia inicial de onde destaco uma frase:
Our faith is a living thing precisely because it walks hand in hand with doubt. If there was only certainty and no doubt, there would be no mystery and therefore no need for faith.
Aqui vai a minha melhor tradução: a nossa fé é uma entidade viva precisamente porque anda de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse somente certeza e nenhuma dúvida, não haveria mistério e não haveria necessidade para a fé.
É um tema que me é caro: a dúvida. A fé também, mas deixo-a para outros textos. Preciso sentir que duvido e é no constante questionamento que tento responder a perguntas com mais perguntas. Talvez por ter vivido parte da minha vida a procurar e a defender certezas e me ter apercebido o quão difícil é defender dogmas. As certezas fecharam-me numa caverna a olhar para sombras indefinidas e a tomá-las como o verdadeiro mundo, como na alegoria. No filme, um thriller político passado dentro do Vaticano durante a eleição de um novo Papa, o cardeal apela a valores importantes que um líder deve ter: humildade, questionamento, aceitação, dúvida. Num mundo dominado pela sede de poder, individualismo, egoísmo e sobrevivência do mais apto, este apelo pode cair em saco roto ou, pior, pisar os calos de poderes instalados ou que se querem instalar.
Uma das questões com que me debato - continuam a ser questões, pois as respostas variam de dia para dia - é sobre o lugar de fala e falar do lugar no mundo da ficção. A literatura é um ato político e escrever é exercício de ação direta; são redutos da liberdade e imaginação. Devem as regras e morais vigentes ser aplicadas à escrita e às histórias que gostamos de imaginar? Podemos, ou devemos, separar as águas da ficção da ação política, do discurso social? Isto é sequer possível? Desejável?
Destrinço um pouco este raciocínio: a cultura, no geral, tem o poder de influenciar a sociedade. De quebrar tabus e padrões tóxicos, criticar o status quo, seja através de humor ou narrativas cativantes. Também tem o poder de perpetuar estereótipos; recordemos o homem negro brutalizado e violento que fomos conhecendo ao longo do último século em livros e filmes, ou o espírito reivindicativo das mulheres associado ao histerismo e diagnósticos de disfunções mentais. Há uma tendência das estruturas dominantes - neste exemplo, racistas, classistas e patriarcais - de perpetuar mitos e ignorância sobre os outros, sobre o desconhecido. Essas fábulas apelam ao medo e desconfiança porque o pensamento crítico, a empatia e solidariedade põem em causa os valores dessas mesmas estruturas. A cultura, sendo o tal reflexo (e refluxo) da sociedade, também contribui para este molde social e moral; retroalimenta padrões - no fundo, dogmas.
AVISO: SPOILERS (ou revelações não solicitadas de narrativas)
Vi o Emilia Pérez e fiquei com mais questões do que respostas. Questões que me desafiaram e fizeram refletir e deram origem a este texto: um filme que vale a pena ver, portanto. Vou ser franco: detesto musicais. Para mim, no preciso momento em que alguém começa a cantar em contexto fílmico, é quebrada a ilusão e a crença naquele mundo e narrativa porque estou a ser relembrado da sua teatralidade e artifício. É uma questão de gosto. Respeito e percebo o valor do género em termos artísticos. Contudo, não é a minha praia. Mas avancei para o filme, motivado pela polémica sobre as suas recentes conquistas nos Globos de Ouro. A personagem principal, uma mulher transgénero, foi duramente criticada por parte da comunidade trans e a comunidade mexicana mostrou desagrado com o estilo de atuação de algumas atrizes. Bem como a forma como se sentiu (mal) representada.
