Clubes de Futebol
Liberdades de escolha e liberdades de expressão.
Olá,
Estávamos à mesa a jantar. Tudo decorria dentro da normalidade: o mais novo ia mandando guinchos aflitos de que quem quer ser alimentado, principalmente com comida do pratos do pais enquanto come sofregamente. O mais velho ia conversando connosco ainda muito dentro da fase de “qual era a nossa comida preferida quando éramos mais novos?”. O tópico das nossas preferência tem sido rei lá em casa nas últimas semanas. De forma inesperada, pelo menos para mim, lançou o mote para o que viria a acontecer nos instantes seguintes:
Pai… Olha, eu ontem disse uma coisa à mãe mas que não disse a ti ainda.
Fiquei um pouco desconfortável e receoso que algo de grave se pudesse ter passado, mas o sorriso tranquilo da Sofia fez-me perceber que era algo importante, mas nada de preocupante. Pedi-lhe para me contar.
Olha… Eu acho que prefiro ser do Benfica
O A disse-me isto de uma forma receosa como quem esperava que eu me zangasse muito com a sua afirmação, ou com medo de ser uma causa profunda da minha tristeza. Tranquilizei-o e disse-lhe que ele pode ser do clube que ele quiser, que na nossa casa os pais não decidem os seus gostos. Que é livre de ser e gostar do que quiser, sem condições. Ele sorriu, super feliz e entusiasmado e até me cantou uma música de apoio ao Benfica.
Nunca liguei muito a futebol, apesar de já ter tido algumas fases da minha vida em que acompanhava a minha equipa de eleição, o Porto. Cheguei a ser proibido de ver jogos em casa por causa das minhas reações efusivas - e isto, não confirmo nem desminto, talvez possa ser um eufemismo. Nos últimos anos, lá em casa, acho que apenas se ligou a televisão para ver um par de jogos, todos da seleção. Frustrado e desiludido com o futebol nacional e todo o circo que o envolve, deixei de acompanhar, de querer seguir, de me interessar. Passei a dar prioridade a outras coisas e a utilizar o meu tempo para consumir outros conteúdos.
Eu sou adepto do Porto por uma razão. Sou neto, filho e sobrinho de Portistas ferrenhos, nascidos e criados no Porto, que iam às Antas ver os jogos. O meu avô, temeroso que a minha vivência em Lisboa me corrompesse, fez-me sócio do clube tinha eu apenas 2 meses de idade. Levou-me pela primeira vez ao estádio tinha eu pouco mais de dois anos. E mesmo assim, ao longo da minha infância, quis mudar várias vezes de clube. Ou por pirraça de familiares de clubes da capital, ou por pressão de colegas de escola. De tempos a tempos, pedia para ser de outro clube, para fugir ao desconforto que é ser ostracizado e gozado por ser de um clube diferente. Tenho, então, uma ideia do que o meu filho estaria a passar e quais as necessidades por detrás do pedido.
Há um tribalismo no futebol que trás reminiscências de um passado mais animalesco do ser humano. Não sendo eu nenhum especialista da matéria, este fenómeno parece-me ter sido mais do que estudado. A ritualização do acompanhamento dos jogos, equipas e consequentes narrativas parece-me ter vindo substituir o espaço vazio deixado pela religião. Há uma irracionalidade e violência que, confesso, só consigo associar a instintos primordiais de auto preservação que não fazem qualquer tipo de sentido no contexto futebolístico. Deixei de acompanhar o meu clube, e o futebol em geral, desiludido com o sistema que mercantilizou cada aspeto do desporto e com o constante incitamento à divisão e ao ódio. Fartei-me da corrupção a céu aberto.
Mas, quando o A me perguntou se podia ser do Benfica, e tendo eu respondido que ele é livre de gostar do que quiser, ter sorrido, ter incentivado e até procurado maneiras de eventualmente o levar a ver um jogo no estádio da Luz, houve algo em mim que ficou triste. Talvez por ter percebido que terminará aqui a linhagem de adeptos do Porto da sucursal de Lisboa da minha família; não sei bem definir. Racionalmente, parece-me parvo sentir isto. É só futebol, que ligo pouco ou quase nada. E o importante é o meu filho gostar do que quiser e ser feliz com isso. Porque terei eu sentido este desconforto e aperto no peito?
Serão resquícios do tribalismo a que pertenci em tempos? Estará a rivalidade clubística enraizada a este nível emocional? Serei eu uma vítima da uma formatação inconsciente?
Cada vez mais acho importante levantar questões, mais até do que procurar respostas. Em cada uma destas perguntas percebo, melhor, o ridículo que é sentir desconforto com esta situação. E recordo o bom que é ver uma das pessoas que mais amo sorrir com a liberdade de me poder perguntar se pode mudar de clube e perceber que, realmente, é livre de o fazer. Há já alguns anos que, depois de o deitarmos na cama, fazemos três perguntas:
Quem ajudaste hoje?
Qual foi o teu momento preferido do dia?
Qual foi o momento que menos gostaste?
Na noite em que ele me perguntou se podia ser do Benfica, ele pediu-me para introduzirmos mais uma pergunta.
Do que é que tiveste vergonha?
Eu sorri, acedi e fiz-lhe a pergunta (que se juntou ao rol de perguntas noturnas). Ele respondeu, prontamente, que tinha tido vergonha de perguntar-me se podia mudar de clube. Continuei a sorrir e disse-lhe que não havia nada que ele pudesse fazer que me fizesse gostar menos dele, nem nada que ele fizesse que me pudesse fazer gostar mais dele. Aprendi esta máxima com a Mia. E que bela aprendizagem.
Das coisas mais importantes que podemos almejar para os nossos filhos é que se sintam sempre acolhidos por nós. Independentemente das suas escolhas, gostos e preferências. Quero muito que os meus filhos possam ser quem quiserem, como quiserem e que possam conversar comigo sobre isso. Pouco me importa o clube, principalmente quando senti que criei o espaço para ele poder ser vulnerável e expressar um gosto diferente do meu. É necessária uma desconstrução da minha parte; tenho demasiados condicionalismos que me impelem a ser menos flexível. Mas soube-me bem ver o meu filho mais velho livre de poder fazer as suas escolhas e acolhido pelos pais.
Até para a semana,
João

