Emoções
Literacias Emocionais na paternidade e masculinidade.
Olá,
No último fim de semana estive no círculo de conversas mensais do Paternidades de Pai para Pai. Cada vez mais, acho importante podermos reunir e falar, entre homens, das nossas experiências e vivências da paternidade e masculinidade. O que é ser pai, quais são as nossas falhas e como podemos aprender com as nossas experiências partilhadas para lidar com as frustrações e sentimentos de insuficiência. Desconstruir os nossos conceitos de masculinidade e formas saudáveis de a expressar.
Há qualquer coisa de especial na partilha emocional entre homens. Talvez porque nos pareça alienígena e estranho, tendo em conta que fomos socializados a nunca partilhar o que sentimos, muito menos com os nossos pares. Tendemos sempre a comparar-nos uns com os outros, a competir, a querer ser mais que os outros. Muitas vezes penso se isto será um imperativo biológico - como os nossos primos chimpanzés - ou se isto será um comportamento socialmente adquirido. Procuramos sempre refúgio no conforto de nos saber melhores - ou iludidos com uma suposta superioridade - em relação a outros homens. Mas, em roda, a falar do que nos aflige e/ou preocupa, somos iguais. Pares na aprendizagem, pares no acolhimento. Praticamos o igual-valor na escuta e na fala. Valemos o mesmo e durante algumas horas, mensalmente, sabemos disso.
Esta crónica vai ter uma ótica masculina sobre gestão emocional. Porque a forma como os dois géneros são socializados é estruturalmente diferente, e porque as consequências no longo prazo são, também elas, muito distintas. Quando falo em emoções, falo de uma perspetiva ignorante. Fui educado, como a totalidade dos homens da nossa geração, a não mostrar os meus sentimentos, a engolir o choro. Um homem não chora. Não sente. E quando demonstra alguma emoção que não seja raiva ou agressividade, sai do padrão normativo e é incentivado a esconder qualquer outro tipo de manifestação emocional. Sou, pois, um dos muitos analfabetos emocionais que por aí andam. Quando uma emoção se faz sentir no meu corpo, não a consigo identificar. Sinto e percebo um certo desconforto nalguma zona do meu corpo mas, a grande maioria das vezes, não consigo adjetivar o que estou a sentir. E nessa ignorância, sinto uma grande incapacidade de lidar com o que estou a sentir e fico sem perceber que necessidades estão por detrás dessa manifestação. O meu humor muda, fico rabugento, sensível, em alerta ou ansioso, sem perceber o que me fez ficar assim e o porquê.
Há uns dias jantei com o meu melhor amigo e constatei um facto: em mais de 30 anos, nunca o vi chorar uma única vez. Ele, a mim, já viu inúmeras vezes, nas piores e melhores fases da minha vida - posso não saber identificar o que sinto mas quando me sinto emocionalmente assoberbado sobre o que quer que seja, as comportas abrem junto de quem me sinto confortável. Mas a ele nunca lhe vi uma única lágrima. Já o vi enervado, assustado, tenso, imensamente entusiasmado, cheio de amor e carinho. Já o vi percorrer uma palete gigante de emoções, mas nunca o vi chorar. Fomos da mesma turma, andámos na mesma escola mais do que uma vez, viajámos e saímos juntos inúmeras vezes. Sabemos coisas um do outro profundas, íntimas. Arrisco dizer que é a pessoa com a qual tenho a maior experiência de vida partilhada, a par da minha companheira e filhos. Não tenho outra relação tão duradoura e vinculada. Não o vi chorar uma única vez. Esta constatação mexeu comigo.
