Eureka: ou o sentido da vida.
Olá,
Descobri o sentido da vida. Não o significado partilhável e digerível por outros: a isso não me atrevo. Mas, nesta sexta-feira, arrisco a armar-me ao pingarelho com o que ele significa para mim, nesta conjuntura estrutural e estelar que grassa nos céus e nos rodeia.
Fruição. O espremer do néctar da vida seja lá o que isso for para cada um de nós num dado momento. Pessoalmente, hoje, é uma porrada de coisas: pessoas inteligentes, boas conversas e um vinho que me saiba a fruta e pese pouco na carteira. Ontem eram livros e poesia. Há vinte e poucos anos seria ser olhado nos olhos por alguém que sussurrava coisas picantes. Outros tempos. Continuo a gostar disto tudo, mas quero fruir de outros substratos da vida enquanto a conjugação verbal assim o permitir. Tarefa nada fácil nos dias que correm.
Tenho sido empanturrado, como todos, com as excrescências socialmente aceites e, de facto, testemunho uma vacuidade do belo. Parece-me tudo grotesco: conteúdos, consumos, faits-divers, celeumas da política e vergonha alheia - tudo enfiado num caldeirão em lume brando a que chamamos cultura pop. Poupamos algumas letras ao invés de escrever popular, bem sei, soa melhor - é fashion - e deixaria Warhol orgulhoso. O problema é estar-se tudo nas tintas para o Andy, temo-lo trancado nesse baú de época da arte, juntamente com tudo aquilo a que poderíamos chamar de artístico. Secundarizámos este lado da humanidade: a arte deixou de servir o seu propósito contemplativo e deixou de estar justificada pela simples existência. Agora, apreciar uma manifestação de arte é um desperdício. Temos lá tempo para olhar para quadros, ver filmes que nos desafiem, sublinhar livros ou assistir a uma dramaturgia. Só se for superficial o suficiente para ser instagramável, numa espécie de masturbação coletiva de egos e aparências. Mas não encontro o belo aqui - aquela sublimação que nos faz desconfiar que algo maior que nós tem que existir. E, para que não se sintam enganados pela premissa inicial desta crónica, foi a partir desta análise que comecei a perceber o sentido da vida.
E se a crise da saúde mental que vivemos hoje estiver umbilicalmente ligada a essa falta de fruição do belo, da poesia, da transcendência? E se o vazio que assola a existência da humanidade, agrilhoada aos venenos que a conspurcam, for diretamente proporcional ao relegar da fruição artística e contemplativa para um segundo plano? A ser assim, e quer-me parecer que assim é, então, o sentido da vida e da existência humana é deixar-se tocar pela imanência da produção artística. Tive cuidado em não utilizar o verbo “consumir” precisamente porque é transformar a contemplação ociosa do belo e estético e poético em consumo que corrói a capacidade humana de sermos sublimados. Consumir é outra coisa. Também, com pinças e ferramentas cirúrgicas, tenho estado a fugir à palavra “prazer”. Como alguém com uma propensão para adição e com um espírito hedonista, percebo que há uma clara diferença entre a busca hormonal dopamínica e o espanto que a arte pode sulcar na alma humana. Se há momentos em que o prazer me parece ser fundacional na busca de um propósito para a nossa vida, olho volta e percebo que o seu excesso nos corrompe. Mergulhámos a humanidade numa constante busca de prazer e conforto e, no processo, imiscuímo-nos da fruição estética, também ela prazerosa, numa dimensão interior. E os resultados estão à vista: essa mesma interioridade parece ter sido corroída por um tumor cujas metástases extravasam em quase todas as dimensões do quotidiano. Minámos a capacidade de reflectir sobre o que nos rodeia e tornámo-nos consumidores passivos de conteúdos que têm agendas, assumidas ou não. Deixámos a nossa atenção à mercê de diversos mercados e vamos mirrando intelectual e espiritualmente.
