10 Comentários
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Avatar de João Azevedo

Olá João. Acho que o questionamento é a palavra-chave aqui. Na dúvida vou procurando não as respostas mas sim mais perguntas. Demorei bastante tempo até perceber isto. Um abraço

Avatar de Raquel Dias da Silva

Gostei muito desta carta. Não sou religiosa mas a minha relação com a catequese (isto é, a única vez que lá pus os pés) também foi porque de repente estavam todos os meus colegas a ir e eu não queria ficar de fora. A minha mãe lá me levou mas bastou um dia para perceber que não queria mais. Achei uma seca. Mas não me lembro de muito mais. E nunca tive uma relação com Deus. Os meus pais não iam à Igreja e nunca os vi rezar (embora o meu pai diga que acredita em Deus). Sempre achei estranho existir um Deus e o mundo ser um caixote do lixo a arder. Mas acredito em algo superior, nomeadamente a natureza, que é tão perfeita, e se constrói e destrói à medida que é preciso.

Avatar de João Azevedo

Adorei o exemplo do caixote do lixo a arder. Esse Deus da Bíblia também nunca me convenceu, precisamente pela existência de tamanho sofrimento no mundo. A minha construção mental, ou a história que conto a mim mesmo, sobre o divino passa muito por um conceito de todo, cósmico, uma teia de energia (quase como uma rede de micélio). A natureza faz parte desta minha concepção, pela sua capacidade de criação, destruição e regeneração.

Avatar de Raquel Dias da Silva

Essa ideia cósmica, como uma rede de micélio, parece-me mais perto daquilo em que também acredito

Avatar de carolina novo

Se um dia quiser apresentar a alguém um texto sobre aquilo que realmente é o questionamento da crença, os espaços ambíguos e cinzento que existem entre não acreditar em Deus, ou num Cristo, e não acreditar em nada, mostrarei o teu. Acho que uma das coisas mais importantes que a idade que me trouxe (e a alguma experiência, embora não tanta como a tua, que te trouxe essa sabedoria toda) foi deixar de ser algo snob e hipócrita no que diz respeito àqueles que categorizava como "crentes" e metia todos no mesmo saco. Deixar esse desprezo e, até certo ponto, esse manto de superioridade que eu atirava para cima das crenças e fés dos outros abriu espaço para perceber que tem tudo muito a ver com as perguntas do que com as respostas. E talvez haja alguma tranquilidade e paz que vem com isso. Acho que aceito um mundo onde Deus exista e essas dúvidas também. Elas tornam-nO mais humano (paradoxalmente) e falível, e portanto também mais próximo daquilo que, tendo de imaginar uma figura, imaginaria. Também não sou religiosa, embora tenha crescido a ir à catequese - no entanto (e aqui talvez também esteja o segredo), com uma catequista incrível, jovem, que conduzia lições onde todos questionavam e, até, onde havia espaço para não acreditar. Tal contribuiu para guardar com algum carinho essas memórias de dez anos de catequese, e encontrar algum conforto inegável, mesmo enquanto uma ateia/agnóstica (ainda a definir) nessas lembranças. A concepção da tua relação com Deus como uma eterna procura por colo e acolhimento emocionou-me muito. Faz tudo parecer muito mais bonito, simples, e orgânico afinal. Se tirarmos a igreja, as instituições, tudo o resto que tolda a visão, fica talvez só isso. Isso e aquela prece ainda meia infantil - como quando pedíamos algo debaixo dos cobertores, de lágrimas nos olhos, quando esgotadas todas as hipóteses só nos restava rezar, como alguém tinha dito que resultava, mesmo que nos sentissemos hipócritas por só nos lembramos Dele quando precisávamos -, de que talvez eles e Ele tenham razão, e ainda nos encontremos no lado de lá com os que já foram. Seria o melhor remédio contra o meu ateísmo/agnosticismo; deem-me essa certeza e eu aceito o que for preciso. Adorei o texto, João, está mesmo incrível. Muitos parabéns.

