Diz-me o que lês.
Olá,
Os dias discorrem lentamente, numa amálgama de acontecimentos. Evito sentir e, para isso, vou fazendo coisas. Tarefas, burocracias, arranjos, vendas, organizações. Não deixa de ser engraçado porque eu não sou nada disto: lá em casa quem monta os móveis do IKEA é a Sofia. Por norma, procrastino pequenos arranjos em falta lá por casa, evito chatices burocráticas, adio o desconforto até à inevitabilidade. Tenho lido consideravelmente menos: não me apetece, simplesmente. Uma das tarefas mais hercúleas ao esvaziar a casa do meu pai são precisamente os livros. Milhares deles. Recordo as palavras do casal de alfarrabistas, os primeiros a irem à casa, a confessarem-me que um dos problemas de se lidar com livros diariamente é a falta de tempo – e cabeça – para ler. À medida que vou gerindo os destinos de um espólio literário – as vendas por lote ou avulso, os que quero guardar, os que que quero oferecer – sou obrigado a concordar que há menos espaço mental para ler.
Mas consegui terminar o livro de Fevereiro do Marginália. A leitura de A Escrita Como Uma Faca da Annie Ernaux foi tão impactante para mim que tive de a interromper para ler uma das suas obras. Senti essa urgência para melhor compreender a autora quando discorre sobre a sua escrita. Fui à biblioteca e requisitei O Acontecimento que li em pouco mais de duas horas. Duas assentadas bastaram para terminar o livro e perceber que deveria ser obrigatório no ensino secundário e sugerido com veemência a todas as pessoas que se opõem à legalização do aborto. Depois regressei a A Escrita Como Uma Faca para continuar a ler este livro-entrevista sobre a escrita e os processos da autora. Fiquei mesmo fã. Li-o com calma, ponderação, a saborear cada detalhe. Terminei-o da melhor forma: numa manhã de introspeção, na Fonte da Telha, a ver o mar.
Entretanto, agarrei-me com força a alguns livros que não estavam na lista de prioridades. Tinha começado a ler O Louco de Deus no Fim do Mundo do Javier Cercas. Foi o livro que ofereci ao meu pai no Natal e que ele gostou imenso. Fiquei curioso. Na última vez que estivemos juntos falámos sobre ele. Explanei algumas curiosidades com a narrativa que o meu pai, prontamente, não satisfez: o Javier chega a falar com o Papa? Faz-lhe a pergunta cuja resposta quer transmitir à mãe, crente devota e fervorosa? Adiámos a conversa para quando terminasse de ler o livro. Na altura não sabíamos, mas nunca voltaríamos a falar sobre o livro. Tinha-o começado a ler no dia antes da nossa conversa, mas varri vários capítulos, cativado pela temática e o ponto de vista: um ateu anticlerical a acompanhar a visita do Papa Francisco à Mongólia. Uma receita simples para me cativar o interesse. Quem sai aos seus, não degenera. Ainda não o acabei, parece que as páginas custam a passar. A culpa não é do livro, é minha. Custa-me acabar o livro que ainda me liga a uma conversa vívida com o meu pai. Terminar o livro é concluir um processo e mergulhar na ausência de resposta, de conversa. Enquanto leio, converso não só com o livro, mas com o meu pai. Revejo-o no autor, no seu profundo laicismo e ateísmo, na sua desconfiança da Igreja e, ao mesmo tempo, na capacidade de aceitar o bem que o seguimento dos ensinamentos de Cristo pode causar. Confundo o narrador com o meu pai. Demasiadas vezes não os consigo destrinçar; é o meu pai que viaja para a Mongólia, é o meu pai que entrevista bispos e cardeais, é o meu pai que teimo em ver em todo o lado dentro do livro.
