Cultura de Honra
Ou: os senhores doutores no Portugal dos pequeninos.
Olá,
Deparei-me com um artigo de opinião muito interessante de um expat sobre Portugal. Na sua análise do laissez-faire lusitano, ele levanta questões interessantíssimas e que eu acho que descrevem a experiência da Portugalidade na perfeição. Foi numa nota da Rita Dantas – cujos textos e partilhas nunca desiludem – e tenho que admitir que há um retrato muito bem tirado ao nosso povo, sustentado em teorias de filósofos e pensadores aqui do burgo. Confesso que fiquei com uma enorme vontade de ler o “Labirinto da Saudade” do Eduardo Lourenço, bem como o ensaio do Nuno Garoupa sobre a passividade portuguesa.
Cresci dentro da cultura de honra mediterrânea que o Tobi Hughes tão bem descreve. O valor da pessoa depende da reputação pública, onde admitir o erro equivale a destruir a própria honra, o que incentiva silêncio, desculpas indiretas e grandes esforços para evitar vergonha pública. Os meus pais foram autênticos atores culturais disto: não reconheciam – e muito menos assumiam – os seus erros, de modo a manter imaculada a sua aura de figura de autoridade, onde conversas com reparações não existiram e o silêncio varreu para debaixo do tapete quantidades enormes de trauma geracional e, passe o vernáculo, atitudes de merda. Sendo que nunca errar é uma impossibilidade matemática, este comportamento gera nas suas vítimas o contrário do suposto objetivo. Em vez de um reconhecimento de uma autoridade válida e justificada, a incongruência comportamental cria desconfiança e ressentimento. O não reconhecimento do erro – e a devida reparação – cria uma profunda sensação de injustiça, incompreensão e consequente afastamento emocional. Não podemos criar laços sólidos com quem não podemos confiar. Mais, esta avidez em defender a putativa honra cria duas realidades paralelas: a do mundo factual, onde os comportamentos e palavras existem com as suas devidas consequências, e a ilusão que se tenta criar de uma reputação de idoneidade, infalível e dona da razão. Estes dois mundos não são compatíveis e é nessa fricção que a portugalidade se vai desenvolvendo.
Ri muito com a descrição de existir em Portugal uma high-context culture, onde nunca se assume o erro e se contorna a responsabilidade com lateralizações linguísticas. Em vez de “Errei”, criam-se desculpas com contextos, ambientes e tudo o que se possa usar como desresponsabilização. Há sempre um contexto para o erro, um enquadramento que iliba o responsável. Apontar o erro – verbalizar onde se errou e de que forma – é visto como um ataque humilhante à integridade. Um ataque à honra e à tal ilusão que é criada. O desconforto é tal que a reação típica de um português a isto é a de assumir uma postura defensiva e hostil. Muitas vezes há um tratamento de silêncio como resposta à perceção de um tratamento indigno. A cultura de culpa ser uma componente social – há uma preocupação na forma como os outros nos percepcionam – empurra-nos para uma incapacidade crónica de assumir que falhamos, que erramos e de aprender com estes processos. E, sabendo que todos erramos, torna-se difícil evoluir emocional e culturalmente.
Se no seio familiar isto é grave e perpetua padrões pouco saudáveis, no mercado de trabalho isto condena empresas a funcionar muito aquém do seu potencial humano e produtivo. Numa construção da realidade onde não existem erros nem falhas, não se abre espaço para corrigir. Estrangulam-se, assim, fluxos de trabalho e criam-se culturas de laxismo enormes. Podemos ver isto exacerbado na função pública, onde esta cultura estagna carreiras e progressões profissionais e deixa o normal funcionamento das instituições à mercê de não se perceber muito bem o quê. No privado, passa-se o mesmo, apenas sujeitando os elos mais fracos da cadeia a despedimentos e processos disciplinares em contextos profissionais. Soma-se a esta cultura de honra o peso da hierarquia profissional em Portugal. O país dos senhores doutores, onde títulos e posições são sobrevalorizados ao ponto de se criar uma aura de infalibilidade. Onde a autoridade percepcionada tem um peso maior que a autoridade de facto. Isto cria o ambiente perfeito para perpetuar más práticas e vícios, seja em relações pessoais ou profissionais. É preciso uma certa dose de humildade para se querer continuar a aprender. Se achamos que estamos num pedestal do conhecimento – ou seja, no monte da estupidez – aniquilamos a possibilidade de crescermos enquanto pessoas e profissionais. E isto, num país que entende o título académico ou honorífico como prova cabal de capacidade, é fatal. Estagnamos e ficamos ancorados a uma mão-cheia de pessoas que se acham a última Coca-Cola do deserto e que, na esmagadora maioria dos casos, não o é.
