Desentoxicação Digital
"A melhor maneira de evitar que um prisioneiro escape é garantir que ele nunca saiba que está na prisão" - Fiodor Dostoievksi
Olá,
Para começar, alguns recados e arrumação da casa. Esta será a última crónica antes das férias. Tomei a decisão de não escrever durante o mês de Agosto: quero estar verdadeiramente de férias e, depois de quarenta e sete crónicas consecutivas, sinto que o mereço. Mas este canto digital não ficará ao deus-dará. Tenho o privilégio de conhecer pessoas que também gostam de escrever. Cravei a quatro almas caridosas o obséquio de escreverem uma crónica para ocupar as semanas que planeio não andar por aqui. As crónicas vão ser agendadas e sairão no dia e hora do costume. Eu gostei muito de as ler, e não tenho palavras para expressar a minha gratidão a todos os que aceitaram, prontamente e de bom grado, segurar o barco. Espero que também gostem e, como sempre, obrigado por despenderem do vosso tempo para me ir lendo.
Não me lembro da última vez que estive livre de ecrãs. Nesta era digital e informatizada, o meu tempo é repartido entre ecrãs de computadores no trabalho, no smartphone da empresa, no pessoal, no portátil onde escrevo estas crónicas. Também na televisão lá de casa, ou na do elevador do prédio onde trabalho, na do café da esquina. Nos MUPIS digitais - ecrãs gigantes que encontramos na rua, estações de comboio, de metro. A minha atenção, esse recurso tão precioso e cobiçado, saltita entre aplicações de email, software de edição de som, de restauração de áudio, conversão de ficheiros, WhatsApp, Youtube, Instagram, Reddit, Goodreads, sites de notícias, publicações no Substack. Tudo somado, passo horas a olhar para ecrãs, por obrigação laboral, comunicação, dependência dos picos de dopamina de algumas aplicações, lazer e consumo de conteúdos, séries e filmes. Nos últimos anos, e desde que vi o documentário The Social Dilemma e li a Era do Capitalismo de Vigilância, tenho tido maior consciência na forma como lido com as redes sociais e a minha presença online. Percebi que há muito que deixámos de ser utilizadores para nos transformar, não em produtos como gostamos de dizer, mas em fontes de extração de dados. Senti uma necessidade grande de exercer o meu direito à minha auto-determinação. Passei a usar somente o Instagram e o Reddit, ambos com temporizadores de 15 minutos diários. Tirando as mensagens e lembretes do calendário, desliguei todas as notificações. Tento fazer uma curadoria ponderada do tipo de conteúdos que consumo nas plataformas de streaming - nós somos aquilo que consumimos. Forcei-me - e é mesmo essa a palavra - a ler mais, ao invés de vegetar em frente à televisão ou a fazer doom scroll. Na maior parte dos dias tento não ver televisão à noite, de modo a apenas ler e, dessa forma, contribuir para uma rotina noturna propensa a um sono mais descansado. Noutros, não cumpro nada disto. Desligo os temporizadores porque me sabe bem a anestesia das redes sociais, ou não leio porque estou demasiado cansado e fico a ver mais um episódio do Dr. House na esperança de chegar ao fim da empreitada de oito temporadas - que já leva alguns meses. Tenho plena consciência de que existe, propositadamente, um conjunto de sistemas que foram desenhados para me cativarem a atenção. E tenho, cada vez mais, noção do verdadeiro impacto - e custo - que a capitalização dessa atenção tem na minha vida. O tempo que passo a olhar para um ecrã é tempo que não estou a fazer outra coisa. Escolho - quando estamos conscientes é sempre uma escolha - exercer o meu livre arbítrio sobre onde quero colocar a minha atenção. É um jogo de soma zero, para que fique claro. Todos os dias tenho cerca de dezasseis horas acordado; durante a semana trabalho oito, de modo a poder ter um salário no final do mês e ser o garante da subsistência da minha família. As restantes reparto pela família, transportes, responsabilidades domésticas e parentais, alimentação, consumo de conteúdos e tempos de lazer.
Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre este tema. Que convido quem me lê a consultar o tempo de ecrã dos seus smartphones e perceber como estão a despender a vossa atenção nos dispositivos e a serem conscientes do tempo que passam noutros ecrãs. Desta vez, partilho convosco a minha decisão em passar o mês de Agosto com o mínimo de tempo de ecrã possível. Quero fazer um desmame digital; nunca o fiz e confesso que tenho curiosidade - e alguma ansiedade - em saber se o vou conseguir fazer. Quero reduzir o meu smartphone apenas à função de chamadas e mensagens - o modo Ultra Power Save Mode do meu Android é perfeito para isto. Quero não ver televisão durante um mês. Nada de streaming e Youtube. Quero apenas ler, estar e pensar. Claro que vou ressacar dos picos de dopamina e sofrer de FOMO e isso é assustador. Vou aproveitar para realinhar as minhas intenções com esta publicação semanal e perceber qual vai ser o caminho para o próximo ano. As mudanças de ares dão-me alento criativo; espero que me venham coisas boas à cabeça e vontade de as por em prática. Afinal, em Setembro, esta crónica semanal fará o seu primeiro aniversário e há que celebrar com pompa e circunstância.
