Escrevo, logo existo.
“Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não” José Saramago
Umas das sequências de imagens que ficou gravada na minha memória do documentário “José e Pilar” do Fernando Gonçalves Mendes é Saramago a escrever no seu escritório. Um computador com um ar obsoleto, com um ecrã à altura dos seus olhos, sentado numa cadeira forrada a couro, ia digitando palavra a palavra até terminar mais um dos seus textos. Ali foram escritos os cadernos de Lanzarote ou alguns dos seus romances. A minha admiração funde-se com a inspiração que obtenho quando recordo estas imagens que me lembram que escrever faz parte de quem eu quero ser. Mesmo que às vezes me esqueça.

Chegou Outubro. Com ele termina um mês que tem sido bem repleto de adaptação e novos começos. Novos desafios na parentalidade com adaptações a novas escolas e fases de crescimento - minhas e dos meus filhos. Também no trabalho se pensa e constrói o futuro de uma outra forma.
Escrever ajuda-me a entender um pouco melhor quem sou e que mundo é este que me rodeia. Acho que escrevo estas crónicas para tentar perceber quem sou e, talvez mais importante, quem quero ser. Tenho a minha própria voz quando faço estas reflexões por escrito e é como faço feng shui mental: organizo o que penso, como penso e vou descobrindo porque penso.
O difícil é escrever com essa minha particularidade, com o meu tom. Em certos dias estas crónicas são escritas de rajada, na primeira tentativa. Fica só a faltar edição e revisão. Noutros, termino cada sessão com a sensação de que o que escrevi não veio do meu coração. Nestas alturas ou abandono o corpo de texto que me parece exógeno ou tento reescreve-lo de modo a torná-lo parte integrante de quem sou. É muito importante para mim escrever com autenticidade, respeito os limites que imponho no que me sinto confortável em partilhar.
Já instalado nas novas rotinas da família descobri o momento em que posso escrever. Em Agosto falava com o meu melhor amigo sobre os meus sonhos e aspirações literárias:
“Quero escrever. Quero expressar-me e ser lido.” - disse eu.
“E porque não escreves?” - inquiriu, naturalmente, o meu amigo.
“Porque não tenho tempo. Porque com dois filhos e dois empregos chego ao final do dia exausto e sem energia” - desculpei-me enquanto me culpabilizava pela falta de força de vontade.
“Percebo-te. Mas olha, se conseguiste encaixar o exercício físico na tua rotina também vais descobrir uma forma de encontrar tempo para escrever, nem que seja um pouco todos os dias” - e desta forma rematou a conversa e deixou-me seriamente motivado a encontrar uma solução.
A conversa não terá acontecido exatamente com estas palavras, nem com esta cadência, mas o essencial da mensagem foi este: se consegui encaixar na minha hora de almoço uma rotina de exercício físico diário, em que momento do meu dia poderia eu escrever?
Percebi a importância de fazer exercício quando ouvi o médico Peter Attia perguntar quem tipo de idoso queria ser. Quero ser capaz de passear um cão de porte médio duas vezes por dia? Quero conseguir brincar com os meus netos no chão? E pegar em crianças de um berço? Foi com esta perspetiva que eu, sedentário profissional, me coloquei na desconfortável posição de me exercitar todos os dias. Mas na altura todas as desculpas de falta de tempo e compatibilidade com a rotina profissional e familiar vieram ao de cima. E procurei no meu dia o momento em que poderia treinar. De manhã seria impossível sem descurar o meu papel de cuidador em casa. Idem idem aspas aspas ao final do dia. Desesperei e senti-me limitado pela paternidade, pela vida em família. Até que percebi que tinha uma hora de almoço e que conseguia conjugar o exercício e um almoço rápido nesse espaço de tempo. Talvez não todos os dias, mas seguramente a maioria deles.
No seguimento da conversa com o meu amigo, percebi que enquanto viajo todos os dias dos subúrbios para Lisboa, tenho um pedaço de tempo onde posso criar. Neste momento até me é bastante confortável estar sentado nos bancos da carruagem e escrevinhar estas palavras. Nem sempre consigo perceber sobre o que quero escrever, mas escrevo na mesma. Porque à medida que vou digitando as palavras, as ideias fluem e formam um sentido. E esse sentido acaba por me arrumar a cabeça e assume a forma destas crónicas.
Ser Pai muitas vezes fez-me sentir que perdi a minha vida. E perdi, efetivamente. Todas as minhas rotinas, hábitos e prazeres da vida “antes de ter filhos” ou desapareceram ou assumiram uma configuração muitíssimo diferente.
Mas ganhei outras rotinas, outros prazeres e, sendo muito honesto, ganhei outra vida. Há momentos em que sinto uma saudade imensa da minha vida passada e da autonomia e independência na tomada das minhas decisões. Poder fazer o que queria, quando queria. Hoje tenho dois seres humanos dependentes de mim e uma companheira com a qual formo uma equipa para gerir a casa, a educação e a vida a quatro. Fiquei sem tempo. Os minutos que tenho livres servem, maioritariamente, para respirar e vegetar um pouco com um livro ou algo na televisão. Gosto da minha nova vida a maior do tempo, mas a nostalgia do que em tempos fui - e respetiva liberdade - frustram-me.
Por isso, há um sentimento de libertação enorme por esta conquista do tempo para escrever. Porque não me sinto um guru da produtividade que está a sobrecarregar as suas capacidades para conseguir escrever só por escrever. Nem sinto a pressão de produzir apenas porque é algo socialmente aceite e esperado. Mas porque consegui descobrir um momento do dia, logo no arranque, antes do trabalho, para conseguir escrever um pouco. Livre de distrações e embalado pelo movimento do comboio.
Ser Pai é gerir expetativas. Durante muito tempo idealizei o tempo de escrita de uma forma muito onírica. Ficará comigo a imagem de Saramago sentado no seu escritório, a digitar as palavras ao longo de horas. Hoje sei que não tenho sequer uma hora por dia para a minha paixão, mas consigo escrever e rever o que escrevo um pouco todos os dias. No final da semana, acabo com um texto do qual me orgulho, que me ajudou a organizar como penso e me fez conhecer um pouco melhor. E publico-o para ser lido, pensado e, espero eu, debatido. Que privilégio.

