Defender o sonho.
Um sonho lindo que acabou.
Olá,
Esta crónica sai no dia da liberdade. Teve um primeiro rascunho, mais sério, mais soturno. Talvez, até, mais político, por contágio com conversas e desconstruções com o Davide Pinheiro e a Raquel. Reescrevi-a. Acho que manteve alguma seriedade. E poderemos escrever sem ser políticos? Lá por casa, ouvíamos há dias a música “Eu Vim de Longe”, do José Mário Branco. Dei por mim a pensar que a música, nos dias que correm, faz ainda mais sentido. Viemos de tão longe e o que andámos para aqui chegar. Abril é pouco mais que um sonho lindo que acabou. A Sofia emociona-se; sente a ameaça que paira no ar. Eu também sinto o cheiro a outros tempos mais escuros e menos livres. Os tempos que correm são distópicos, sentimo-nos impotentes perante os elefantes na loja de louças.
À medida que os anos vão passando e o ano da revolução fica mais distante, temo que nos esqueçamos do que significou para um país amordaçado. Quem o sofreu na pele começa a não estar cá. Vão morrendo os combatentes antifascistas e ficam os seus testemunhos para gerações que, temo, não os vão ler. Parte da história morre com os seus protagonistas. Hoje, invocamos levianamente palavras carregadas de passado: fascismo, ditadura, liberdade. Falta-nos a mais importante: nunca mais. Cresci a ouvir falar em cumprir Abril. As gerações que me precedem falavam muito dos valores e das conquistas de Abril. E que ainda faltava trilhar muito caminho. Sinto que é cada vez mais difícil falar de Abril. O panorama é terrível: há uma desolação generalizada, um afastamento cada vez maior da política. Criámos um fosso entre os partidos políticos e os concidadãos. Dessa ravina, escura e sombria, brotam as intolerâncias, as desigualdades e os sentimentos exacerbados de individualismo e nacionalismo. Rio-me, nervoso: que sentido pode fazer o apelo ao nacionalismo, num mundo globalizado? Como podem as fronteiras exercer o enorme poder que exercem? Tenho ouvido dizer que o problema são os partidos políticos. Que as esquerdas não se souberam adaptar às conjunturas atuais, que o arco governativo está imiscuído com os interesses financeiros e as direitas extremadas cavalgam o populismo semeando mentira, discórdia e medo. Continuo rindo, para não chorar.
Tenho à minha frente, num comboio intercidades, o meu filho mais velho. Lê alheio ao enorme privilégio de que dispõe. Olho para ele e penso: ele vai crescer com menos direitos políticos do que eu. Vai viver num mundo onde a extrema-direita, que há duas décadas era marginal, ocupa agora lugar em vários parlamentos da Europa. Nalguns casos, pequenas maiorias. Olho para ele e relembro a subida ao poder dos Nazis: democraticamente eleitos, a colher os frutos da instabilidade, do populismo e a unir o seu povo em prol do tal nacionalismo. Da suposta superioridade da raça alemã, predestinada a conquistar e a comandar o mundo num reich de mil anos. Aperta-se-me a garganta. Nós acreditamos em histórias e é dessa forma que concebemos o mundo. Estou a ler um livro da BCF, “Eu sou uma rapariga sem história” de Alice Zeniter, recomendado pela senhora da Flâneur (perdoa-me não te ter perguntado o nome). A autora fala precisamente disto: que contamos histórias e criamos narrativas de factos (ou mentiras) para formular o real. Eu cresci a acreditar nos valores intocáveis da liberdade e da constituição portuguesa: direito à liberdade religiosa, de pensamento, de autonomia, de associação. Direito universal à saúde, educação e habitação. Tomei por garantidas todas estas coisas durante décadas. Estavam consagradas na nossa constituição, havia uma diretiva constitucional, ética e moral que impeliu os sucessivos governos do pós-25 de Abril a respeitar, proteger e fazer cumprir todos estes imperativos. Os meus filhos vão crescer a saber que há uma intenção velada em privatizar todos os direitos. Sob a capa da insustentabilidade, dos custos, da ineficácia consequente, da desvalorização dos profissionais. Nunca debatendo a distribuição de riqueza, a promiscuidade entre o setor público e privado, a pequena e grande corrupção, a falta de ética e respeito pela coisa pública. Pela causa pública. Na saúde, educação e habitação vão perder a batalha contra o lucro, a financeirização destes pilares da democracia portuguesa.
