Carregamos passados, escolhemos futuros.
A importância de enfrentar a ancestralidade do trauma geracional.
Olá,
Há umas semanas recebi no Instagram um pedido de ajuda de uma mãe de duas crianças. Perguntou-me como poderia influenciar o marido para uma mudança comportamental: sentia-o emocionalmente desregulado, gritava muito e exercia violência psicológica com a criança mais velha. Esta mãe perguntava-me como poderia ajudar o seu companheiro a ver a parentalidade de outra forma e utilizar outras ferramentas. Queria que ele mudasse e saber como poderia ajudá-lo nesse sentido. Que o companheiro até tinha ido a algumas consultas com um psicólogo mas que chegara à conclusão que a terapia não era bem para ele. Fiquei com um nó na garganta; percebi que havia ali uma resistência grande daquela mãe em aceitar que só muda quem quer mudar.
Não sabia bem o que responder. Nestas alturas, apetece-me questionar as pessoas sobre o porquê de tolerarem certos e determinados abusos comportamentais; mas depois lembro-me que o ser humano consegue acostumar-se aos ambientes mais tóxicos e criar justificações mirabolantes para manter fé em algo que, simplesmente, não o merece. Eu que o diga, que sou naturalmente propenso a não agir, a não mudar e a tolerar coisas inimagináveis. Fervo em pouca em água mas foram precisos muitos escaldões para me fazer querer mudar. Por outro lado, a minha empatia faz-me olhar para os sonhos e ambições daquela mulher, que imaginou uma família, partilha, amor, colo, carinho e respeito por si mesma e pelos seus filhos. E vejo-a, esperançosa a querer ver uma mudança num homem que está, obviamente, a lidar com os seus fantasmas e as suas construções do que é viver; condicionado a agir da forma - e na medida - em que foi tratado.
Não sou terapeuta, não tenho formação em nenhum tipo de área que me permita ousar, sequer, guiar alguém através desta situação. Assumi, precisamente, isto e fui honesto. Expliquei que não tenho ferramentas para poder ajudar de forma eficiente, que acredito que a terapia com pessoas competentes é parte crucial do caminho a percorrer e, da minha experiência, não podemos forçar ninguém a mudar ou a iniciar processos de cura internos. Não se consegue ajudar quem não quer ser ajudado. No final, rematei que o máximo que podia fazer era partilhar a minha experiência e explicar os processos que me levaram a sair do piloto automático e refletir que tipo de pessoa (pai, companheiro, amigo, filho, etc) queria ser. Ressalvei, sempre, que não vi a luz, nem tive nenhum epifania que me permitiu atingir o nirvana. Ainda fico demasiadas vezes em piloto automático, ajo sem consciência e reproduzo padrões que me foram passados. Mas vou tendo consciência deles, tento assumir a responsabilidade dos meus atos e vou tentando ser uma versão melhor de mim.
Nós carregamos uma ancestralidade enorme de trauma e de dor, mas também de experiência. Temos alguns trunfos do saber partilhado e acumulado ao longo de gerações. As nossas famílias são portentos de crenças e valores bem enraizados que precisam de ser postos em causa. Temos, pois, que selecionar os elementos que melhor nos servem. Porque, de geração em geração, perpetuamos ciclos traumáticos, de violência, de sofrimento e carregamos as mazelas e tecido cicatrizado dos nossos antepassados. Porque a imaturidade emocional dos nossos pais, avós, bisavós e trisavós foi-nos passada. Herdámos, também, a sua capacidade de gestão emocional e interpessoal; a forma como nos relacionamos está umbilicalmente ligada à forma como vimos a nossa ascendência relacionar-se. Como percecionamos o dinheiro e os bens materiais, se olhamos de uma perspetiva de escassez ou abundância, tem que ver com a forma como a nossa família encarou e geriu os ativos. Em suma, o que nós somos é o reflexo das escolhas de quem nos antecedeu. Trazemos muita bagagem obsoleta, desadequada e que não nos serve de forma positiva. Mas nem tudo são desafios; herdámos, também, as lições e mecanismos que nos são úteis. Nas nossas linhagens alguém escolheu fazer de forma diferente determinada coisa e interrompeu um ciclo; a descendência começou, então, a fazer de outra forma. Neste quebrar de ciclos, nestas aprendizagens, fomos crescendo. Descobrindo que tipo de padrões nos servem melhor, que nos apoiam e são mais saudáveis mental, física e psicologicamente.
Vivemos numa sociedade doente, com pessoas doentes. Não é um fatalismo, nem um pessimismo. É o meu diagnóstico. Vejo as enfermidades como sintomas de sistemas imunitários débeis e de comportamentos que não são condutivos para estilos de vida saudáveis. Podemos, e devemos, enquanto indivíduos e membros plenos da sociedade, tentar fazer melhor. Diferente. Mas teimamos em considerar o nosso status quo como uma pseudonormalidade, com todas as consequências que isso acarreta. A maior parte dos nossos hábitos e formas de organização social não nos servem e perpetuam ciclos sociais e geracionais que são manifestamente nocivos para o ser humano. Voltamos à tolerância que conseguimos ter em situações que não nos fazem bem; preferimos sempre o desconforto do que conhecemos do que enfrentar o medo do desconhecido.
