Dilúvios de Março
A vida acontece. A morte também. E eu precisei de escrever sobre isto.
Olá,
Não sei se repararam que arranquei o mês de Março galvanizado. Fui fechando algumas caixinhas mentais com reflexões e balanços do Inverno e assumi plenamente que não fazia mais fretes, inclusive livros. A poesia bateu à porta com força e arrombou alguns dos meus receios da exposição: gravei semanalmente poemas que fui conhecendo graças às recomendações que me foram fazendo e outros que sempre adorei. Mas a vida acontece; com força demais.
Há algo perturbador na angústia que nasce de uma incerteza. Sou uma pessoa de rotinas: o conforto de saber o que se passa e quando se passa permite-me agendar os dias da forma que penso ser melhor. É nas rotinas que nasce a minha escrita; sem esse reduto de repetição que me permite um espaço diário para escrever, não escrevo. As palavras ficam trancadas dentro de mim. Décadas. Crescer é integrar as nossas características, os nossos detalhes e feitios. Já que sou rotineiro, há que usar esta mania a meu favor. Continuo a acordar para saber como vão correr os meus dias, o que esperar deles e, acima de tudo, saber que espaços tenho para mim. É isso: a rotina permite-me espaço.
Mas a vida acontece. Os meus planos saem gorados por tantas razões. Primeiramente, os filhos. A imprevisibilidade da infância proporciona autênticos colapsos nervosos a quem gosta das rotinas. As fases de crescimento, por exemplo, moldam as noções de espaço e tempo. O que outrora demorava algum tempo é rápido. E o que era rápido agora demora tempo. As oscilações de humor, os arrufos entre irmãos. As mudanças de rotinas: organizamos as tarefas e momentos dos dias em horários diferentes, ajustamos, fazemos o malabarismo necessário. As febres, tosses, acidentes, ossos partidos, ranhos sem fim e um aparente infinito número de vírus, infecções e maleitas. Também há o mundo lá fora. Gostamos muito de nos pensar isolados, capazes de ser donos e senhores do nosso destino. Basta uma greve de algum serviço que faça parte da nossa vida e já fomos. É como aquele truque que alguns mágicos fazem de puxar a toalha de uma mesa muito rápido, deixando os copos, pratos e talheres impávidos e serenos. Neste caso, puxa-se a toalha e vai tudo pelos ares, a começar pela rotina. Por fim, a impermanência das coisas é a cereja no topo do bolo ou a pedrada fatal. Há prazos em tudo: nos nossos humores, vontades, desejos, relações. Nas coisas que pertencem à nossa rotina, nos livros, nos cangalhos que usamos como muletas. Nas pessoas que nos rodeiam. Da minha experiência, envelhecer não é o poema que tantas vezes nos vendem. A lenga-lenga serve o propósito capitalista de nos manter de olhos postos na reforma, os anos de ouro, mas tenho uma visão mais fatalista da coisa. Envelhecer é perder faculdades físicas, mentais e cognitivas. É aumentar estatisticamente, a probabilidade de contrair algum tipo de doença ou ter uma má-formação na renovação celular que acaba num tumor de algum tipo. Não há nada mais disruptivo numa rotina do que nos vermos cuidadores de alguém. Ou nos vermos ficar sem alguém. É nestas alturas que nos apercebemos, embora só momentaneamente, que as rotinas também são impermanentes.
As águas de Março acabaram em dilúvio. Lá fora e dentro de mim. Tenho-me sentido assoberbado; demasiadas coisas em que pensar ao mesmo tempo. A torrente de acontecimentos deste mês tem-me feito adormecer derrotado, impotente. Sinto, demasiadas vezes, a urgência de voltar a padrões do passado, maioritariamente autodestrutivos. Vou-me segurando, por fios. Há um cansaço existencial enorme. E há muito caminho ainda a percorrer. Ainda preciso lidar com o internamento do meu pai, as logísticas posteriores, estar com os meus filhos, com a Sofia, adaptar diariamente a rotina às exigência do dia, que podem alterar-se de um momento para o outro. Há uma constante ansiedade nas vísceras, um peso que carrego que me deixa exausto. A tal angústia perturbadora.