Eu gostei da história. A premissa é boa: o chefe de um dos maiores cartéis de droga mexicanos quer mudar de sexo; não por querer usar a transição como método para se esconder, nem para mudar para uma vida longe do narcotráfico. Quer ser o que sempre sentiu ser: uma mulher, e poder aproveitar o resto da vida que tem como tal. Tem o dinheiro (sujo) e recursos para tudo isto e com a ajuda de uma advogada - uma mulher, oprimida de várias formas pela estrutura patriarcal - avança e faz a transição. Sendo eu um homem que se identifica com o sexo atribuído à nascença, sem conseguir imaginar o que será sentir na pele a disforia de género e o consequente desconforto de existir desta maneira, não tenho lugar de fala sobre esta mulher trans. Li muitas críticas sobre a forma como continuamos a retratar a transição como um enterro de um passado, ou uma mudança de personalidade e, desta forma, negar o direito à autodeterminação de género. Também se criticam os comportamentos violentos da personagem transgénero, antes e depois da transição, que contribuem para um retrato menos positivo da comunidade trans. E, sejamos honestos, pouco fidedigno, já que os líderes de cartéis de droga a fazerem transições não são assim aos magotes, apesar de apimentar a narrativa. Já cometemos este erro anteriormente: com a comunidade negra, com as mulheres e tantas outras minorias oprimidas. Sou um ser empático: se alguém se sente mal com algo respeito o seu direito à indignação e, no mínimo, merece uma reflexão. Se algo interfere na liberdade de outras pessoas deve ser analisado, refletido e devemos retirar ilações: o que podemos e devemos mudar.
Mas como espectador de um filme, como consumidor de narrativas de ficção, sinto que posso falar do lugar; que é possível separar o autor, o tema e o contexto da obra em si. Nem que seja para fazer a apologia de retratos de comunidades mais fidedignos e respeitosos. Posso estar consciente da representação ignorante de uma minoria e apreciar a estrutura narrativa (Dumbo) ou a exacerbação do domínio patriarcal sobre o corpo e o consentimento da mulher (Bela Adormecida ou Cinderella). Também posso pensar em como associamos a corrupção a um detetive negro por contraste à pureza do seu aprendiz caucasiano em Training Day. Da objetificação e sexualização em massa do corpo feminino em quase todos os produtos televisivos e grande parte do cinema, desde a saga do James Bond, às sitcoms tipo Teoria do Big Bang, ao cruzar de pernas do Instinto Fatal. Compreendo e respeito, mesmo, todas as críticas feitas a estes produtos fílmicos ou televisivos, mas são, em primeiro lugar, entretenimento e um reflexo cultural. Como tal, permite-nos uma janela importante para a autoanálise e reflexão. Devemos, claro, julgar a iniquidade do retrato feito das minorias, do estereótipo ignorante e desconstruir isso junto dos nossos filhos quando vemos os filmes mais antigos da Disney. Ou lhes lemos contos clássicos cujas lições e morais são demasiado obsoletas e presas a épocas de maior ignorância. Nós próprios devemos aguçar o sentido crítico e discernir que tipo de retratos e referências nos devem incomodar e porquê. Será neste debate de ideias que poderemos retirar ilações importantes para o futuro; maneiras de olhar o mundo que nos permitam escrever histórias com menos viéses e nos permitam falar do lugar com um maior esclarecimento. Penso que se reservarmos este direito apenas para as pessoas com lugar de fala, quem pertence às minorias e às experiências particulares e únicas das classes mais ostracizadas, corremos o risco de não ouvir falar delas, como a história nos prova. Ter pessoas com maiores privilégios, pertencentes à massa normativa, a falar de lugares permite abrir portas para que o discurso se possa desenvolver e enraizar. Criamos o caminho para o lugar de fala se tornar mais ubíquo.