Regresso aos livros da casa. Pode-se conhecer uma pessoa pelos livros que tem? Somos tanto aquilo que comemos como aquilo que lemos? O que nos dizem as prateleiras de alguém? Não li nem um terço da biblioteca dos meus pais. Mas conheci bem as lombadas dos livros, os autores, alguns títulos. Tenho memórias nubladas de elogios a determinadas obras, de críticas a outras. De conversas sobre autores e eu ser demasiado novo e imaturo para as acompanhar. Nas arrumações, encontrei uma fotografia dos meus pais e da minha prima Cláudia – deviam ter pouco mais que a minha idade na altura. Todos ávidos leitores. Estavam sentados no chão da nossa sala, ainda alcatifada, o meu pai de dedo em riste a argumentar. Conversavam e debatiam. Aposto que teria algo que ver com livros. Pelo menos, gosto de pensar que sim. O que é que os livros dos meus pais dizem sobre eles? Que eram pessoas diferentes, sem dúvida, com uma relação onde as intersecções ultrapassaram as tangentes. Eu sou uma das intersecções. Os livros, tangentes. A minha mãe gostava de histórias imaginadas, fantasiosas, criminais. Suspense. Agatha Christie, coleção Vampiro, Christian Jacq. O meu pai também gostava de histórias, mas de outro género, enraizadas no realismo, tanto o mágico como o mais palpável. Adorava Camilo José Cela, Saramago, Aquilino Ribeiro e o seu poeta favorito, imagine-se, é o Manuel Alegre. Há mais autores: Pepetela, Gabriel García Márquez, Montalbán, Vergílio Ferreira. Podia ficar aqui a listar mais nomes nuns quantos parágrafos. Mas para além de uma tendência para acumular livros, o que é que eles me dizem sobre o meu pai? As histórias que ele mais gostava tinham sempre que ver com o confronto dos mais despojados. Adorava o Soeiro Pereira Gomes e o seu Esteiros, um livro dos “filhos dos homens que nunca foram meninos”. Ou o Levantado do Chão, do Saramago, que insiste em lembrar-nos o que era miséria humana e como se vivia dentro dela no nosso Alentejo. Não era um interesse zoológico ou voyeurista. Era uma consciência de classe enorme que se traduzia somente nisto: generosidade. Era a noção de que a dignidade é um direito de todos. Filho de uma classe média do Porto que nunca se deixou cegar pelo privilégio. E os livros nas prateleiras reafirmaram esta narrativa.
Tive um pai generoso que nunca hesitou em dar o que tinha para, com o seu contributo, melhorar a vida dos outros. Fez isso comigo, com as minhas irmãs, sobrinhas, com os meus filhos, com a Sofia, com a minha mãe, com a família dele. Nunca lhe ouvi uma cobrança. Nunca lhe ouvi um relato do que fez por alguém. Com ele aprendi que é-se generoso pelo ato em si, não pelo que se possa vir a ganhar. Tinha outros defeitos, mas nisto era imbatível. Por isso, vou-me agarrando aos livros que ele andou a ler nos últimos meses. Para, enquanto os leio, olhar para as páginas com a generosidade do meu pai. E, inocentemente, me agarrar um pouco mais à memória ainda tão nítida dele. Talvez esses livros se possam tornar no colo que me tem feito falta nas últimas semanas e guiar-me para a generosidade que aprendi com ele.
Abraço-vos,
João
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O teu texto deixou o que me refletir. Vou te deixar uma recomendação de um livro - a medo, porque não o li, mas várias pessoas me disseram que era absolutamente magistral - Educação da tristeza, de Valter Hugo Mãe. Fala sobre o luto, algo por que nunca passei. Quando for a minha hora de chorar a morte de alguém que me foi querido, quero ler este livro.
João, um abraço. Este texto é um abraço a quem os teus braços já não conseguem alcançar. Estás a construir a memória que vai viver em ti. Guarda cada detalhe que possas. O pior não é a dor de agora, é o esquecimento que vem de mansinho, sem aviso nem dor. Deixa que os livros dele te contem quem ele foi, todas as vezes que precisares.