As estatísticas dizem-nos que o capitalismo tirou mais pessoas da miséria que outro sistema sócio-económico. Percebo, geramos mais riqueza, criamos mais consumidores. A pobreza dos impérios e dos feudos é incomparável com a atual. As liberdades também. Não obstante, a minha geração vive pior que a dos meus pais. Ganhamos menos, as coisas custam mais. Temos menos poder de compra: ter uma casa própria é um sonho longínquo, os filhos são custos quase insuportáveis. É possível e sustentável a humanidade aspirar a todas estas coisas? Vivemos na era da pós-escassez, produzimos o suficiente para a humanidade e, mesmo assim, com as regras dos mercados, conseguimos uma desigualdade sem precedentes. A geração dos meus filhos também deverá ter menos poder de compra. E menos liberdade. E certamente verá destruídos os seus direitos universais em relação à saúde, educação e habitação. É a crise, certo? Outra vez?
O que podemos fazer de diferente? Esta forma de organização sócio-económica é de facto o fim da história? Existem alternativas? Quais? De que forma poderemos pensar em redes de cooperação mútuas dando azo à liberdade individual? De que forma podemos pensar a propriedade privada num mundo cuja população crescente evidencia a finitude dos recursos? Não tenho respostas para nenhuma destas perguntas. Aliás, qualquer uma destas perguntas levanta mais questões. Gostamos do imediatismo; das soluções políticas rápidas, também. Mas chegámos onde estamos através de um processo de décadas: a sociedade de consumo ultra-capitalista e individualista onde vivemos não foi criada de um dia para o outro. Fomos cedendo, aos poucos, o nosso conforto e comodismo em detrimento de uma verdadeira escolha na ordem social. Mas divago, quase a pisar a fronteira do chapéu de alumínio. Até porque acho que mais importante que estes exercícios filosóficos, sobre estruturas políticas que existem apenas no imaginário sem previsão real das suas consequências, é pensarmos o que podemos fazer no dia-a-dia, dentro das nossas famílias e comunidades. Podemos cooperar junto com outras famílias e amigos. A solidariedade ensina pelo exemplo. O respeito e o civismo também. A forma como nos relacionamos com os outros também é um exercício político. Mas não é suficiente, diria eu. Precisamos de organização efetiva para exponenciar o nosso raio de ação. São muitas as conversas que tenho com a minha bolha de amigos e familiares, onde tenho inúmeros valores partilhados, em que acabo por perceber que somos peritos em apontar o dedo mas não fazemos nada de concreto. Não nos filiamos politicamente, não intervimos junto das comunidades onde estamos inseridos, não nos organizamos espontaneamente para alertar ou reivindicar direitos. Não criamos cantinas solidárias para pessoas e famílias em dificuldade. Nem prestamos serviços que para nós são simples, mas que para outros podem ser um bicho de sete cabeças: fazer o IRS, oficinas de literacia financeira básica, de sensibilização para os perigos da exposição precoce aos ecrãs e conteúdos na Internet, de negociação e renegociação de todos os tipos de créditos. Podemos fazer tudo isto e muito mais, mas não o fazemos por escolha. Sim, a nossa passividade é uma escolha; escolhemos o conforto do sofá e de um serviço de streaming. Escolhemos não pensar nos outros e focar apenas no nosso núcleo. Escolhemos viver a vida numa rotina que nos é imposta e que serve o interesse de quem a impõe. Responsabilizamos os partidos políticos: são o bode expiatório para todos os nossos problemas. Mas que concertações fazemos para resolver os nossos problemas locais? Quais as nossas ações em prol dos nossos vizinhos? A nível autárquico? A nível familiar, por vezes? Onde estão as redes de apoio que são, no meu ver, o cerne da existência humana e que nos permitiu sobreviver e crescer para sermos a civilização que somos hoje? Escrevo estas palavras e pertenço ao mesmo grupo a quem aponto o dedo.