Contudo percebo a questão em relação ao Emília Pérez: podemos consumir este conteúdo sabendo que o retrato social feito da comunidade mexicana e trans, bem como a fidelidade à realidade destes universos, ficam aquém do que deveriam ser? Eu rio-me sempre que vejo português a ser falado por atores claramente não-portugueses em filmes e séries, mas não me sinto de todo melindrado. Não acho que seja uma falta de respeito para com o povo português, e até fico contente por nos ver retratados - normalmente de forma fidedigna porque, principalmente em conteúdos de época, somos mesmo os piratas bárbaros que foram “descobrindo”1 a costa Africana. Mas sou um homem branco que nasce já com um conjunto de privilégios e facilidades que os mexicanos, pelo contexto histórico, cultural e social, não têm. Com as fragilidades de uma ex-colónia e constante expropriação dos recursos por parte das elites, cartéis e o seus vizinhos dos Estados Unidos, ver a sua cultura ser estereotipada no universo do tráfico de Droga deve ser difícil de engolir - lá está, aqui, não posso ter lugar de fala. A representação violenta e psicótica de uma mulher trans que liderou um cartel produz associação criminosa a uma das comunidades mais afetadas e discriminadas da nossa sociedade.
Voltamos à questão inicial. O que podemos fazer? Censurar, limitar, balizar? Quem decide o que se pode dizer e de que maneira? As coisas, tal como estão, permitem neste momento duas coisas: escrever livremente e criar histórias que podem falhar redondamente em retratar comunidades e minorias, bem como criticar e apontar o dedo a esses retratos estereotipados. Talvez seja importante permitir que pessoas sem lugar de fala possam falar do lugar. Para trazer esses lugares para mais perto, com o seu privilégio - se estão em posição de poder contar essa história, é de facto um privilégio - e deixar que a arena do debate de ideias esclareça onde esses filmes falham, como falham e como podem deixar de falhar. Não como obras, mas como perpetuadores de padrões claramente nocivos. E permitir que o debate das ideias - e preconceitos - aconteça de forma mais frequente. Porque a alternativa é censurar. E acho que todos devemos poder dizer o que nos apetecer e enfrentar as consequências de cada palavra. Há também o paradoxo da tolerância do Karl Popper onde, parafraseando de forma simplista um conceito complexo, ao permitirmos a livre existência da intolerância ela acaba por dizimar as liberdades dos tolerantes e impor-se socialmente. Isto é mais complexo ainda quando pensamos na dicotomia entre liberdade de expressão e liberdade de opressão. As leis estipulam uma forma de censura: onde começa o discurso de ódio e ofensivo e onde termina a liberdade de dizermos o que nos der na real gana? A difamação começa em que parte de uma crítica ou juízo de valor? Onde traçamos as linhas e, mais relevante, quem é que as traça?
Escrever este texto permite-me manter as mesmíssimas dúvidas com que o iniciei. Continuo a ter que equilibrar os meus valores primários como a liberdade e o direito a uma vida digna com o respeito pelo próximo e a empatia para com o sofrimento dos outros. Continuo a ter que ter em atenção o enorme privilégio de que disponho graças à lotaria genética e social: sou um homem branco heterosexual num Ocidente cada vez menos tolerante para outras gamas cromáticas, de crenças e expressões. Hesitei muito se faria sentido publicar; muitas vezes escrevo só para mim, para poder ficar a perceber melhor o que sinto e o que penso do que sinto. Mas escrevo, sobretudo, para que os meus filhos um dia me possam ler, se quiserem. E se há algo que quero que saibam de mim é que sou incongruente, que duvido e sou feito de incertezas. Que a minha opinião muda à luz de novas informações. Que gosto de pensar que pouco sei sobre as coisas para não perder o entusiasmo de aprender. E que é importante tentar ver o mundo pelos olhos dos outros, gostemos do que eles vêem ou não. O espectro dos cinzentos no mundo vai aumentando à medida que se envelhece. Não por conformismo com inevitabilidades, mas por irmos sendo capazes de apreender as complexidades da existência humana. De perceber que elas existem e que dificilmente teremos uma compreensão abrangente sobre tudo. Talvez seja por isso que o importante é falar do lugar com a plena noção e perspetiva de quem não tem lugar de fala.
