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Pá, o que ele diz tem um fundo de verdade? Sim, claro. Está estudado. A cultura portuguesa é daquelas em que há maior respeito à hierarquia e conflict avoidance em geral. Tenho para mim que a quantidade maciça de emigração sustentada seja um fator - são tranches populacionais de 10-20% que saem há séculos, deixando em Portugal as pessoas com maior aversão ao risco. Se não estiver já no nosso ADN, não faltará muito para isso. Somos, de certo modo, um verdadeiro caso de estudo.

Agora, imigrantes anglófonos enaltecerem as culturas deles como sendo muito certinhas, dados a confessar os próprios erros e respeitadores de processos?.. Bem, causa-me alguma comichão. Moro há mais de cinco anos na Inglaterra e o tipo de comportamento que ele aponta nos portugueses é, também aqui, o pão nosso de cada dia. Só posso falar da minha experiência, mas, nessa, são igualmente indiretos (talvez o Tobi seja americano, não sei) e dados a desculpas e contextualizações para não admitirem culpa. É preciso tanto paninho quente e salamaleque linguístico para comunicar um erro a um inglês sem o ofender/injuriar que a sensação que me dá é que, entre isso e os nossos jiga-jogas de contextualizações, vai dar ao mesmo - só que aqui, compete ao queixoso salvaguardar os sentimentos da pessoa que está em falta. E, diga-se de passagem, não estou a lidar com o nível de barreira linguística com que eles estarão ao lidar com empreiteiros.

No ângulo político, o caso do Elevador da Graça é absolutamente vergonhoso, como é este caso mais recente no Alentejo. Mas a atitude do Moedas não será, também, redolente do panorama político global na generalidade, muito influenciado pelo sucesso do atual residente da Casa Branca? Será imputável a esta qualidade retrógrada com que parece querer pintar a cultura portuguesa e estará mesmo completamente ausente da cultura de origem dele? Bem, não digo que a falta de classe e as mentiras do Moedas sejam um sucedâneo direto da cultura anglossaxónica na nossa (que, já agora, seria também sustentável ao nível linguístico, não fossem os anglicismos cada vez mais preponderantes no português), mas não deixa de ser em tudo idêntica à estratégia Trump/Cohn: Deny everything, admit nothing. E posso dar exemplos desta atitude também no quotidiano: ontem, literalmente ontem, uma inglesa roubou um vestido que a minha moça sem querer enviou para a nossa morada antiga. Quando tentámos recuperá-lo, a senhora simplesmente inventou uma desculpa. Talvez devesse escrever um artigo sobre a insularidade inglesa sustentado a provérbios caídos em desuso... mas não acho que deva descer ao nível de fazer generalizações simplistas com base em casos pontuais.

Há muito por onde a cultura portuguesa pode melhorar, sem dúvida, e essa melhoria depende da nossa capacidade de identificarmos onde erramos e tentar fazer melhor. Nisso estou em completo acordo com o Tobi, mas também acho que vale para todos. E que há aí à mistura uma grande pinga de saudosismo emigrante que deturpa a forma como ele vê a sua cultura de origem - à qual também não falta espaço por onde melhorar -, também me parece evidente. Enfim.

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