Desmame da infinitude do scroll
Ou como me apercebi que o Instagram não me fazia bem.
Olá,
Faz hoje um mês que larguei as redes sociais. Escrevi esta última frase ainda sem ter começado o meu primeiro mês de jejum dos picos de dopamina provocados pelo scroll infinito. Se me estão a ler é porque este texto foi publicado mais ou menos um mês depois da minha intenção inicial e cheguei ao fim, com sucesso. Fiz batota, porque escolhi Fevereiro, tem menos dias. Mas é um mês na mesma, certo? E agora não me vou pôr aqui a escrever sobre os enormes benefícios desta decisão porque, sendo muito honesto, ainda não os conheço. Venho aqui escrever-vos o porquê.
Nós mudamos a nossa opinião e a forma de ver o mundo de uma forma gradual. Às mijinhas. Vamos recebendo informações, assimilando textos, testemunhos, refletindo, deixando as decisões apurarem até chegarem ao ponto de ação: a forma como temos agimos deixa de fazer sentido e sentimos que precisamos de uma mudança. Água mole em pedra dura. Já sabia que as redes sociais eram, por defeito, desenhadas para nos prender a atenção. Os sons, cores, notificações, anúncios e, acima de tudo, o feed da página principal das redes sociais foi criado para nos manter lá. A matemática é simples: quanto mais tempo nos cativaram, mais tempo estamos na plataforma a ser expostos ao algoritmo dos anúncios personalizados. Treinamos o algoritmo que nos treina a alimentar o algoritmo. Também já sabia que as redes, com o alcance mundial, conseguem manipular as opiniões. E não escrevo isto com um chapéu de alumínio na cabeça a recear que o 5G controle a minha mente. O escândalo bem documentado do Cambridge Analytica, o caso dos e-mails da Hilary Clinton, as desinformações e censuras na pandemia, a promoção de discursos de ódio e limpezas étnicas em Myanmar, promovidas por algoritmos. Parece distópico, mas são meros ciclos noticiosos; já não perduram na memória coletiva, ficaram lá para trás, na espuma dos dias. Pergunto-me como. Pergunto se será propositado. Pergunto de que maneira é que o meu scroll infinito, anestesiado e apático contribuiu para a minha própria alienação.
É demasiado confortável consumir conteúdos curtos. Os broligarcas sabem-no muito bem e capitalizam essa sabedoria. Também é perigoso, porque podemos tirar o contexto de certas afirmações. E passamos a julgar as pessoas por pequenas afirmações, cuidadosamente selecionadas para inflamar posições, para polarizar. Vamos perdendo a capacidade de ouvir a ideia bem explicada, com argumentos sólidos e decidir por nós se discordamos ou não. É importante ouvir os outros na sua totalidade, compreender a origem das suas ideias e procurar entendê-los como um todo. É a empatia a funcionar, mesmo que discordemos de tudo. Mais: só escutando é que abrimos a porta para o diálogo que talvez provoque uma reflexão no nosso interlocutor. Uma ideia precisa de tempo. De ser pensada, ponderada, perceber se está alinhada com os nossos valores e intenções. Para isto precisamos conhecer que valores e intenções são essas. E só ficando sossegados com as nossas ideias é que poderemos esperar compreender algumas coisas. Não é garantido, claro. Mas, tal como a lotaria, é preciso participar no processo para podermos sonhar com o resultado final.
Há um conforto enorme nos conteúdos curtos, acéfalos, que nos entretêm e evitam, a todo custo, aguçar-nos o sentido crítico. Sabe bem acordar e, ao invés de pensar no dia que se avizinha, ficar a vegetar na vida dos outros, nas opiniões dos outros, curtas e de fácil digestão. Torna-se mais fácil, até, formar opiniões com base nos discursos simplistas e resumidos, livres de contraditório. É só deixarmo-nos estar, sem pensar, e o tempo passa. Horas, dias, meses, anos. Trocamos a nossa atenção pelo usufruto gratuito destas plataformas. É certo que ficamos sem tempo para outras coisas. Quando damos por nós, pensamos aquilo que os outros querem que pensemos. Quem são os outros? A amálgama humana que compõe as redes sociais e dita as tendências conversacionais num belíssimo acaso fortuito? Talvez. Ou serão os responsáveis pelas redes cuja plataforma lhes permite vender não só anúncios, mas também opiniões que mais tarde se podem traduzir em percepções que no futuro se transformam em simpatias e votos? Talvez.