Abraço-vos,
João
Este texto terá menos erros de ortografia e sintaxe porque teve revisão do Henrique Reis, a quem estou muito agradecido.
Vi o Anora há dias. É um murro no estômago que nos confronta com realidades que gostamos de varrer para debaixo do tapete. Nessa noite, custou-me mais adormecer porque fiquei inquieto. É um filme cru, que retrata o choque entre as classes mais frágeis da sociedade americana com a concentração absurda de riqueza das elites, neste caso russas. É um filme que nos lembra que ainda conseguimos tratar os outros seres humanos como objetos, desconstruindo-os à sua utilidade. Como o desespero confunde conforto com amor ou prazer com amor ou subserviência com amor. O amor é tudo isto quando existe de facto; mas o prazer, o conforto e a necessidade não são o amor quando isolados de forma estanque no tecido da existência. Há qualquer coisa de feudal nas interações das personagens, nas reações, na narrativa. São este tipo de filmes que mais gosto: os que ficam connosco nos dias a seguir.
O meu amigo André partilhou comigo um álbum de hiphop Romeno do coletivo Subcarpaţi que tenho gostado muito de ouvir. Ele descreveu-o como folk rap e tenho que concordar: há ali elementos de folk, num rap e batidas originais, com rasgos de triphop. É uma viagem e pêras, que me tem sabido bem nestes dias de frio.
Pilharam, roubaram, apropriaram, destruíram, violaram.



Interessantíssimo tema. Acho que são respostas muito difíceis. Para já porque cada pessoa reage de maneira diferente, tem necessidades diferentes, mas a cultura de massas, por definição, é vista por muita gente diferente. Logo é um difícil evitar o estereotipo.
Falaste da Bela Adormecida, mas o livro que estou a ler, "Somos Animais Poéticos" da antropóloga Michèle Petit cita um intelectual que diz que a história da Bela Adormecida não é uma afronta às mulheres, mas sim uma fábula de todo o potencial que temos "adormecido" em nós, à procura de ser despertado.
De resto lembro-me de comentar a exploração dos animais de pecuária. São a definição de "underdog", de ser mais fraco. Triliões mortos por ano, muitas vezes de forma violenta. Incapazes de nos reivindicarem os seus próprios direitos, dependem inteiramente de que pessoas o façam por eles.
A mera magnitude da forma como são explorados cria uma dissonância cognitiva, em que as pessoas preferem nem se importar. Ver filmes sobre matadouros como Earthlings é um murro no estômago e pêras, muito difícil, mas muito necessário também.
Claro, a arte pode ajudar, talvez de forma mais simpática. Desde há séculos que as fábulas põem os animais a dar lições de moral aos humanos. Para mim um dos filmes mais interessantes que já vi é o Chicken Run. Um filme que ajuda a criar consciência sobre a existência desses seres, sem criar traumas, adequado à criança mais inocente.
É um pouco isso que acho que a arte deve fazer: questionar, explicar, moralizar, e fazê-lo de forma subtil e até alegre. Ao fazê-lo é impossível evitar estereotipos, mas se for bem feito é um trabalho muito válido.
Como mostra o facto de os animais não poderem reivindicar os seus próprios direitos, acho que temos a obrigação de falar de outros lugares que não o nosso. Mas idealmente, o melhor lugar para falar é o próprio.
Escreveste sobre dois temas enormes (e vários filmes muito bons) num único texto, quase parece que enfiaste o Rossio na Betesga :)
Vou comentar só sobre o primeiro tema/filme e dizer que, apesar de não ser crente, não consigo conceber a fé sem mistério - concordo contigo e com o cardeal Ralph Fiennes. Da mesma forma que não faz sentido dizer que se acredita, por exemplo, na gravidade - é (facilmente) comprovável, mensurável - também não faria sentido dizer que se acredita em Deus se a sua existência fosse um dado adquirido.