Emergente
Olá,
Na semana passada publiquei uma crónica em que discorro sobre os novos começos que o final do Inverno nos proporciona. Sobre o crescimento pelo qual passamos durante os meses de reclusão e do quão diferentes somos quando chegamos ao outro lado da invernia. Eu escrevo com antecedência: regra geral, tenho os textos pensados e escritos entre duas a três semanas da sua data de publicação. Permite-me espaço, tempo, revisão e liberto-me da pressão de escrever para um prazo. No entanto, a crónica de hoje está a ser escrita uns dias antes da sua publicação, por força das circunstâncias.
No dia em que o texto Águas de Março foi publicado, estava no terceiro dia como acompanhante nas urgências do Hospital Santa Maria. A minha vida mudou abruptamente de rotina, cercado de sofrimento dos demais amarelos, mais graves que os verdes, menos emergentes que os vermelhos. Angustiado e ansioso por perceber o que se passava com o meu pai e vê-lo a combater insuficiências e infecções, era aqui publicado um texto sobre ciclos de luz que aumentam. Sobre o quão bom é ser pai e poder testemunhar o crescimento, dia após dia, dos meus filhos. Não pude deixar de notar a ironia. Subitamente, parece que fui submergido e passei dias a tentar chegar à superfície para respirar. Os dias alteraram-se: na logística em casa, na ausência do trabalho e na incerteza do que serão os passos seguintes.
Estava melhor preparado para isto, desta vez. Os anos de terapia, o acompanhamento médico e o meu desenvolvimento pessoal deram-me as ferramentas para conseguir lidar com a avalanche emocional, um dia de cada vez. Ativei o cérebro-solucionador-de-problemas. É uma espécie de estado em que uso e abuso do córtex pré-frontal para lidar de forma lógica com os desafios. O que é necessário fazer nas urgências, que ordem de exames e análises, quando procurar e insistir com os médicos para melhor compreender o estado e a situação do meu pai. Agilizar os possíveis cenários de permanência nas urgências, internamento em especialidade ou, não fosse eu otimista por natureza, de alta hospitalar. Mas há sempre uma sombra que nos acompanha e para a qual não tenho ferramentas: e se a morte deixa de bater à porta e entra de rompante? Sempre que voltava para casa para tomar banho e mudar de roupa, abria o caminho para a incerteza, para a dúvida, para a angústia. Será que quando chegar ele terá falecido na minha ausência? O estado clínico piorou de tal maneira que é iminente o último suspiro? Mesmo aceitando a morte como parte integrante e natural da vida, fiquei sempre com o coração apertado quando regressava. Só voltava a respirar quando o voltava a ver, mesmo que inquieto, mesmo que inconsciente. Há sempre esperança na vida, e tudo é possível; só a morte é definitiva.
Nestas alturas há uma aflição imensa que me põe a matutar no Divino. Nas questões metafísicas das entidades superiores, das múltiplas interpretações do que é Deus, ou Deuses, de como viemos aqui parar e, acima de tudo, para onde vamos a seguir. Eu não sei o que é o Divino mas, paradoxalmente, sinto falta dele. Falta-me esse colo para aceitar o que não compreendo e tranquilizar a dúvida permanente do que é que existe a seguir a este plano de existência, se é que existe alguma coisa. Não consigo provar a existência de um Deus. Mas também não consigo provar a sua inexistência. Ao vasculhar os livros do meu pai, encontrei um soterrado por outros tantos na mesa de cabeceira. Do Frederico Lourenço, de quem gosto muito, e que fiquei a conhecer quando li a sua tradução dos Evangelhos: Livro Aberto: leituras sobre a Bíblia. Não é, de todo, um livro espiritual, mas soube-me bem lê-lo e poder ficar com algumas das questões - bem como críticas - que suscitou na minha mente. Há livros que aparecem nas alturas certas e este foi um deles. Só recentemente deixei de procurar respostas e aceitei que fazer perguntas é a única procura de que preciso. Cruzei-me com textos de um católico que gosto de ler, o Zé Pinho, e numa troca de comentários ele referiu que o mais importante é mesmo essa procura de Deus. Porque na procura encontramos não as respostas, mas formas de pensar. Se tivermos sorte, as perguntas trazem-nos mais perguntas.
