Escotismo
Nas pisadas de Baden-Powell.
Olá,
Em tempos idos, fui escoteiro da A.E.P. – Associação de Escoteiros de Portugal. Distingue-se dos outros escoteiros por não estar ligada à Igreja, ao contrário da C.N.E. – Corpo Nacional de Escutas. Cresci numa casa onde a Igreja e os seus meandros eram bichos-papões, por isso a existência de uns escoteiros laicos era o único caminho possível para um filho de comunista da velha guarda poder vestir a farda.
Foi um período feliz, que me mostrou que existia vida além da escola pública, onde em certos anos não fui propriamente realizado. Os escoteiros são, acima de tudo, camaradagem, empatia, acolhimento. Onde as dificuldades de um são, genuinamente, suportadas por todos. Este espírito de partilha e sacrifício foi uma revelação para mim: até aí, vivia sob o dogma da sobrevivência do mais forte e apto. A constante competição e comparação na adolescência pode ser dilacerante. Nos escoteiros – primeiro como lobito, depois como membro da tribo júnior – fui aprendendo que há mais do que selvas e lutas pela sobrevivência.
Enquanto reflito sobre isto, noto que os valores de partilha e comunidade desses anos foram decisivos para a pessoa que sou hoje. A minha necessidade de horizontalidade, de igual valor, de respeito transversal pelas diferenças de cada um. A maior lição destes quase seis anos de escotismo foi perceber que juntos somos mais fortes e realizamos feitos que a solo seriam quase impossíveis.
Ironia das ironias, foi uma estrutura altamente hierarquizada – o tipo de coisa que normalmente abomino – que me deu exemplos de apoio mútuo, solidariedade, espírito de equipa e partilha. A hierarquia, na verdade, era mais organizacional do que opressiva, mas mesmo assim, é fascinante constatar este paradoxo.
Talvez por isso tenhamos proposto ao A. experimentar o escotismo. A Sofia sempre lamentou não ter tido a mesma oportunidade e eu sou eterno saudosista desses tempos e aprendizagens. Desde o primeiro dia, ele ficou encantado e lá continua a trilhar o seu caminho como lobito. Um novo ano escotista avizinha-se, cheio de aventuras e saídas de caça.
O escotismo é voluntariado puro. As chefias e estruturas dependem de voluntários que doam tempo para que tudo funcione. A participação, pontualidade e assiduidade dos escoteiros é crucial, mas, talvez tão importante, também é preciso o envolvimento dos pais. Neste grupo existe a patrulha dos pais: pais que querem contribuir de verdade e ajudam nas logísticas das atividades. Na última reunião de encarregados de educação, apelou-se à participação dos pais. Entre dezenas de presentes, pouco mais de uma mão cheia se voluntariou.
O espírito comunitário é essencial — mas tem o seu preço. Dá trabalho, implica abdicar de umas coisas para dar espaço a outras. E parece-me que cada vez mais gente quer sugar o trabalho voluntário dos outros sem dar nada em troca. É uma lógica do “o que é meu, é meu; o que é teu, é nosso”. Eis um dos grandes problemas da nossa sociedade: este ultra-individualismo que se aproveita dos poucos que ainda acreditam no comum, sem nada retribuir. E assim vamos secando estes raros oásis sociais. A receita, para mim, é simples: ir e contribuir com o que se pode.
Abraço-vos,
João
Hoje partilho convosco uma sugestão diferente das do habitual. Partilho-a porque é uma forma de ajudar e contribuir para o trabalho do Grupo 257 dos Escoteiros aqui do burgo. Assim sendo, convido a quem me lê a visitar a feira quinhentista na Quinta da Piedade da Póvoa de Santa Iria que se vai realizar este fim-de-semana. Deixo aqui o convite e o apelo a que comam qualquer coisinha na barraca do grupo 257 para ajudar o escotismo local. Eu vou andar por lá em assaduras.




✌️o mais forte protege o mais fraco….assim para toda a vida!!!!
Também foi escuteira :) mas tal como o 'u' indica, fui do CNE. À parte a filiação religiosa, os valores e os espírito de comunidade e solidariedade são iguais. Marcou e contribuiu muito para a minha formação na infância e adolescência.