Fico apreensivo com o futuro que se adivinha para os meus filhos, com as constantes exigências socioculturais para que tenham smartphones o quanto antes, para que estejam nas redes e fiquem presos na teia que lhes vai emaranhando a atenção. Temos sido avisados. Há cada vez mais informação baseada em estudos. Constatamos as consequências, as mudanças de paradigmas. Não quero ser o arauto da desgraça nem o velho do Restelo do século XXI. Percebo, e aceito, que as tecnologias são parte do tecido da nossa sociedade e é importante sabermos utilizar as ferramentas da nossa época. É importante perceber como estamos a evoluir tecnologicamente e ter acesso à informação. Mas, como tudo, é preciso saber como filtrar essa informação, como regrar a nossa presença online e como salvaguardar a nossa integridade física, emocional e psicológica. Se os sistemas são criados para nos prender a atenção por defeito, temos de ser nós a criar os mecanismos para nos proteger - não é do interesse das corporações que capitalizam o nosso consumo online reduzir o tempo que perdemos nas suas aplicações. Como sempre, quero ser o exemplo para os meus filhos. Tento ter cuidado com o tempo de ecrã e criar rotinas de consumo mediático o mais saudável possível. Tenho mesmo receio das consequências na maturação intelectual deles e acho que, como cuidador, tenho a responsabilidade de mediar o consumo. Criar estrutura e valores por detrás de cada minuto passado atrás de um ecrã sem castrar, limitar ou isolar nenhum dos miúdos. São ténues estas linhas. Por isso, quero entrar em Agosto com a intenção de fazer um desmame digital e reduzir drasticamente o número de horas que passo em frente a ecrãs. Para fazer um reset e perceber como me sinto. Quero ler mais e quero estar, simplesmente. É assustador pensar em não fazer nada e quebrar o padrão estímulo/resposta. Há sempre algo para ver, ouvir ou consultar. Já dei por mim a pensar que esta dependência é um espécie de prisão. Estarei confinado a um número mínimo de horas semanais como requisito profissional, mas de resto quero quebrar essas amarras e tentar ser mais livre. Estou convicto que me fará bem, a muitos níveis. Volto em Setembro e contar-vos-ei se consegui estar alinhado com esta minha intenção e como correu a experiência. Ficam em boas mãos até lá.
Boas férias,
João
PARTILHAS PARA FÉRIAS
Existe mesmo um problema na forma como retratamos a maternidade nos nossos media. É o mesmo problema que perpetua visões da masculinidade obsoletas e bastante nocivas para os homens. Continuamos a louvar a “conciliação” da carreira profissional com o cuidado dos nossos filhos como se fosse um feito imenso. Não é. A maior parte das mulheres que consegue investir numa carreira ao mesmo tempo que é mãe é porque tem uma excelente rede de apoio ou posição sócio-económica que permita a contratação de ajuda. Sacrifica, como é óbvio, tempo com os seus filhos e muitos aspetos da maternidade ficam postos de lado: a amamentação, a vinculação, o apego. Somamos a isto a enorme discrepância e disparidade de género da distribuição do cuidado. Os homens continuam a fazer muito pouco e continuam a ser socializados para manter este status quo. O exercício da masculinidade na nossa sociedade produz homens ineptos no cuidado e esse cuidado continua a sobrar para as mulheres. Deixo-vos um texto maravilhoso da Kerala Taylor que fala sobre isto mesmo e que funciona como chamada de atenção para a necessidade, urgente, de repartirmos a carga mental, doméstica e emocional com filhos.
Já aqui partilhei um texto do Jonathan Haidt no The Atlantic. Hoje deixo-vos um episódio dele com o Huberman. Tenho uma preocupação genuína com o meu tempo de ecrã e respetivas consequências. Mais ainda com o dos meus filhos. Vem mesmo a propósito da crónica de hoje: é bastante elucidativo da problemática da exposição precoce e em demasia a ecrãs no desenvolvimento cognitivo e social das crianças.
Na lista de recomendações bibliográficas no final do Educar Com Mindfulness da Mia, saltou-me à vista um livro em particular, por já conhecer um dos autores, o Jon Kabat-Zinn. Foi dos primeiros autores que li sobre meditação e mindfulness e fiquei logo muito interessado quando percebi que ele tinha escrito, em conjunto com a esposa Myla Kabat-Zinn, um livro sobre parentalidade com base em mindfulness. É um livro que pode ser lido em momentos diferentes, ao longo de algum tempo. São as visões - e reflexões - destes pais numa abordagem consciente ao processo afetivo e educativo dos seus filhos. Pais Conscientes, Filhos Felizes é um livro que me impactou pela simplicidade das ferramentas que podemos utilizar para termos relações mais profundas e presentes com os nossos filhos.


Boas férias, abraço !