Quando olho para os meus filhos, vejo neles a possibilidade de poder escolher fazer de forma diferente. E ir além do óbvio e superficial - como adequar rotinas e hábitos aos dias de hoje - e focar-me no que realmente é difícil: olhar para dentro do que eu sou, da minha linhagem, da dor ancestral, e tentar mudar. Ouvi a Teal Swan dizer que o caminho da cura é relativamente simples. Quando lhe perguntam o que podem para quebrar com traumas geracionais e iniciar processos de cura da nossa ancestralidade ela é muito pragmática: precisamos, apenas, de identificar os padrões que reconhecemos como insuficientes ou nocivos, parar de os replicar e tentar outras formas - normalmente diferentes ou até antitéticas - de fazer as coisas. Esta simplificação resume muito da complexidade de olhar para o nosso interior, apontar o dedo aos monstros interiores e fazer as coisas de outra forma. Porque qualquer um destes passos implica consciência, esforço e um desconforto inimaginável para a maioria das pessoas. E que a constatação mais dolorosa de todas é que estamos a falar de um processo contínuo, para a vida, que não tem uma meta. O processo é a meta. Uma das mais recentes conclusões a que cheguei com o meu psicólogo foi que a paternidade me permitiu cuidar de mim; mas que esse cuidado trouxe consigo níveis de esforço e dificuldade que muitas vezes questiono se os consigo suportar. Vou conseguindo, quando os dias não escurecem demasiado.
Tenho visto muita dor intergeracional. Em mim, à medida que replico padrões adquiridos que atentam contra os meus valores e com a visão de quem quero ser. E nas feridas de outros. Demasiadas pessoas - eu incluído - vivem condicionadas pela dor de passados distantes. Pais e mães que conseguem justificar construções da realidade para dizer e fazer coisas atrozes aos seus filhos e netos. Filhos e filhas que não conseguem perdoar a dor acumulada ao longo de décadas. Casais que se consomem por completo e tornam o que antes foi paixão ardente e amor numa ferida infetada pela incapacidade de ambos lidarem com as suas emoções. Assusta-me pensar que, como pai, tenho o poder de infligir dor aos meus filhos numa magnitude tal que os pode deformar para a vida. Que a partilha de uma vida com a Sofia me capacita para infligir-lhe tamanho sofrimento que poderei condicionar a sua liberdade e expressão, bem como o seu direito à felicidade. Assusta-me, também, herdar o peso da escolha de querer fazer diferente com quem cuidou de mim. De forma imperfeita, trago nas minhas linhagens uma aprendizagem que me é muito útil: quero sempre acolher quem amo. Posso não o fazer da melhor forma, e muitas vezes nem tenho consciência que preciso acolher, mas por defeito quero acolher, quero amar, quero a harmonia de estar numa relação saudável com quem amo. Com quem me rodeia, até. Herdei esta capacidade que, na altura de fazer escolhas de como quero agir, como quero ser, me é muito útil. Nem todos tiveram esta sorte, bem sei. Já vi pais, mães. avôs e avós não terem estas ferramentas e optarem por outro tipo de escolhas. Quando, por razões várias, já não conseguem infligir mais dor, acabam sós e amargos e o ciclo cumpre-se. As pessoas ficam sem perceber porque perderam os filhos, companheiros, netos, amigos, familiares e culpam-nos, incapazes de assumir a responsabilidade de uma vida de inconsciência - precisamente por nem sequer terem tido a noção do que estavam a ser. Resta, agora, a quem herdou a carga emocional, os padrões adquiridos e comportamentos condicionados, ir tendo consciência disso e tentar fazer de forma diferente. Escolher fazer de forma diferente. Porque apesar de carregarmos passados, escolhemos futuros.
Até para a semana,
João
P.S. Consciente que a crónica de hoje é pesada, venho deixar este episódio do Huberman com a Becky Kennedy sobre parentalidade. Tem algumas ferramentas e formas de pensar que acho que são muito úteis. E encontro sempre ligeireza quando leio ou ouço alguém tentar fazer melhor, com base no amor e no acolhimento.
Deixo também a TedTalk dela, que consegue ser um murro no estômago. É sobre parentalidade mas começa logo a dizer que tudo o que ela falará nestes 14 minutos se aplica a qualquer relação interpessoal. Coisa rara nos dias de hoje, assume as suas imperfeições e comportamento menos bons. Fala de reparações - assumir os erros e pedir desculpa - e termina com uma exercício simples que me comoveu. Faz falta honestidade e transparência quando falamos de parentalidade.