Eu preciso de ócio para abrir o espírito à possibilidade de contemplação. Preciso de me aborrecer para conseguir, de facto, fruir do que é belo. Esse tempo de preguiça - o não querer fazer nenhuma das obrigações da vida - é vital para mim. Encontro-o, por exemplo, quando os miúdos estão deitados e me sento a ler. Nas primeiras páginas encontro uma resistência recalcada: é o dia ainda agarrado ao corpo, a azáfama dos afazeres e de estímulos que tanto me custam sacudir. O primeiro instinto é: vou procurar algo mais fácil. Encontrar a minha dose de dopamina com o maior conforto possível, anestesiar a mente. Ver uma série que não requeira muita atenção - se for muito elaborada ergue a mesmíssima barreira que a do livro. Ou jogar um bocado switch, saltar com o Mário até ao cansaço pesar em demasia nas pálpebras. Insisto no livro, porém. Releio os mesmos parágrafos até ser relembrado que há ali qualquer coisa de único naquelas folhas. Entro dentro da narrativa - se for ficção da boa - e, se tiver sorte, sou arrebatado pela escrita. Rendo-me ao encantamento estético e poético das palavras: é nesse preciso momento que a preguiça se transforma na fruição. Medito no que leio, penso sobre o assunto e quase fico com a certeza de que vivemos para estes momentos. E por isso, procuro o belo em quadros, em filmes e séries ou em dramaturgias e percebo que a produção cultural nos enleva como poucas coisas no mundo.
Como pai, junto com a Sofia, tornámo-nos o reduto cultural dos nossos filhos. Remamos, pois, contra a maré. Tenho sorte: a mãe dos meus filhos insiste em sairmos de casa para ver museus e usar e abusar do passe cultural a que ainda vamos tendo direito. A arte tem a particularidade de, mesmo não gostando da experiência, se reter no nosso inconsciente. Esse choque com a produção artística forma camada sobre camada nas nossas mentes e molda-nos o olhar. É como combatemos a ditadura do audiovisual submissa aos imperativos do mercado. Lemos, em família, na esperança de que o hábito se estranhe depois de se estranhar. Fazemos dos livros uma prioridade e as idas à biblioteca uma rotina. Poderíamos escudar-nos no cansaço, na desculpa que já ninguém lê e reproduzir o mantra de que preferimos ver o filme. Mas insistimos na importância dos livros e no seu poder. Sim, estamos convictos, lá em casa, de que ler torna-nos poderosos. Que o conhecimento expande o nosso livre arbítrio e nos torna seres humanos melhores se o aliarmos à empatia. E, claro está, a leitura é uma das muitas portas para o sublime. Cabe-nos criar espaços de tempo para se aborrecerem e se permitirem ser tocados por estas experiências. Se vejo na fruição um sentido para a vida, então é minha responsabilidade, como pai, munir a minha descendência de ferramentas para que consigam, efetivamente, fruir.
“O MAR DE NERUDA
foste como o mar de Neruda
dizias que sim
depois que não
e que sim
e que não
fomos uma história de vagas
suspensa como a areia
quando a pisamos dentro de água”
Merda Para as Musas (Fresca Ed.), João Coles.
Somos verdadeiramente livres quando temos noção do que nos pode prender. O sentido da vida, para cada um de nós, só pode ser vislumbrado partindo deste princípio. E chegando à conclusão de que é a fruição de livre vontade e com intenção consciente do que nos apraz que se torna no nosso propósito de vida, assuma ele a forma que assumir.
Abraço-vos,
João
Este autor escreve com o antigo acordo ortográfico.
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João, li o teu texto e fiquei a pensar na forma como habitas os teus vazios. É curioso como, na nossa pressa, tentamos preencher o nada com ruído, mas tu pareces ter descoberto que o sentido da vida não é um destino, mas uma extensão. Quando descreves esses momentos em família, mesmo no silêncio de leituras individuais, sinto que a tua família não é apenas algo que 'tens', mas algo que 'és'. No fundo, provaste que o vazio não se combate com ocupação, mas com presença. Obrigado pela partilha. Ocasionalmente, sente-se uma serenidade nos teus textos que me surpreende.
Luís, que generosidade nas tuas palavras. Sim, tento muito que uma presença consciente e intencional seja a base dos nossos dias cá em casa. Mas também há muito ruido de desenhos animados para os pais poderem respirar. Como em tudo, é uma questão de equilíbrio e intenção. Fico mesmo contente que estas palavras te encontrem dessa forma serena. Um abraço