Estimas e Confianças
Sobre a intenção de criar autoestimas saudáveis.
Olá,
Nas próximas crónicas vou trazer algumas reflexões sobre paternidade e formas de educar. Estou a meio de uma formação sobre Parentalidade Consciente com uma estrutura e abordagem que convidam a pensarmos as nossas ações como pais de outra forma. Têm-me sido colocadas questões difíceis que me confrontam com a necessidade de mudar certos padrões em mim. Também me fazem olhar com acolhimento para tantos condicionamentos a que somos sujeitos desde crianças e na necessidade de os desconstruir. Tenho pensado e repensado coisas que me têm acontecido à luz de uma consciência empática que me permite, principalmente, trabalhar a aceitação das coisas como elas são. Quando releio a última frase, até parece fácil. Não é.
As palavras carregam consigo conceitos e definições que nos permitem ser claros a descrever acontecimentos e sensações. Muitas vezes, deparo-me com a importância - e peso - das palavras; na interpretação, muitas vezes errada, das definições, encontramos o espaço para agir de uma forma inconsciente. Permitam-me aqui um exercício de significação de alguns conceitos que parecem mundanos mas são importantes para a parentalidade e educação.
Há uma diferença entre autoestima e autoconfiança. A diferença está na sufixação das palavras: estima e confiança. Podemos definir autoestima como o que sabemos sobre nós e a forma como nos relacionamos com isso: o nosso discurso interno e a forma como processamos o que nos acontece, à luz da nossa experiência e perceção do que somos. Quanto melhor for a relação connosco próprios, mais saudável é a nossa autoestima. A autoconfiança é situacional, isto é, depende do contexto e do momento. Podemos ser confiantes a executar determinadas tarefas ou processos, e faltar-nos a confiança para outros. A autoconfiança desenvolve-se através da experiência que vamos tendo e com o retorno que temos das nossas ações. Retornos positivos e bons resultados resultam numa melhor autoconfiança. Aqui está o busílis da questão: a forma como lidamos em situações com menor confiança depende da nossa autoestima. Quando mais saudável for a nossa autoestima, mais ferramentas teremos para lidar com a falta de confiança.
Eu cresci com base no retorno opinativo sobre as minhas ações. Com as múltiplas experiências que fui tendo, e com os resultados que fui alcançando - uns melhores, outros piores - construí a minha autoconfiança. A confiança em determinadas tarefas foi alicerçada, inicialmente, com base no que ouvia dos meus pais, família, amigos. Terá começado com coisas simples como, por exemplo, os meus primeiros passos e ter ouvido “boa, estás a andar”. A cada conquista, aos olhos de quem era responsável por mim, era elogiado. Reforçaram a minha confiança na atividade específica que foi elogiada e incentivada. Em momento algum, estes comportamentos dos meus cuidadores - que fizeram o melhor que sabiam com as ferramentas que tinham - serviu para melhorar a minha relação comigo mesmo. Atrevo-me a dizer que terá sido este o modus operandi da maior parte dos pais e cuidadores nas últimas décadas.
Foi conhecer melhor, e pensar, a definição destes dois conceitos que, uma vez mais, me apercebi do perigo de perpetuar comportamentos e padrões geracionais. Uma das intenções mais importantes e presentes que temos lá em casa é que os nossos filhos desenvolvam uma autoestima o mais saudável possível. E achei, efetivamente, que o reconhecimento - aliado ao reforço positivo - passava por elogiar e frisar que estavam a fazer as coisas corretamente. Intuí que esta era a forma mais correta e adequada, sem nunca ter perdido grande tempo a pensar se realmente seria. Efetivamente, não é. Fui-me apercebendo disso com o tempo e observação das reações do meu filho mais velho à medida que ia crescendo. Porque, assim, criamos crianças que crescem no elogio das suas conquistas. Depois procuram validação - e estima - no exterior em vez de em si mesmos. Ficam confiantes nas suas aptidões e sem mecanismos para lidarem com as situações em que a lotaria genética, social e situacional não lhes for favorável.
“O núcleo de Parentalidade Consciente é constituído pela importância que damos ao desenvolvimento de uma autoestima saudável.” - Curso de Parentalidade Consciente da Life Training.
Sermos conscientes na nossa parentalidade implica termos a noção da importância da autoestima. Confesso que fui tendo algumas luzes nos últimos anos, mas só recentemente percebi, mesmo, que são precisos métodos e comportamentos diferentes para trabalhar a autoestima. No meu caso, desconstruir os padrões com que cresci. É uma tarefa hercúlea e às vezes sinto que abri a caixa de pandora para nunca mais a conseguir fechar - com o esforço, a dor e as dificuldades que a manter aberta acarretam.