Abril precisa de ser defendido, mesmo tendo sido um sonho que acabou e que se está a tornar gradualmente num pesadelo. Inegavelmente, vivemos melhor agora do que em ditadura. Passamos menos fome, temos melhor saúde, educação e habitação. Mas esta melhoria é relativa. Estamos longe de ter todos os nossos concidadãos com direitos iguais porque nada disso chega de forma igual a todos. Não estando muito convicto, quero acreditar que é possível vivermos numa sociedade democrática, mas mais justa e igualitária. Não na visão marxista-leninista ou outra qualquer que manifestamente descambe em autoritarismo de estado. Não na visão neo-liberal e anarco-capitalista que acaba sempre numa espécie de oeste selvagem financeiro. O meu problema é não saber como. Não tenho a formação para sequer tentar uma teoria. Daí compartimentar a questão: exemplo pessoal, ação local e defesa dos pilares de Abril, exigindo que se mantenham como foram escritos na Constituição. Criar formas de os melhorar e tornar sustentáveis, longe da falácia do despesismo e da gestão pública ser insuficiente. Podemos e devemos criar mecanismos que garantam o bom funcionamento das instituições. É este o meu sonho e sonhar ainda é de borla. Quero ver se no próximo 25 de Abril escrevo mais sobre o que fiz e menos sobre o que deveria fazer.
25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.
João
Não costumo recomendar livros sem os ler. Mas sabendo que se trata de uma compilação de entrevistas para imprensa do José Mário Branco, e que pelo menos uma delas é do Davide Pinheiro de quem já aqui falei, parece-me uma aquisição obrigatória para fãs do cantautor. Podem saber mais aqui.
Continuando na senda literária, li finalmente “O Alquimista” do Paulo Coelho. Andei a fugir à leitura durante muitos anos, com o preconceito de um certo esoterismo barato e fácil que achava que ia encontrar. Lamentavelmente, e é apenas a minha opinião, confirmaram-se as minhas suspeitas. É um livro simples, uma parábola, que conta a história de um jovem que vai atrás do sonho. Ensina-nos os chavões de que o caminho e a procura são tão importantes como a chegada e o encontro. Que as provações existem e que devemos coexistir com elas. É um dos livros que o Tim Ferriss recomenda e, sendo eu fã de muitas das suas recomendações, resolvi dar a abébia. Não é, certamente, o meu estilo, mas não é um livro péssimo. Lê-se, como se comem aquelas bolachas de arroz sem sal: não sabem a nada, mas até são saudáveis
Estive no Porto na semana passada e fui ver o filme da portuguesa Laura Carreira, “On Falling”. Vi-o no Cinema Trindade e não consigo colocar em palavras as saudades que tinha de estar num cinema antigo, clássico, sem o folclore dos centros comerciais. Foi um filme me que custou a ver, é duro, e sente-se ali uma realidade desconfortável. Que existe e é demasiado distante da vista. Fala sobre solidão, sobre a necessidade humana de coexistir. Ensina-nos que não fomos feito para estar isolados. Recomendo, muito.
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Que bom haver uma ação prática nessa comunidade. Fazem-nos tanta falta. Que bom exemplo, João. Agradeço-te o serviço ao universo que fazes. Um abraço
Também não conheço uma ideologia total para resolver os problemas do país num ápice, mas quem diz conhecer está a trilhar o caminho da mentira. Por agora, tectos às rendas, taxar os superricos é um caminho curto e eficaz para acabar com o maior problema que identificas: a desigualdade nunca antes vista no planeta. Se não conheces ouve o Garyeconomics ;)