Precisamos de mais pessoas com a cultura anglo-saxónica do reconhecimento do erro a ter a coragem de enfrentar as consequências aqui em Portugal. O choque cultural talvez abra caminho a uma mudança. Até lá, haverão pessoas altamente prejudicadas com os nossos serviços, pessoas sufocadas pelo bioma das empresas nacionais e continuaremos aquém do nosso potencial humano. A equação é simples: se não reconhecemos o erro, não aprendemos com ele. O erro é algo que me é natural, mas também tenho os meus condicionamentos do caldo cultural onde cresci. Gosto que me apontem as falhas num tom construtivo, com espaço para reconhecer mas sem escarafunchar. Funciona muito bem relevar onde errei, sugerir uma possível correção e acolher o meu reconhecimento e compromisso em fazer de forma diferente. Agora, levar com a herança da culpa católica de ter que ser flagelado pela minha falha é outra história. Reajo muito mal à crítica negativa e que insiste em associar traços de quem sou à falha em questão. Aqueles reparos que confundem o erro com a pessoa, tão comuns na nossa sociedade. Errar não define a pessoa se ela reconhece e tenta aprender com o erro. Mas nós insistimos em colocar o ónus da culpabilidade, da vergonha, da humilhação, em quem erra – a tal cultura de honra. Às vezes quase parece que se exige que cometamos seppuku como no Japão medieval. Espero que possamos crescer para além disso.
Abraço-vos,
João
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Pá, o que ele diz tem um fundo de verdade? Sim, claro. Está estudado. A cultura portuguesa é daquelas em que há maior respeito à hierarquia e conflict avoidance em geral. Tenho para mim que a quantidade maciça de emigração sustentada seja um fator - são tranches populacionais de 10-20% que saem há séculos, deixando em Portugal as pessoas com maior aversão ao risco. Se não estiver já no nosso ADN, não faltará muito para isso. Somos, de certo modo, um verdadeiro caso de estudo.
Agora, imigrantes anglófonos enaltecerem as culturas deles como sendo muito certinhas, dados a confessar os próprios erros e respeitadores de processos?.. Bem, causa-me alguma comichão. Moro há mais de cinco anos na Inglaterra e o tipo de comportamento que ele aponta nos portugueses é, também aqui, o pão nosso de cada dia. Só posso falar da minha experiência, mas, nessa, são igualmente indiretos (talvez o Tobi seja americano, não sei) e dados a desculpas e contextualizações para não admitirem culpa. É preciso tanto paninho quente e salamaleque linguístico para comunicar um erro a um inglês sem o ofender/injuriar que a sensação que me dá é que, entre isso e os nossos jiga-jogas de contextualizações, vai dar ao mesmo - só que aqui, compete ao queixoso salvaguardar os sentimentos da pessoa que está em falta. E, diga-se de passagem, não estou a lidar com o nível de barreira linguística com que eles estarão ao lidar com empreiteiros.
No ângulo político, o caso do Elevador da Graça é absolutamente vergonhoso, como é este caso mais recente no Alentejo. Mas a atitude do Moedas não será, também, redolente do panorama político global na generalidade, muito influenciado pelo sucesso do atual residente da Casa Branca? Será imputável a esta qualidade retrógrada com que parece querer pintar a cultura portuguesa e estará mesmo completamente ausente da cultura de origem dele? Bem, não digo que a falta de classe e as mentiras do Moedas sejam um sucedâneo direto da cultura anglossaxónica na nossa (que, já agora, seria também sustentável ao nível linguístico, não fossem os anglicismos cada vez mais preponderantes no português), mas não deixa de ser em tudo idêntica à estratégia Trump/Cohn: Deny everything, admit nothing. E posso dar exemplos desta atitude também no quotidiano: ontem, literalmente ontem, uma inglesa roubou um vestido que a minha moça sem querer enviou para a nossa morada antiga. Quando tentámos recuperá-lo, a senhora simplesmente inventou uma desculpa. Talvez devesse escrever um artigo sobre a insularidade inglesa sustentado a provérbios caídos em desuso... mas não acho que deva descer ao nível de fazer generalizações simplistas com base em casos pontuais.
Há muito por onde a cultura portuguesa pode melhorar, sem dúvida, e essa melhoria depende da nossa capacidade de identificarmos onde erramos e tentar fazer melhor. Nisso estou em completo acordo com o Tobi, mas também acho que vale para todos. E que há aí à mistura uma grande pinga de saudosismo emigrante que deturpa a forma como ele vê a sua cultura de origem - à qual também não falta espaço por onde melhorar -, também me parece evidente. Enfim.