Há uns dias, o A estava a terminar um desenho e chamou-me para eu o ver. Durante demasiado tempo validei os seus esforços com “uau, que fixe” ou com “amor, está mesmo muito bom”. Este tipo de frases sai-me naturalmente. Tive que estar super consciente para conseguir olhar para o desenho e apenas reparar nos seus elementos - não avaliar. Porque na avaliação está um julgamento - uma estima - que quero que o meu filho encontre sempre, e principalmente, dentro de si. Se a procurar no exterior, estará sempre a agir para uma aprovação exógena e essa é uma receita para uma autoestima pouco saudável. Não contribui para a relação consigo mesmo. Para mim, isto é contraintuitivo, mas tenho visto diferenças na forma como ele se relaciona consigo próprio, quando vou ajustando os meus comportamentos. Olhei para o desenho e fui verdadeiramente testado: tinha desenhado a cabeça de um coelho fofo (e proporcional, bem desenhado) e estava todo orgulhoso a mostrar-me que tinha conseguido dominar a perspetiva e planificação de elementos: desenhou o braço de um dos bonecos em frente de uma árvore, sem sobrepor. Foi premeditado. Tive que me morder para não o elogiar. Em vez disso: “olha, isto é um coelho da Páscoa?”. Ele confirmou a minha análise inicial. Eu reforcei com “bem me parecia, e parece um muito fofo”. Ele sorriu, orgulhoso. Depois, já fisgado em continuarmos a leitura do Hobbit, arrumou prontamente as coisas e partiu para outra. Feliz, sem elogios e - quero acreditar - com uma melhor autoestima.
Na nossa interação senti que validei o esforço do A ao reconhecer o que naquele desenho se passava. Disse-lhe que percebi que era um coelho e que as decorações com ovos da Páscoa identificavam o tipo de coelho em questão. Não teci juízos de valor, nem apreciei a arte em si. Validei a inclusão dos elementos e que ele tinha conseguido caracterizar bem a fofura de um coelho. Não quantifiquei, não avaliei. E ele ficou feliz e orgulhoso do seu desenho, por si mesmo. Atravessei esta situação sempre com uma vontade enorme de elogiar, de dizer que estava muito fixe (vá, sei que sou o Pai suspeito e cheio de viés, mas estava mesmo). Mas se tenho a autoestima dos meus filhos como algo que valorizo, quero - ativa e conscientemente - contribuir para que seja o mais saudável possível. Se aliar esta prática ao reconhecimento do esforços que ele faz (“a tua técnica de judo está muito melhor, nota-se que tens praticado” ou “acho que os teus desenhos estão cada vez mais complexos, nota-se bem a prática diária”) às demonstrações descomplexadas de amor e carinho expontâneas (“amo-te muito”, “gosto muito de ti”) sinto que falho menos.
Reconheço a ignorância e a falta de consciência do impacto do elogio como ferramenta pedagógica em gerações mais antigas, mas o conhecimento gera responsabilidade. Acho que reflexões - ao invés de seguir intuições condicionadas por comportamentos e aprendizagens sociais - são cruciais no caminho da paternidade. Precisamos pensar nos valores que prezamos, nas nossas intenções para podermos chegar a ferramentas práticas para mudar os nossos comportamentos. Vamos falhar muitas vezes, e seguramente não vamos resolver o problema num ciclo geracional: tenho sempre a sensação que preciso de resolver certos padrões no imediato e essa pressão, muitas vezes, torna-se sufocante. Mesmo tendo conhecimento e consciência de certas coisas, também preciso de tempo para ir mudando. E esta desconstrução é demorada. Hei-de voltar a tecer um elogio rasgado, galvanizado pelo orgulho incomensurável que tenho nos meus filhos. Hei-de minar muitas vezes a autoestima deles, com as minhas preocupações e receios, destruindo a confiança e contribuindo para uma baixa auto-estima. Mas quero-o fazer o menos possível.
A relação que nós temos connosco próprios determina a forma como lidamos com a vida. Entristece-me ver pais e cuidadores que, por feitio e/ou circunstâncias da vida, perpetuam comportamentos que minam e fragilizam a autoestima dos que têm ao seu cuidado. Enfurece-me, de sobremaneira, quando esses mesmos pais e cuidadores usam o poder da autoridade - temporário, fútil e destrutivo - para manipular a autoestima de alguém. Ou pior, na sua imaturidade emocional, criticam e atiram à cara juízos que, ao invés de contribuir para um desenvolvimento saudável, criam complexos e traumas que podem nunca ser resolvidos. Pergunto-me sempre: que filhos foram estes pais, para poderem normalizar esta forma de violência para com a sua descendência? O que lhes terá sido feito para que nem tenham noção da perpetuação de uma padrão horrendo? E nestas alturas lembro-me do piloto automático que está ligado demasiadas vezes na minha vida. Que me cega para a consciência das coisas. Prende em ruminações e divagações, juízos e julgamentos. Quero continuar a tentar estar consciente e refletir, sempre à luz das minhas intenções e valores. Só assim me posso ir pondo em cheque e ir autoavaliando, dia a dia.
Até para a semana,
João
P.S. Esta semana gostei muito de ouvir o último episódio das Conversas Daninhas da Dulce Cruz. Ela esteve à conversa com o Professor Carlos Neto, sobre motricidade infantil e de como a nossa sociedade está a criar analfabetos motores. Vale muito a pena ouvir, para pais, cuidadores e familiares de crianças de todas as idades. É uma chamada de atenção para que deixemos as crianças das próximas gerações brincar mais na rua e deixarem fluir a natureza delas na natureza que as rodeia. O problema não é só a vida sedentária e o excesso de tempo de ecrãs; no outro lado da balança também está a falta de liberdade para brincar.