Comecei a sentir-me refém do meu smartphone. As centenas de vezes que desbloqueio o ecrã, só para ver o que há de novo. A sensação de urgência com o som de uma notificação - o pico de dopamina reforçado pela antecipação. O tempo perdido a ver publicações ou vídeos curtos que prometem uma profundidade que nunca chega. O espreitar para a vida dos outros que deixou de ser devassa e passou a ser expectável. Perdemos o direito à privacidade porque abdicamos dela voluntariamente. Passamos a comparar as nossas vidas com as dos outros e a querer mostrar o que de bom nos aconteceu: a praia, aquele prato num restaurante, o museu, o livro, a saída à noite, a viagem de sonho, o passeio. Invejamos e criamos inveja. Talvez por isso seja tão fácil encontrar ódio nas redes: a crítica rápida, o julgamento sumário, o cancelamento. Com todos estes ingredientes preparamos a massa de um bolo de polarizações e intolerâncias. Depois é só levar ao forno do medo e da ignorância e temos o festim a que temos assistido nos últimos anos.
Quis, então, deixar de fazer parte desta engrenagem. Deixar de publicar e de ver as outras publicações. No fundo, não quero saber o que as outras pessoas estão a fazer através de uma aplicação. Não quero viver a ilusão de estar conectado a quem mais gosto através de uma assistência passiva num ecrã. Quero telefonar, enviar mensagens, combinar cafés, jantares, almoços, cinemas, fins de tarde, concertos, passeios. A dada altura trocamos a necessidade de pertença e conexão física por uma plataforma virtual; estamos mais recolhidos nos nossos núcleos, vivemos mais dentro das nossas rotinas e torna-se difícil ter abertura para o mundo exterior. Mas há uma razão ainda maior para este meu afastamento das redes sociais e mudança na forma como interajo no mundo: os meus filhos.
Ser pai permitiu-me questionar todas as minhas crenças. Não foi um processo imediato: não aconteceu na primeira vez que olhei o meu filho mais velho e percebi que me tinha tornado responsável por outra vida. Não foi também nas primeiras semanas. É um processo que, passados sete anos, ainda se dá todos os dias. Vou questionando, duvidando e tentando perceber de que forma posso melhor acolher o que os meus filhos são. E tento ser o exemplo, como já aqui escrevi muitas vezes. Fui tentando largar vícios que não queria normalizar na vida deles; hábitos de merda como o tabaco, ou roer as unhas. Mudei a minha alimentação, a minha relação com o alcoól. Porque sentia que certos padrões de quem eu era no dia a dia não serviam as minhas intenções como pai. Ou que estava a perpetuar traumas geracionais. E não aquilo que queria proporcionar aos meus filhos. Voltei, então, a questionar se estar agarrado a um ecrã grande parte do tempo que estou em casa estava alinhado com as minhas intenções. Não está: sou um grande crítico do tempo de ecrã nas crianças. Acredito que o desenvolvimento infantil deve fazer-se o máximo de tempo fora de ecrãs, em brincadeira, a subir árvores ao ar livre. Se assim é, tenho que ser o exemplo que quero que eles sigam para que não se normalize o recorrer constante ao telemóvel. Acredito que estas últimas linhas deixem desconfortáveis muitos pais que vêm aqui o seu reflexo. Não estou a julgar ninguém; eu próprio vivi demasiado tempo com o ecrã à minha frente em vez de estar e ser com os meus filhos. Estive a brincar com eles a meio gás, entre olhando a página inicial de uma qualquer aplicação a consumir passivamente a vida dos outros ao invés de viver a minha a acontecer naquele preciso momento.
