Escola Nova, Vida Nova
Regresso às Aulas e um coração apertado.
Eu acho que as nossas memórias vão sendo moldadas pelo somatório das experiências de vida. Tenho uma de quando era novo e mudei de escola que me marcou. Talvez seja uma memória fantasma, talvez nunca tenha acontecido desta forma. Mas vive dentro da minha cabeça como algo muito real, palpável e, acima de tudo, como algo que aconteceu mesmo.
Tenho alguns vislumbres da minha pré-primária. Algumas cores, sensações. Uma imagem da casa de banho com as sanitas pequenas, outras imagens que se confundem fotografias antigas perdidas em albúns, onde estavam crianças todas vestidos de coelhos brancos e fofos (Páscoa?).
Lembro-me de sentir orgulho por começar a perceber os dias da semana, a sua ordem e sequência.
E lembro-me do Gonçalo. Tenho a memória que brincava muito com o Gonçalo e, mais vívido ainda, recordo-o como o meu melhor amigo dessa época. Aliás, quando me falam de pré-primária e tento recorrer às minhas memórias, é do Gonçalo quem me lembro primeiro. Tenho ideia, mais ou menos nítida, da sua expressão facial, da forma do cabelo.
E lembro-me do vazio enorme que senti (talvez ainda sinta?) desde que mudei de escola e entrei para a primária. Lembro-me de dizer que tinha saudades dele. Lembro-me de chorar. Lembro-me de que os meus novos colegas não eram, de todo, tão porreiros de se brincar.
Ouvi várias vezes que estas mudanças fazem parte da vida, que os amigos vão mudando, que o Gonçalo foi para longe. Se calhar, para um adulto, isto pode ser intelectualizado desta forma. Para uma criança com 5 anos, não. Garanto-vos.
O que fica é um sentimento que habita nas vísceras. De impotência perante a situação, de resignação pela falta de solução e de mágoa pela incompreensão. Enquanto sociedade, ainda nos falta um longo caminho para aceitarmos o desconforto emocional como algo natural e sabermos acolher quem precisa, quando precisa. O que fazemos é suprimir esses sentimentos incentivando o “já passou”, “deixa lá” e “está tudo bem”. E acho que é importante permitirmos que toda a gente tenha espaço e tempo para sentir o que está a sentir. Principalmente as crianças, para que venham a ser adultos emocionalmente funcionais.
Esta semana o A vai começar na sua escola nova. Este ano, um turbilhão de mudanças assolou a sua existência. A saúde do avô, o nascimento do irmão, a mudança de escola. Por ser aluno condicional, optámos por retê-lo mais um ano na pré-primária para não acrescentar mais uma revolução à lista. Sinto que estamos a fazer o correto: entrei com 5 anos, faço anos em Novembro e sempre me senti desfasado dos meus colegas até chumbar pela primeira vez.
Nas últimas semanas, na escola antiga, ouvi-o dizer que não se sente preparado para mudar de escola e perguntou, várias vezes, se na eventualidade de não gostar da escola da nova se poderá voltar para a antiga. Com um nó na garganta e no peito, lá fui explicando que não será possível voltar para a escola antiga e que, apesar de difícil, é uma mudança inevitável, por várias razões. As férias ajudaram, acho eu. Espero. Tem estado distraído, com rotinas menos rígidas. Mas o meu desconforto continua lá. Como pai, estou ansioso para perceber como vai ser a adaptação, se ele se vai integrar, se tudo vai correr bem. Acima de tudo, o que me interessa é que ele seja tanto ou mais feliz do que era na escola anterior.
Sei que é importante aceitar as coisas como ela são. Este pilar do budismo tem sido uma grande ajuda na forma como vivo a parentalidade e permite-me criar uma espaço entre o que acontece e como reago. Não obstante, é dilacerante esta expectativa, esta incerteza. Mas, lá está, pouco ou nada poderei fazer em relação a isto.
Fico revoltado pela limitação económica que me impossibilita de inscrever o meu filho em projetos educacionais alinhados com os valores. É a forma que tenho de processar a impotência perante uma situação injusta e perante a qual não posso fazer nada. Mas resta-me aceitar.
O que me vale é o A ainda estar na nuvem das férias. Noto-lhe uma inquietação de quem precisa de estar rodeado de amigos da sua idade e fazer as brincadeiras típicas da idade. Mas não lhe sinto a ansiedade da nova mudança e ainda bem. Sinto a minha. Esta semana temos já a apresentação com os encarregados de educação e, no dia a seguir, dos alunos. Como será o corpo docente? Terão maturidade emocional para estarem responsáveis por crianças? Terão o superior interesse das crianças como prioridade? Simplificando, irão tomar conta do meu filho da melhor maneira e adequando a sua pedagogia às necessidades específicas dele?
Acho que este nó na garganta vai durar anos. Afinal, estaremos sempre preocupados com o bem-estar dos nossos filhos. Mas espero que os valores e inteligência emocional que temos fomentado colham os seus frutos nestas fases de adaptação. Porque, na verdade, só me resta esperar pelo melhor. E aceitar. Alea jacta est.