Aceito que há um fim para todos. Somos feitos de impermanência. Mas parece que vislumbrar esse fim confronta-nos com a injustiça do sofrimento, com a fragilidade da vida e na escassez do tempo. Enquanto escrevo estas palavras, ainda não fui visitar o meu pai. Há horários que precisam ser respeitados. Só depois poderei mitigar a angústia de não saber como está hoje. Durante um bocado fico descansado, faço uso do tempo com o meu pai, nem que seja a vê-lo dormir. Até sair e ficar novamente angustiado. E o ciclo repete-se. Tudo isto seria infinitamente pior se não fossem os heróis dos auxiliares, enfermeiros e médicos do Santa Maria. Mesmo num cenário muito semelhante a um hospital de guerra, com macas nos corredores, doentes a aguardar internamento amontoados num canto, dão o melhor e acodem todos. É uma lição de humanismo, de altruísmo e dedicação que raras vezes vi na vida. É ver a saúde como um direito, na prática, e nunca a olhar como um negócio. Não há lucro naqueles corredores, mas enormes custos: pessoais, emocionais, físicos. Nestes dias disse várias vezes que aqueles profissionais fazem omeletes sem ovos. Erguem estruturas sem materiais. Lidam com o desespero humano com sorriso, compreensão e aceitação. Fazem o melhor que podem e mais não se pode pedir. Senti-me acolhido e respeitado. Senti o meu pai bem tratado e cuidado. Senti que mais fariam se pudessem, se lhes fosse física e materialmente possível.
Talvez o Divino seja o tal amor para com o próximo que os evangelhos dizem que Jesus professava. Talvez Deus seja todo este esforço hercúleo que testemunhei. Talvez sejam os pedaços de tempo que ainda tenho com o meu pai. Ou as pessoas que vieram buscar-me para almoçar e distrair. A família que apareceu só para fazer companhia, que faz tudo o que lhes é pedido e ajudam no que podem. Talvez o Divino seja nalgumas noites voltar para os meus filhos e saber que, para além do sofrimento atroz que se passa nos corredores da urgências e nos internamentos, também há amor. E risos, e colo. Talvez Deus sejamos cada um de nós a fazer o que podemos da melhor forma. Hoje, não sinto que precise de respostas. Sinto que preciso de agradecer, bem como procurar.
Abraço-vos,
João
Tanta espera e angústia também servem para pôr a leitura em dia. Terminei o livro da Paulina Chiziane, o Niketche: Uma História de Poligamia. A minha mãe nasceu em Moçambique e por lá viveu até à idade adulta. Sinto uma ligação enorme a esse país que nunca visitei, mas cujas particularidades tanto me encantam. Adoro os dizeres e formas de escrever do Mia Couto, por exemplo. Mas agora a ler a escrita de uma mulher negra dei de caras com um afro-feminismo que me encantou. Uma escrita muito própria, que oscila entre os pensamentos e a oralidade. Não escondo que achei o livro demasiado grande, mas eu tenho a tendência de querer cortar durações a tudo: livros, filmes, peças de teatro, exposições. Prefiro sempre o créme de lá créme, ou o que eu acho que isso é. Mas não deixou de ser um livro que gostei e que me satisfez o desejo que conexão com a Moçambicanidade, ou o que imagino que isso seja.
Li um texto maravilhoso sobre maternidade. Foi escrito pela Maria Popova, do The Marginalian, e acaba por ser uma reflexão que coloca em perspetiva a nossa enormidade, bem como insignificância, neste mundo onde vivemos. Caiu bem, também, nesta altura mais conturbada. Ser pai é também perpetuar grãos cósmicos feitos de matéria primordial que se vão organizando de formas diferentes. Neste momento são os meus filhos, mas já terão sido estrelas. Há algo inefável na matéria viva e tenho olhado muito para o céu para fazer o pouco que posso: abraçar a existência como a bênção magnífica que é.

“Imago Dei”, Oil on Canvas 22″ x 16″ ©Michelle Arnold Paine




Espero que o teu pai tenha tido uma evolução positiva, não imagino a angústia!
been there (modo lógico de resolver problemas de saúde) e nem consigo ler, escrever. as minhas energias são sugadas para aí. o problema de lermos tanta ficção é nesses pequenos momentos, em que vamos a casa, comer qualquer coisa rápida, a memória ficcional atraiçoa-nos e apresenta sempre a solução menos favorável como possível. quem lê e reflecte tem destas coisas. de resto tudo a correr bem com o teu pai, João.