Ciclos
Olá,
Os ciclos acontecem. O sol nasce e põe-se todos os dias, teimando em fazer o seu percurso finito por milhares de milhões de anos. As estações sucedem-se; a humanidade tem vindo a tirar o tapete às temperaturas e chuvas e ventos, mas as proporções de luz mantêm-se iguais. Os equinócios marcam os ritmos circadianos, cumprem escrupulosamente os seus ciclos. Nuns, caminhamos para a escuridão, noutros para a luz. Há uma indiferença na astronomia que, da perspetiva do infinito, torna a nossa existência atómica.
Os ciclos acontecem. Dentro de nós – e à nossa volta – os ritmos repetem-se, renovam-se, transformam-se. Olho para o milagre da biologia que é a menstruação: a promessa de vida, a capacidade de reprodução do tecido genético do qual somos feitos. A própria existência humana advém de um ciclo que, como o sol, é finito. Acaba, sim, e transforma-se noutra coisa. Gostava de ser mulher para sentir o que é tudo isto; mas odiaria arcar com a pressão do patriarcado sobre o meu corpo, as minhas decisões, as minhas escolhas, os meus ciclos. Eu escrevo por ciclos. Como as luas, há alturas em que reflito mais a luz do sol e, depois, vou minguando. As palavras nunca me secam: sei que basta estar em silêncio para que me surja algo para escrever. Mas, apesar desta abundância da verborreia, sei que falta qualquer coisa. Nem sempre escrevo com o coração. Ou com o intelecto. Só gosto do que escrevo quando consigo fazê-lo com os dois: aí, sei que pensei sobre o que senti e escrevi com a verdade do momento em que cada palavra foi assente num texto.
Ando há umas semanas a escrevinhar uma curta-metragem. Tinha saudades de escrever para cinema e nasceu-me no peito uma ideia que senti que tinha que vir cá para fora. Ainda a ando a materializar; ainda não existe, de facto. Trouxe esta ideia a uma das sessões com o meu psicólogo, como desabafo. Foi interessante ver refletido que, talvez, a ideia que tenho seja um reflexo do turbilhão que habita em mim, nesta altura. Metaforicamente, fazia sentido. Nunca tinha pensado que a minha escrita de ficção pudesse ser uma projecção, na tradição jungiana, do que tenho dentro de mim. Foi um daqueles momentos de expansão de consciência e meta cognição dos meus próprios ciclos. Talvez por escrever com o coração – quando consigo – o intelecto arranje subterfúgios para narrar uma metáfora.
Escrever salvou-me a vida. De tempos a tempos, depende do ciclo da onda sinusoidal que me atravessa, preciso de pôr em palavras o que não entendo. Sou humano, temo o desconhecido e a escrita cria a familiaridade que preciso comigo mesmo. Senão escrever, sou um estranho numa terra estranha, à mercê das marés que me reviram as vísceras. Os ciclos acontecem. Nem sempre consigo escrever como quero. Às vezes fico aquém de mim mesmo, perdido, sem me compreender, e sangro um texto, um poema, tão poucochinho quanto eu naquele momento. Sou lua nova, sem luz, a existir, a escrever à tona da água e a aguardar por uma bóia ou barco ou mudança de maré. Ainda bem que os ciclos acontecem, para que consiga deixar de ser náufrago e permitir ser resgatado. A ilha de onde às vezes escrevo não permite a subsistência humana por muito tempo.
Os ciclos acontecem. Os comboios aproximam-se e abrandam com o chiar do metal a ser sopraníssimo. Os meus dedos vão digitando uns tantos caracteres batidos por minuto sem olhar às batidas por minuto, onde meia hora pode ser um minuto. Depois as carruagens afastam-se, carregadas de almas que, digo eu, deviam escrever mais do que escrevem. Eu fico a vê-los passar, a pensar e acabo por escrever. Se há coisa que desgosto é uma folha em branco. Têm sido muitos comboios, muitas palavras, muitos textos, graças aos deuses. Num banco de metal, frio na maior parte dos dias, assisti ao nascer de invernos e primaveras, verões e outonos e partes de mim. Outros pedaços de quem sou, abandonei-os – como folhas caducas, ou pele de cobra, que já não serve o seu propósito. Deixei de pensar em muita coisa aqui sentado. Pensei em tantas outras, abraçado por dias cinzentos, com nuvens a esconder esse sol que dizem ser para todos.
Pouco ou nada posso fazer: o tempo vai teimando em escorrer pelos dias que se sucedem. Mas já não tenho medo, acho. Não sinto mais vontade de correr atrás do prejuízo ou ânsia de mudar o que já lá foi. O dia nasce e é nele que devo habitar até ao crepúsculo, essa substância que encerra um ciclo e abre portas a outro. Nos entretantos, vou escrevendo, quando posso, como posso, nem que seja num banco de uma estação de comboio. Porque se há algo que os ciclos me ensinaram, é que o destino pouco importa: é no percurso que a vida acontece.
Abraço-vos,
João
Terminei esta semana “Os Despojados” da Ursula K. Le Guin. Apanhou-me na fase errada: não era o livro ideal para esta altura da vida. Mas, de certa forma, forcei-me a ler porque era o primeiro livro do clube de leitura do Luís Leite – O que Faz Falta e queria mesmo participar nas discussões. Por isso levei, de forma atípica, 36 dias a ler. Andei a intercalar com outro livros, artigos e newsletters, bem sei. Mas houve qualquer coisa que me fez abrandar: aquela magia que alguns livros exercem sobre nós, impossibilitando largar as páginas, não estava lá. Não tanto culpa do livro - que adorei e sinto que preciso de o reler novamente - mas do meu estado de espírito. Não era, também, o livro que eu estava à espera. Aprendi, de vez, que Le Guin escreve de forma densa e pesada e a construção de mundos, detalhada até à infinitésima parte, acaba por tornar um livro de ficção científica em bem mais que isso. Ainda o estou a digerir e quero muito debater todas as questões que o livro coloca. São muitas, sobre muitas coisas diferentes. Mas é um livro que recomendo, e muito. Muito mesmo. Pela pertinência da época em que vivemos - e, parece-me, que o livro tem sido pertinente desde a sua publicação em 1974.



«A ilha de onde às vezes escrevo não permite a subsistência humana por muito tempo.» Visito esta ilha de quando em quando, tem muito para explorar :)
Gostei muito do texto. Também escrevo por ciclos e não lido muito bem com as fases de lua nova, mas é bem verdade que outro ciclo sempre virá para nós resgatar da escuridão.