Consumos
Os amigos não deveriam ser secretos.
Olá,
Estamos a poucos dias de um dos feriados mais consumistas da sociedade ocidental. A celebração, roubada da Saturnália Greco-romana, foi cooptada para se assinalar o nascimento de Cristo e, hoje em dia, pouco é mais que um pretexto para olear a máquina de produção capitalista.
Enquanto criança, o Natal representava o tempo e espaço onde poderia receber presentes e comer doces típicos da época festiva. Nunca tive a consciência do valor da partilha em família, nem a vontade imensa de estar reunido à volta de uma mesa na celebração do amor. Juntamente com o meu aniversário, o Natal não era mais que um pretexto para poder pedir os brinquedos mais caros e requintados com os quais não podia sequer sonhar ao longo do ano. Claro que nada é incondicional: tinha que ter boas notas e bom comportamento (fosse lá isso o que fosse) para que isto, de facto, acontecesse. Mas fui abençoado com as avaliações do primeiro período ainda estarem longe no meu aniversário em Novembro e as do Natal não costumavam ser tão más como as do segundo e terceiro período.
Cresci e, claro, mudei. Saí da adolescência já com um certo entendimento sobre os padrões de consumo que o Natal representava e passei a dar uma maior relevância ao Natal e ao tempo com a família. Também tinha um grupo de amigos da minha rua que teimavam em se encontrar durante alguns anos na noite de consoada, para conviver em amena cavaqueira. Mas ficou-me um incómodo, uma pulga atrás da orelha: adquirir bens materiais para celebrar o amor sempre me soou a algo antitético. O amor não pode ser medido com o que nos é oferecido. Não é quantificável, nem tão pouco é uma mercadoria. Oferecer algo, uma lembrancinha, é o pináculo do sucesso do capitalismo: criar a necessidade e valor de uso apenas por um contexto festivo. São, então, necessidades falsas: ninguém precisa mesmo daquele bibelot, daquele perfume. O mais engraçado é que fomos socializados a gostar menos das meias e cuecas que determinados membros da família nos oferecem. Parece que tratamos estas oferendas como uma prenda menor quando, em verdade, talvez desgostemos porque se torna numa prenda que não é supérflua, tem um valor de uso e supre uma necessidade.
Compreendo o ritual em família e temos adequado as nossas práticas de consumo em família. Oferecemos coisas feitas por nós (bolachas, azeites temperados, chás) de modo a que o valor de uso represente um conforto e uma utilidade. Aos mais velhos, que são apreciadores, oferecemos uma garrafa de vinho. Outro tipo de valor de uso. Mas incomoda-me receber bugigangas sem esse valor de uso. A prenda só pela prenda. Aquelas lembranças, supostamente engraçadas, que visam apenas cumprir com o ritual de oferenda. Outra vez o sucesso do capitalismo. Comprar algo sem um real valor de uso para cumprir com um ritual. Haverá algo mais sinistro que isto? Se há um constrangimento económico, seguramente há imensas coisas de baixo valor que podem ser oferecidas para cumprir com o ritual. Coisas feitas por nós, por exemplo, ganham um significado muito maior e um valor de uso incomensurável. Ou um mimo gastronómico que não tenha ainda sido gentrificado a preços exorbitantes.
Como se não bastasse, temos ainda a praga do amigo secreto. Instauramos isto nas escolas e locais de trabalho sob o pretexto de trazer a magia do natal para fora do núcleo familiar e de amigos. Qual o propósito de prendas até um determinado valor só para cumprir com um ritual que é alimentado por uma máquina consumista? Há aqui uma alienação social ou até um fetichismo da mercadoria que nos cega para a evidência. Em que ponto determinamos que a oferta de um produto desprovido de significado simboliza e assinala uma época que se pretende que seja do Amor? Teremos chegado ao ponto onde normalizamos a mercantilização do Amor e das relações familiares e interpessoais?
Não sou contra prendas. Pelo contrário, adoro recebe-las. Acho que devemos oferecer itens a pessoas que realmente querem usufruir deles. Onde há um propósito que, per si, atribui o significado ao gesto de oferecer. Mas é algo pontual, pensado e refletido. Talvez até faça mais sentido oferecer prendas em conjunto de modo a satisfazer uma necessidade - ou até um desejo - de alguém. Não precisa de ser uma necessidade básica; pode ser um objeto de desejo que sabemos que faz sentido para aquela pessoa e que terá um valor de uso real. Devemos poder ter conversas honestas sobre isto. Ajudar-nos-ia a ter um melhor entendimento sobre o que achamos que necessitamos, o que desejamos. Desta forma poderemos formular as nossas intenções de consumo. Como queremos consumir, o que queremos consumir, o que faz sentido para nós em determinado momento. Este tipo de raciocínio tem sido posto de lado nas últimas décadas, substituído por um culto do consumo que nos quer impávidos e serenos, sem pensamento crítico, sem questionamento do status quo.
No fundo, talvez seja este o meu desejo de Natal para a humanidade como um todo: uma maior consciência do momento presente, de nós mesmos. Sinto que na azáfama do consumo rápido temos perdido esta capacidade de autorreflexão e análise. Todos beneficiaríamos de uma vivência mais presente e plena. Para que não vivamos na espuma dos dias cuja opinião é moldada por ciclos de consumo, seja do que for. Para que possamos ser mais congruentes e alinhar as nossas palavras e ações às nossas intenções.
Abraço-vos e desejo-vos boas festas,
João


Entendo o que dizes e concordo até certo ponto mas acredito que, com esforço, até uma prenda para um amigo secreto pode ser útil e dada com um certo afecto. Eu, pelo menos, esforço-me sempre nas trocas de presentes do trabalho, por exemplo. Acho que o significado do presente que se compra está por trás do tempo e do pensamento que se dispensou para aquele presente. Se há pessoas que compram uma coisa qualquer? Há, claro. Mas eu gosto de acreditar que quem recebe presentes meus percebe que investi tempo a pensar no que faria sentido, no que a pessoa ia gostar, no que a pessoa precisa e que não foi só entrar numa loja qualquer e gastar dinheiro.