Autoridade (in)justificada
Olá,
Ao ouvir um podcast sobre anarquismo, escutei em palavras o porquê de tanto embicar com a autoridade. É uma definição do Chomsky que não conhecia:
“authority, unless justified, is inherently illegitimate and that the burden of proof is on those in authority. If this burden can’t be met, the authority in question should be dismantled.”
Pedi ao Perplexity para traduzir:
“A autoridade, a menos que seja justificada, é intrinsecamente ilegítima, e o ónus da prova recai sobre aqueles que detêm o poder. Se esse ónus não puder ser cumprido, a autoridade em causa deve ser desmantelada.”
É precisamente a falta de justificação da autoridade que me incomoda. O exercício da autoridade “só porque sim” nunca me fez sentido. A começar nos meus progenitores, depois com professores. Hoje em dia com chefias e clientes cujo autoritarismo resvala em prepotência e pedância. Reconheço autoridade quando a entendo como justificada: um colega inteligente e talentoso cujas orientações se tornam caminho ou um amigo cuja opinião valorizo em especial por o saber estudioso e interessado em determinado tema. Reconheço-lhes autoridade na matéria em questão; é sustentada em argumentos, factos e acções concretas e materiais. Exigo precisamente isto a todas as figuras de autoridade com que me cruzo e, de alguma forma, tentam exercer o seu poder sobre o meu arbítrio: que se justifiquem e demonstrem competência, respeito e integridade nesse exercício.
Claro que isto é problemático num país onde as chefias e patronato pecam por fracas escolaridades, inteligência emocional, deficiente capacidade de gestão e arrogância proporcionalmente ligada às suas próprias incapacidades. E isto não é uma crítica amargurada de um assalariado do século XXI. É informação pública. A minha resistência e conflito permanente com o sector cultural vem, precisamente, da constante confrontação com ignorância, incompetência e soberba de quem detém poderes de decisão. Exacerba, por exemplo, a pequenez do cinema portuguÊs e amarra-o a uma pseudo-intelectualidade. Condiciona o crescimento e exportação internacional. A autoridade neste sector é dos exemplos perfeitos que “deve ser desmantelada”.
Esta autoridade - ilegítima aos meus olhos - perpetua-se no poder e nas tomadas de decisão reforçando constantemente o privilégio da sua trupe. É uma espécie de clube da incompetência, com vários departamentos. Na cultura, é uma prática disseminada: é assim na literatura, na música, na gestão cultural, no cinema. Mas esta realidade é transversal aos vários setores da economia e da produção. Não deixa de ser curioso que quando o mérito devia ser imperativo numa suposta meritocracia, ele esvai-se de propósito nas classes que dominam e decidem. Pergunto-me, então, como se chega a estes lugares sem uma autoridade justificada, sólida e capaz de seduzir quem está sob a sua alçada. À primeira vista, e poderei ser simplista demais, parece-me que o privilégio de classe e a herança social são determinantes. Sim, eu tenho consciência que há quem detenha uma autoridade justificada e competente e que a exerce da forma mais competente possível. Mas são casos excepcionais, diria. E que essas pessoas acabam por ser condicionadas no exercício das suas funções pelo sistema onde se inserem. Acabam conformadas - e integradas - na máquina corrompida. Ou procuram outros espaços ou geografias onde possam continuar a justificar a sua autoridade com os benefícios consequentes para todos.
Desta forma, o meu problema com a autoridade intersecciona com a estrutura capitalista - e consequentemente desigual - do sistema onde vivemos. A burguesia age como uma espécie de nobreza onde o seu privilégio é herdado ou obtido através de condições específicas e impossíveis de reproduzir pela generalidade da população. A autoridade vigente na nossa sociedade deve ser posta em causa e deve-lhe ser exigido que se justifique, constantemente. Talvez esta seja apenas uma boa desculpa para o chorrilho de críticas que teço enquanto trabalhador, cidadão, pai, professor. Porém, precisamente por existir nesta democracia liberal, sou também condicionado pela autoridade injustificada. Temo perder o meu salário e capacidade de subsistência da minha família. Temo ver os meus privilégios e direitos adquiridos diminuírem e temo ver os meus filhos viverem aquém do que considero ser uma vida digna. Por isso, muitas vezes, não exijo que a autoridade se justifique. Primeiro, porque um dos privilégios das classes dominantes é não precisarem de se justificar: o desigual poderio económico, social e político fazem pender a balança para o seu lado, sempre. Podem livrar-se das vozes inconvenientes e têm o apoio do sistema e das leis e regras que ele cria e perpetua.