Há qualquer coisa muito doente na forma como concebemos e vivemos a masculinidade e que impede os homens de manifestarem as suas emoções. Bom, nem todas. Temos carta verde para mostrar raiva, agressividade, assertividade e dominância. Socialmente, fica-nos bem. Quando perdemos a cabeça, ou somos duros, ou valentes. É um comportamento incentivado e reforçado e, quando gera resultados menos bons, facilmente desculpável. “Perdeu a cabeça, coitado”. Mas não podemos abraçar e dizer o quanto gostamos de outros homens sem ver a nossa orientação sexual posta em causa. Não podemos ter atitudes sensíveis, simpáticas, carinhosas sem perdermos a bandeira da nossa masculinidade. Depois parecemos fracos, inseguros, submissos. Precisamos ser duros, agressivos, competitivos, dominantes. Ser estoicos, inexpressivos, demonstrar controlo. Domar as nossas emoções e permitir-nos sentir, apenas, o que é aceitável.
Na formação que ando a fazer, foi-me facultada uma Roda as Emoções. Foi formulada para as áreas do marketing e comunicação: áreas que desde cedo perceberam que as pessoas comunicam e consomem, principalmente, de forma emotiva. O conceito é simples: emoções primárias no centro e vamos adjetivando cada vez mais nas rodas exteriores. A par com uns exercícios de autoanálise e reflexão, esta tabela tem-me sido muito útil para identificar os adjetivos que poderão descrever como me estou a sentir. Já conhecia uma tabela parecida da Comunicação Não Violenta do Marshall Rosenberg, mas esta roda acaba por se tornar mais fácil de usar. Visualmente, consigo navegar pelas várias emoções de forma mais intuitiva. Não sendo natural para mim perceber o que estou a sentir, acaba por ser muito útil conseguir identificar que tipo de emoção estou a sentir. Colocar o holofote nas minhas emoções permite-me pensar no tipo de necessidades que ela está a expressar.
Reconhecimento & Importância Fazemos o que fazemos para nos sentirmos reconhecidos, significantes e importantes.
Experiência & Novidade Fazemos o que fazemos para trazer mais novidade, experiência e movimento à nossa vida.
Segurança & Conhecimento Fazemos o que fazemos para obter mais controlo, conhecimento sobre a nossa vida, para nos sentirmos mais seguros.
Conexão & Pertença - Fazemos o que fazemos para obter mais conexão, pertença, ligação com os outros.
Estas listas são uma condensação feita através do Método LASEr criado pelo Pedro Vieira da LifeTraining. Agrupa e sintetiza alguns conceitos da psicologia comportamental e organizacional. Contudo, fica o alerta: são uma simplificação das necessidades humanas. Mas, na jornada de aprendizagem das nossas emoções e necessidades correspondentes, são um excelente ponto de partida. Tenho-me guiado com estas duas ferramentas para perceber o que sinto, como sinto e porque sinto. E tem sido esclarecedor. Vou ganhando vocabulário emocional para identificar o que estou a sentir.
Partilhei com o grupo esta lista e percebi que ressoou com vários pais. Afinal, somos todos mais ou menos da mesma geração pelo que a nossa literacia emocional anda pelas ruas da amargura. Mas foi bom perceber que a roda das emoções pode-se tornar numa ferramenta útil para todos os homens. E que pode, e deve, ser uma ferramenta para poder comunicar de forma clara com os meus filhos. Com tempo e exemplo, espero que eles também se consigam exprimir da melhor forma possível e saibam identificar o que estão a sentir. Quando me sento em conversa com os outros pais, percebo que todos os presentes remam contra a corrente: mais que partilhar, aprendemos uns com os outros o que estamos a sentir; verbalizamos e partilhamos essas descobertas. As emoções processam-se - e quiçá curam-se - em grupo, com os nossos pares. Vamos trilhando o caminho, partilhando o que somos, sentimos e como vemos o mundo. Que, gradualmente, mais homens o possam fazer e sair desse isolamento a que a ignorância emocional nos condena.
Até para a semana,
João
P.S. O poeta norte-americano Robert Bly escreveu em 1990 um livro que se tornou um marco para a masculinidade saudável. Deixo-vos uma entrevista (em Inglês) a propósito do lançamento do livro e que aborda muitas questões relevantes para a paternidade e masculinidade. Deu-me que pensar, e colocou em perspetiva muitas outras coisas.