Um dia de cada vez. Um dia de cada vez. Um. Dia. De. Cada. Vez.
Vou lidar com Abril com a neutralidade das últimas semanas e a repetir este mantra. Gerir as coisas à medida que aparecem. E saborear as dádivas que teimo em esquecer: um sorriso que conforta e me diz que está tudo bem. Um abraço de robe na cozinha de uma casa com duas crianças: amor no meio do caos. Poemas que leio e me dão colo e as ganas de escrever os meus próprios. Os versos que me assaltam, pontualmente, e consigo chegar a tempo de os escrever. Livros que me lembram o quão bom é ler e dar azo à imaginação. E escrever, que me tem lavado a alma destes dias lamacentos. Vou-me permitir um optimismo bacoco e cliché: há sempre sol por detrás das nuvens, por mais carregadas que estejam. O meu filho mais velho leu há umas semanas o seu primeiro livro sozinho: o orgulho foi incomensurável. Dele e meu. O mais novo continua lélé da cuca, que é como se quer uma criança com quase dois anos. Bem disposto, dançarino e sempre a falar. É pena não perceber a patavina dos seus vocábulos. Eles sabem que algo não está bem comigo. O mais velho já percebeu que está relacionado com o avô. Vamos conversando sobre doença, velhice e maus hábitos. Como é que se conversa com uma criança sobre morte? Com naturalidade: ela faz parte da vida, apesar de teimarmos em escondê-la da nossa vista. Claro que se antecipam saudades nestas conversas. E ares sisudos que percebem que, talvez, não possam voltar a ver alguém de quem gostam.
Há uma certa simplicidade, não simplismo, no olhar do meu filho velho que aceita a possibilidade de alguém morrer. Não tem o poder para fazer nada, nem alterar o curso dos eventos. Nem mudar o passado que foi agravando a condição de saúde. Aceita-se, com a tristeza devida, o que é pouco mais que um ciclo. Um princípio, meio e fim. Nesta perspetiva, nesta forma de ver a vida, encontro um espaço que muitas vezes dou como perdido: só a morte é definitiva. Enquanto temos um sopro de vida em nós, se formos de facto movidos por um amor altruísta, vamos atrás de quem gostamos. Não olhamos a condições, nem a imposições de terceiros. Se podemos aproveitar a presença e o tempo - e é isso que importa - sugamos o tutano das relações com as pessoas que nos são mais importantes. Temos sempre escolha. Podemos engolir a desilusão de não ter o que queremos nos nossos termos. Podemos decidir que a presença é mais importante. É uma lição que muitas famílias desavindas poderiam aprender - a começar pela minha. Passam-se décadas e desperdiçamos tempo. Temos um prazo de validade e quando expira já não há nada a fazer. Há que aproveitar. A angústia, a impotência, podem ser boas lentes para a resolução de conflitos. Mas temos que partir de um lugar de amor. De altruísmo. Onde ter razão não é mais importante que partilhar tempo com quem se ama. Por não saberem o que é amar, muitos não conseguem largar as amarras. Ficam presos a mesquinhices enquanto os ponteiros do relógio avançam, indiferentes. A morte pode trazer lições para a vida. Só temos de querer aprender. Depois, já é tarde.
Abraço-vos,
João
Li “A Vida em Nós” do José Tolentino Mendonça. São vários aforismos agrupados por temáticas e fiquei com o sensação de estar a ler o “Meditações” do Marco Aurélio. Frases ou parágrafos densos que forçavam a pousar o olhar no horizonte. Sobre amizade e amor, fé, alegria e o mundo que nos rodeia. Andava curioso em ler algum dos livros dele desde que, há uns anos, folheei em casa de um tio um dos livros. Acho que fugi deste autor por ser padre, e agora cardeal, com medo de ler nas palavras dele um evangelismo em demasia. Não podia estar mais errado e ainda bem que arrisquei. Gostei mesmo do livro e das reflexões consequentes e acabei a encomendar a poesia completa editada pela Assírio & Alvim. Li-o de rajada, mas fiquei com a certeza que hei-de voltar a ele várias vezes, provavelmente já deitado na cama e faminto de algo que me faça pensar.