Esta minha crença é colocada à prova diariamente, como pai. Tenho que justificar a minha autoridade e ter sempre consciência que o ónus da prova está do meu lado. É quando detenho poder físico e emocional sobre duas crianças que estes meus valores - esta crença - são testados ao limite. Preciso equilibrar os limites pessoais com a forma de expressão de cada um deles. As coisas não são, nem devem ser, “porque sim”. Têm de ter uma razão que não um mero capricho ou humor mais enviesado do momento. Mas falho muitas vezes nisto: exerço autoridade pelos piores motivos. O despotismo impera nesta alturas. Porque estou cansado, ou num desequilíbrio emocional, ou porque preciso de espaço. Acontece nem sempre conseguir regular-me a tempo de evitar que o autoritário saia cá para fora. Fico desconfortável sempre que isto acontece. Sou incoerente e incapaz de viver na prática as minhas intenções. Mas também abre-se o espaço para a reflexão, para os cinzentos de um espectro que me permite aceitar a sombra que tenho dentro de mim e integrá-la da forma mais salutar possível. A paternidade é uma boa maneira de vermos testadas as nossas convicções e, talvez mais interessante, as nossas incongruências. As atitudes paradoxais que vamos tendo; sermos o preciso contrário daquilo que mais defendemos.
Se olhar para os oito anos de prática que tenho até agora, apesar das falhas, vejo um balanço positivo. Tenho filhos que em momentos de descompensação emocional se sentem livres para explodir. Eu tinha medo, na idade deles. Pelava-me só em pensar nas consequências. Tentamos fomentar a livre expressão, o livre arbítrio e trazemos presente o igual valor sobre o qual já escrevi tantas vezes. Olho para os meus filhos como seres de pleno direito, tal como adultos. Tenho a responsabilidade de os educar e guiar para que possam crescer e florescer em segurança, de os proteger daquilo que ainda não têm consciência. Mas de resto a sua opinião, necessidades e até desejos contam. Podem ser refutados, debatidos, mas nunca condicionados por uma autoridade cega e abrasiva. Às vezes também digo “porque sim” ou “isto não é um debate”. Coincide, sempre, com falta de recursos da minha própria gestão emocional. Dificilmente diria estas frases a um amigo, ou colega de trabalho. É aqui que sinto mais a batalha entre o condicionamento de que fui alvo enquanto fui crescendo e as minhas intenções. Nem sempre é fácil fazer aquilo que sentimos como mais correto e a nossa humanidade condena-nos, inevitavelmente, a falhar. Mas é no reconhecimento da falha e nas reparações que fazemos com quem agimos mal que também crescemos como pessoas e somos o que melhor a humanidade tem para oferecer.
Talvez seja ingénuo ou idealista ou utópico, mas quero crer que podemos viver numa sociedade que trata todos por iguais, respeitando as suas diferenças e individualismos. É um processo: esta ideia constrói-se aos poucos. Primeiro connosco, depois com os nossos núcleos mais próximos. Só depois é que exportamos para os outros, seja através do exemplo, essa poderosa ferramenta de comunicação, seja através de conversas e debates. Mas esta ideia assenta na premissa de que qualquer tipo de autoridade tem que ser muito bem justificada e assente em necessidades reais. Uma autoridade que não seja um mero exercício de poder e domínio, mas sim uma orientação através de valores e exemplos. Negar a hierarquia é permitir, também, uma existência em verdadeira harmonia e respeito. Sinto que nos tem faltado muito esta horizontalidade.
Abraço-vos,
João
Fez há uns meses o aniversário da minha primeira leitura da Leïla Slimani. Li a “Canção Doce", esse murro no estômago que me emocionou, abalou e fez questionar muitos dos sistemas de opressão vigentes no nosso dia-a-dia. É uma ficção que se funde com a realidade, tão longe mas ao mesmo tempo aqui tão perto. Na semana passada acabei outro livro dela: “No Jardim do Ogre”. Uma viagem à dimensão de uma mulher refém das suas pulsões sexuais. Uma história sobre a vida dupla que a ânsia e descontrolo nos fazem ter. Como alguém propenso a vícios, bem como uma notável falta de autocontrolo, identifiquei-me muito com a personagem. A luta constante contra a consciência do problema. A impotência perante um corpo e uma mente que, por vezes, não parecem nossos. A urge de satisfazer esse vício, essa vontade animal, contra toda a lógica. A autodestruição e constante sabotagem. Um livro duro - tal como o primeiro que li - mas que reafirma Slimani como uma voz importante a ser lida. A crueza da ficção num mundo que precisa dessa choque, desse acordar. A revelação do que habitualmente não faz parte da nossa existência.
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Escreveste exatamente aquilo que eu penso sobre a autoridade injustificada, a qual também sempre senti certa dificuldade em aceitar. Às vezes, penso que consigo lubridiar o sistema ao não jogar as suas regras, mas, ao final do dia, vistas bem as coisas, ele sai sempre a ganhar. Obrigada pelo texto!
Gosto muito desta ideia da autoridade limitada (e da autoridade parental auto-limitada).