Avatar de João Azevedo

Hesitei muito se publicava ou não está crónica. As crenças têm uma dimensão única e subjetiva, não é? Revi-me na tuas palavras: também fui snob e com a mania que era superior e melhor que os crentes. Vestia-me a preceito achando-me o Anticristo pronto para apontar o dedo à fragilidade de quem acreditava. Crescer, independentemente da experiência, ensinou-me que todos padecemos dessa fragilidade, de uma forma ou outra. Tornado o episódio da bolacha sem sal no texto descrito, não tive experiência com catequese. Mas fico feliz que a tua tenha sido positiva. Eu cá continuarei com a ocasional prece infantil que tão bem descreveste. E com uma incapacidade crónica de aceitar o elogio que fazes e ficar, ao mesmo tempo, muito grato por ele.

Avatar de carolina novo

Consigo imaginar que sim, que não tenha sido fácil decidir publicá-la. Mas fico muito feliz que o tenhas feito. Entendo totalmente o que dizes - embora não tenha chegado a envergar a figura do Anticristo (mas admiro a tua dedicação) e me tenha ficado por uma adolescência gótica e com um gostinho em nutrir um lado dark. Mas a conclusão a que acabámos por chegar é a mesma: todos temos essa fragilidade, só acabamos por convocar palavras e crenças diferentes. Apesar da minha experiência positiva - que sem dúvida agradeço, porque pelo menos não me traumatizou - o que ficou também foi essa prece a que recorro também quando me sinto mais pequenina, mais criança, como falámos. Quanto à incapacidade crónica de aceitar os elogios, vamos fazendo como com o resto, e tentando aos pouquinhos. Eu vou continuar a deixá-los e um dia talvez os aceites melhor :)

Avatar de Ana Ferreira

Sentem-se várias das emoções do texto quase a gritarem para fora do ecrã.

Felizmente não sei ainda o que é perder os pais (espero que ainda demore mais uns anos); a minha mãe sempre foi ligada à igreja, chegou a ser catequista, como é óbvio fiz o crisma e até cheguei a cantar no coro por uns anos (mas aí era música, por isso tudo certo 😄), fui oscilando na minha fé, não posso dizer que tenho uma religião em particular... acredito em algo, uma energia talvez.

Quando uma grande amiga da minha mãe morreu demasiado cedo com cancro, a fé da minha mãe mudou e ela afastou-se da igreja; um pouco como dizes, não conseguia perceber como Deus poderia levar aquela pessoa tão cedo e com tanta dor.

É difícil de aceitar.

Gosto muito do Siddhartha, já li várias vezes e o livrinho que tenho é bem antigo e de páginas gastas. Um dos poucos livros que a minha mãe comprou em solteira 🙂

Avatar de João Azevedo

Um belíssimo livro, mesmo. De tempos a tempos, leio-o novamente. Ainda bem que gostaste do texto!

Avatar de João Madureira - Nutricionista

Obrigado pelo texto. Eu também oscilo entre fases de maior ou menor crença.

Sinto por vezes uma grande força. Mas há tanto sofrimento, inclusivamente no mundo natural, que duvido.

O meu pai tem a teoria que a crença em Deus serviu para dar esperança aos humanos em épocas onde havia enormes sofrimentos.

Sendo eu budista, aprecio bem as vantagens da frase de Milarepa: "a minha religião é não me enganar a mim mesmo". O nosso cérebro pode enganar-nos de formas bem subtis.

Basta ver toda a atividade que passa pelo cérebro que não notamos conscientemente.

Mas talvez seja precisamente essa a resposta: físicos teóricos e biólogos têm a teoria do "quantum brain", ou "quantum consciousness", de que os neurónios do cérebro funcionam com base em fenómenos quânticos. O que será que isso quer dizer, perante certas interpretações da física quântica, de que tudo está interligado? Talvez seja isso a natureza de Deus? Talvez possamos atingir estados de coerência divina, mas isso de nada possa valher contra um furacão, porque a coerência não é suficiente?

Seja como for, acho importante questionar narrativas religiosas, sendo que temos uma enorme propensão para abusar delas e cometer atrocidades em Seu nome.