Brincadeiras à parte
5 minutos de brincadeira verdadeiramente transformadores.
Olá,
Lá por casa temos um hábito já bem instituído e diariamente exigido: depois do jantar um dos pais vai brincar um bocado com o mais velho no quarto. Desenhar, construir Legos, jogos de tabuleiro, Uno. O que apetecer aos jogadores, devidamente negociado consoante a vontade no momento. O outro progenitor ficar a arrumar a cozinha e a preparar logísticas do dia seguinte. Enquanto foi filho único, havia uma maior disponibilidade - e tempo - para brincadeira. Desde que o irmão nasceu, há menos tempo porque enquanto se adormece o mais novo, o mais velho tem que aguardar que as tarefas domésticas sejam concluídas. Perdeu-se um pouco de tempo, mas ainda assim, brincamos quase todos os dias que a rotina permitir.
Nem sempre foi assim. Ter percebido que a tendência era perdemo-nos em afazeres e, tirando a hora da refeição, acabávamos por não estar, de facto, juntos. A usufruir da companhia uns dos outros. Poderíamos ter assumido padrões que vivemos na infância e colocar as crianças a ver televisão ou sozinhas enquanto os pais arrumam as coisas e acabam por descansar um bocado antes da rotina de adormecer. Conversámos como casal para definir esta dinâmica de modo a não passarmos os dias de trabalho absorvidos em rotinas domésticas e logísticas familiares. Definimos como prioridade máxima estarmos uns com os outros, de forma plena. E vamos conseguindo, na maior parte das vezes.
Temos também um outro hábito: já deitado na cama, conversamos um pouco com o A. sobre o momento que mais gostamos e o que menos gostamos do dia. Até hoje, sempre houve um momento bom para relatar. E já tivemos vários dias em que não houve momentos maus: nestes momentos dizemos que foi um dia muito bom. A tipologia de melhores momentos variam, claro. Se houve uma refeição ou guloseima predileta é prontamente referida. Ou quando vamos a um sítio com diversões, regra geral, é sabido que é o momento vencedor do dia. Mas as crianças surpreendem-nos com a sua honestidade radical e às vezes ouvimos coisas enternecedoras. Há umas semanas ouvi-o dizer que o momento preferido dele foi jogar comigo. Era um jogo de tabuleiro novo que tinha recebido, uma prenda de natal cujas circunstâncias da vida a tornou tardia. Ficou super entusiasmado quando a recebeu e percebi que queria mesmo jogar. Na altura não foi possível jogar no imediato mas no final daquela noite, sentámo-nos e jogámos. Ele tem um mau perder (quem sai aos seus…) muito intenso e começou a ficar frustradíssimo com a sua sorte aos dados. Lá fui guiando as expetativas, mas em vão. Ele ficou mesmo mal disposto e rabugento e achei que o nosso final de noite tinha sido mais um calvário do que um momento agradável. Não recordo quem ganhou. Resignados, arrumámos o jogo e as peças e fomos fazer a higiene que antecede o deitar. Tudo correu normalmente e quando chegámos à cama tivemos a nossa conversa sobre os melhores momentos do dia. E eis que ele diz que o melhor momento do dia foi ter jogado comigo aquele bocadinho. O meu ar de incredulidade deve ter sido bastante óbvio porque, logo de seguida, rematou com: gosto muito de jogar contigo. Derreteu-me o coração, claro. Não me lembro se se falou de algum momento mau, mas para mim, foi um dia muito bom.
Uma das lições que a paternidade me tem ensinado é que não são precisas coisas para deixarmos as nossas crianças felizes. É preciso tempo, presença e atenção; o mais importante é imaterial. Quando estou com ele, seja a fazer ronha no sofá, na cama, num passeio à beira rio, num parque infantil, a brincar ou a jogar é quando o vejo e sinto mais feliz. É nesta interação que se constrói um elo emocional único. Às vezes, esse tempo é difícil de se conseguir. As rotinas, cansaços e energia não o permitem ou criam uma resistência atroz. Mas sempre que ultrapassamos esse atrito, os momentos são sempre bons e únicos e de uma conexão enorme. É nestes bocadinhos que nos conhecemos verdadeiramente. É quando deixamos os piloto automático, as tarefas e rotinas de lado e estamos, verdadeiramente, um com o outro.
Ouvi no podcast Life Kit da NPR que bastam 5 minutos diários de conexão livre de distrações para que este vínculo seja fortalecido. Mais, quando nos predispomos a passar pelo menos 5 minutos, que não é um número grande, acabamos sempre por passar mais tempo. Porque vemo-nos livres do telemóvel, ecrãs e afazeres e estamos ali só com uma missão. A liberdade de sermos pais verdadeiros com os nossos filhos exerce-se quando largamos as amarras do que nos distrai. Mas nem sempre tenho a disponibilidade física, mental e emocional para brincar. Há dias em que assumo que não tenho essa energia e simplesmente faço companhia enquanto vegeto no telemóvel ou ouço música com ele. Noutros, tenho apenas 2% de energia e tento balizar o tipo de brincadeira ou jogo que consigo naquele momento fazer. Quase sempre a proposta é aceite. É neste entendimento que nos vamos conhecendo: os nossos limites, frustrações, níveis diferentes de força anímica. As variações de cada dia. Passámos a conversar mais, a rir mais, a frustrar mais, a chorar mais e a partilhar mais. Sempre que há mais de nós, há menos do que não é tão importante. Foi das melhores coisas que fizemos.
Vivemos num mundo onde nos é cobiçada a atenção, onde temos pouco tempo útil de lazer e onde se normalizam tipos de relações distantes, frias e disfuncionais. E a ânsia dos nossos filhos de se conectarem connosco é de tal ordem que bastam cinco minutos diários para que os seus rostos se iluminem e para se criem alicerces fortes para a relação entre pais e filhos. Daí a importância de termos consciência de como estamos a viver. De refletir sobre os nossos valores e se agimos de forma alinhada com eles.
Abraço-vos,
João
P.S. Vou assumir que este post scriptum vai ser um habitué de cada crónica onde vou deixar recados, se os houver, e recomendações de tudo e mais um par de botas.
Um caríssimo camarada do grupo Paternidades de Pai para Pai deixou esta recomendação para amanhã, sábado. É um concerto gratuito para bebés dos 0 aos 3 anos organizado pela Câmara Municipal do Seixal. Espero que esta sugestão ainda vos chegue a tempo de aproveitar.
O coletivo Parents For Peace tem estado muito ativo na organização da manifestação de apoio à Palestina de amanhã a acontecer em vários pontos do país às 15h. Deixaram um manifesto poderoso e que todos os pais e cuidadores deveriam ler.
E não podia terminar esta adenda sem a recomendação musical da semana. Tenho ouvido coisas muito interessantes nos últimos dias, mas vou deixar aqui uma produção portuguesa do início do ano, o novo disco dos Club Makumba. Tem-me acompanhado muito em sessões de leitura, de escrita e tarefas culinárias. Cheira um pouco a Dead Combo ou não fosse este um projeto do Tó Trips.