Não estava nada à espera que o novo álbum da Capicua fosse este estrondo. Sendo eu adepto de um rap mais interventivo e estruturado, este disco veio saciar essa ânsia. Não fui muito à bola com o Madrepérola, mas este foi ouvido e pensado do início ao fim. Já tinha gostado muito dos singles que foram saindo e foram um belo prenúncio para o que aí vinha. Rap duro, melódico e a pôr o dedo na ferida. Faltam-nos artistas assim no panorama nacional e só posso ficar feliz por termos pessoas que criem desta maneira. Está a ser um belo ano para cantar liberdade e procurar intervir com a música. Depois do disco da Gisela João, este “Um Gelado Antes do Fim do Mundo” trás a doçura nostalgica desse apocalipse, com pontuações poéticas maravilhosas por convidados de luxo.
Também eu levei com a marretada emocional que foi ver a série da Netflix “Adolescence”. Vou deixar para depois os rasgados elogios à forma como foi executado, às atuações incríveis em plano sequência. Ainda estou a cozinhar uma crónica sobre ela porque, honestamente, sinto que preciso de organizar a minha cabeça sobre o assunto. É de visualização obrigatória: infelizmente, só fará sentido a pessoas com já alguma consciência da massificação de um problema. Ainda há muita dificuldade (masculina, principalmente) em ver o declínio consequente e estrutural do machismo tóxico e estrutural. Argumentam o seu contrário e listam os enormes sofrimentos que os homens passam, que eles também são vítimas. Quero acreditar que a ignorância se combate com informação, diálogo e debate. Por isso recomendo muito verem esta série, sejam pais ou não. Se forem adolescentes, ainda melhor. E conversem. Debatam. Mudem hábitos. Sobre o tema, li uma crónica muito relevante aqui no Substack:






Sei que a beleza e as reflexões importantes que vêm com estes momentos não levam a nuvem negra para longe, nem tornam a perda mais leve, mas sim, ainda assim, achei o texto muito bonito. Aliás, tenho tendência para achar que é nestes momentos de maior fragilidade e em que a vida parece tão pequenina, que nascem das coisas mais bonitas. Espero que o que tens aprendido te ajude, pelo menos, a aproveitar o que há ainda de bom para aproveitar. Coragem para estes dilúvios!
Gostei muito deste texto, João. Apesar de toda a tristeza e cansaço que tem entranhadas, é muito bonito e deixou-me a pensar. Acho que deste voz a uma lição que parece simples e cliché, mas que poucas pessoas aprendem a tempo. Enquanto há tempo.
Dizes, “temos sempre escolha. Podemos engolir a desilusão de não ter o que queremos nos nossos termos. Podemos decidir que a presença é mais importante”, e isto é algo em que tenho pensado muito. Acho que a desilusão, a dor, o ressentimento de anos a não termos o que queremos da forma que desejámos ou achamos justo é muito difícil de ultrapassar. Acho, honestamente, que a maioria das pessoas cristaliza esse bolo amargo e o carrega até ao fim. Se lhes perguntarem, dirão, “mas ele também nunca foi o que quis/precisei”, algo por aí. E acaba-se a história, e o tempo. Nunca se pára para pensar que, até aí, há a possibilidade de escolha. Podemos decidir que já não importa assim tanto. Que queremos tentar uma última vez. Ou que queremos só estar presentes, quando já se esteve ausente tantas vezes.
Acho honestamente que tocaste numa das maiores lições que a morte pode dar, uma das mais escondidas e difíceis de entender enquanto há tempo: que podemos parar e decidir que está tudo bem, que não importa o que passou, sem que algo desça à terra para nos condenar pela nossa 'hipocrisia', com acusações de 'parece que te esqueceste de tudo o que passou'; estamos a salvo. Podemos esquecer. Tudo estará esquecido, de qualquer forma, em breve.
Parabéns pelo texto, João (e desculpa o comentário longo e talvez sem nexo), e força!