Estar presente é mais do que a nossa forma física. É preciso dar atenção ao momento, de forma consciente. Sinto que estamos a ser empurrados para uma vida em versão light onde nunca vivemos verdadeiramente os momentos e estamos sempre ocupados a pensar no futuro, nos outros, no passado. Estamos a formular uma forma de organização da sociedade onde o individualismo exacerbado vai minando a nossa existência e tornando-nos modelo perfeitos de consumo acrítico. Somos as galinhas dos ovos de ouro do mercados do futuro e trancamo-nos no galinheiro voluntariamente. E estou farto de sentir que existimos aquém daquilo que somos verdadeiramente e de o testemunhar através de um retângulo luminoso. Por isso apaguei as aplicações de redes sociais, sinto que não me vão fazer falta. Também me livrei dos jogos. Se estiver aborrecido, tenho bom remédio: deixo-me estar a olhar para a morte da bezerra ou vou ler. Sinto que qualquer um dos dois será mais saudável.
Abraço-vos,
João
Tenho gostado muito de ler o Davide Pinheiro do Mesa de Mistura. Escreve maioritariamente sobre música e a indústria musical; pontualmente, discorre sobre outros temas, igualmente interessantes. Há algo de honesto na escrita do Davide, seja sobre música, sobre redes sociais, sobre monstros da indústria cuja fealdade é inenarrável. É despretensioso e escreve somente o necessário: deixa os chouriços para as indústrias competentes e ficamos só com a melhor das destilações. Partilho convosco um texto que ele escreveu sobre a mesma temática da minha crónica de hoje: as redes sociais. Quando o li, já tinha algumas ideias e palavras sobre o assunto em lume brando e fiquei ainda mais galvanizado com o texto dele, que ia muito ao encontro do que tenho sentido.
Terminei, finalmente, o Babel: or the necessity of violence da R.F. Kuang. Há muito tempo que não ficava sem fôlego a ler um livro. Numa Oxford da era Vitoriana e mágica, onde a linguagem e tradução assumem um papel místico, dei por mim siderado com a narrativa. Fui confrontado com o privilégio branco e colonialista, com a exploração e usurpação de recursos do colonialismo e como os opressores criam sistemas que perpetuam o seu poder. Estas questões são evidenciadas à medida que acompanhamos Robin Swift, um rapaz chinês que é trazido em criança para Londres e fica sob a tutela de um Professor inglês que o treina para entrar no Royal Institute of Translation. Não quero estragar nenhum pedaço da história pelo que vou ficar por aqui e recomendar, muito, este livro. Se ficaram curiosos com esta autora recomendo a entrevista feita pela Raquel Dias da Silva na Timeout
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Muito boas as tuas reflexões, como sempre, João. Detesto visceralmente redes sociais e só lá escolho permanecer para estar ligado a pessoas que, têm, como eu, a ambição de mudar o mundo.
Do ponto de vista Budista, é óbvio aquilo que dizes, que estamos a ser reduzidos a cartoons para nos entretermos uns aos outros, e para vender anúncios (e os nossos dados), para benefício de pessoas de moralidade duvidosa. É óbvio que ficamos sem profundidade, sem capacidade de entender o outro ou, ainda mais basilarmente, a nós mesmos.
Tal como sinto relativamente ao capitalismo, acho que os efeitos das redes sociais seriam muito minimizados se ensinassem melhor às pessoas a terem uma análise critica da informação que recebem, se "guardassem as portas dos sentidos" como recomenda o Budismo. Por exemplo na Finlândia a "literacia dos media" faz parte integrante do currículo da escola primária.
Um abraço!
Muito obrigado João! Fico muito contente que reconheças honestidade na minha escrita. O teu artigo é excelente. Podia ser uma sebenta sobre as ilusōes de óptica e o efeito nocivo sobre a plasticidade mental. Quanto mais viciados em estímulos imediatos estamos, mais acéfalos ficamos. Revejo-me completamente no teu relato.