Reflexões sobre amizades.
Ensaio sobre o privilégio de ter bons amigos que cresceram connosco e a aventura de fazer novos amigos em adultos.
Olá,
Sempre tive sorte com os amigos que fui encontrando ao longo da vida e já aqui escrevi sobre isso. Ficamos a saber do que uma amizade é feita em momentos complicados. Esmiuçamos essas relações na forma como as pessoas reagem, escolhem acolher e nos apoiam. Como agem depende da altura, dos contextos e do estado emocional de quem consideramos amigos. Já fui um péssimo amigo: já escolhi não querer lidar com estados emocionais de pessoas que precisavam de mim. Seja por laxismo egoísta, ou por não ter as ferramentas emocionais em determinado momento. Já relativizei o sofrimento de outros para não ter que lidar com a tempestade emocional. Já escolhi não estar lá quando mais precisaram de mim. Paguei um preço: perdi essas pessoas como amigos. Fazem parte dos tais vivos sobre os quais já discorri e arrependo-me, quase sempre, de os ter perdido. Arrependo-me, mais ainda, de não ter sido o amigo que precisavam.
A incongruência e as falhas são traços que definem a minha (a nossa?) humanidade. Também sou um bom amigo; já consegui redimir-me com algumas pessoas que noutros tempos falhei, já estive presente quando mais precisaram de mim. Já acolhi, abracei e apoiei no momento certo, com a duração certa. Aprendi o valor incomensurável da amizade quando mais precisei de ser amado e menos mereci. Quando tive o colo que tanta falta me faz. Mesmo quando alguns escolheram não estar lá para mim, ou estar de formas que não me fariam bem, acabei sempre por ter pessoas que foram amigas de forma incondicional. Tenho plena noção do enorme privilégio - e sorte - que é ter estas pessoas na minha vida. É a tal estrelinha que sinto que me acompanha. Talvez até seja um planeta, Júpiter, que no meu mapa astral está quase colado ao meu ascendente. A Astrologia Helénica diz que representa a boa aventurança e a boa fortuna que sinto que muitas vezes me safou na vida.
Não têm sido semanas fáceis. Sinto-me a fazer malabarismo e tenho demasiadas bolas no ar. Uma das coisas que me tem ajudado a suportar o peso é o amor. O amor fraterno que me aquece o coração com mensagens de apoio, ou desafios para ir almoçar e proporcionar-me espaço para assumir uma existência que vai além de cuidador. Recebi um telefonema do outro lado do mundo e senti um abraço. Sentirmo-nos presentes na mente de alguém é das coisas mais maravilhosas na vida. Tenho também o amor de irmão; apesar de ter vinte anos de diferença das minhas irmãs, e termos um pai diferente, nunca me senti meio irmão. Sempre me senti um irmão de pleno direito, com tudo o que isso acarreta: as preocupações, os colos, os abraços, os sorrisos e as lágrimas. E sem hesitação, tive o colo e apoio que precisava, sem sequer pedir. Presença incondicional. Que privilégio. Por fim, o amor que tenho em casa. É um amor construído: primeiro com a mulher que aceitou partilhar uma vida comigo. Que me diz que se sente impotente perante a minha angústia e que gostava de fazer mais. Ouço-a, compreendo-a. Mas o que ela não sabe é da enorme importância que é saber que posso despir, por uns dias, o papel de pai-cuidador a tempo inteiro para ser filho-cuidador a tempo parcial. Porque confio cegamente nela para acolher os meus filhos, para os amar ainda mais quando não merecem e saber que, quando regresso a casa e a sinto exausta, tenho sempre espaço para um abraço. Uma festinha nas mãos. Uma ronha matinal em família na nossa cama, com crianças, gargalhadas. Amor é termos um porto seguro, onde não encontramos julgamentos, nem esperamos cobranças. É um amor sem condições, sem merdas, com espaço e empatia. Ela diz que gostava de fazer mais. Eu sinto que nunca poderei retribuir o carinho e amor que recebo apenas por existir. Os meus dois filhos abraçam-me, sem a dimensão inteligível do que aqui escrevo, e limitam-se a existir em amor. A gostar de mim por quem sou, de qualquer das maneiras. É um amor que não foi conspurcado por regras ou expectativas. Que sorte tenho.
A referência ao amor é esbanjada em homilias, discursos catequéticos, proposições morais: caminho vertiginoso para atenuar, se não mesmo neutralizar, o seu significado. Habituámo-nos a ouvir o apelo ao amor, recebendo-o ou reproduzindo-o sem grande discernimento. Estou convencido de que uma parte importante do problema é a ausência de uma reflexão sobre a amizade. - José Tolentino Mendonça em “A Vida em Nós”
A amizade é, então, amor. Que mais poderia ser? Associamos amor às concepções românticas e carnais. Como eu o vejo, o amor é inocente e puro. É ter outra pessoa na nossa mente, na nossa consideração e empatizar com o que ela sente mesmo que esteja longe de nós. É poder retomar uma conversa íntima separada por anos. É sentirmo-nos em casa quando somos escutados. É saber que perduraremos na memória de alguém mesmo depois de já cá não estarmos. Sou abençoado, na verdadeira acepção da palavra: bendizem-me os meus amigos. Tenho poucos, mas bons, destilados ao longo da minha existência e que insistem em permanecer. Fiquei com a essência do melhor que há na humanidade e tenho o orgulho enorme de dizer que são meus amigos. Livre de interesses, ou segundas intenções, sem cobranças, nem rancores. Onde a conversa e a frontalidade se mantêm pilares que estruturam a nossa relação.
Talvez seja esta amizade, este amor, que tanta falta faz ao mundo dos nossos dias. Pergunto-me como caímos neste pináculo do individualismo que empurrou para o isolamento. Podemos viver apenas centrados nos nossos interesses? Amar outras pessoas, ser amigo, não pressupõe também altruísmo? Podemos ter uma vida plena sem uma verdadeira amizade? E se ela for ilusória, imaginada ou fabricada, preencher-nos-á de facto?
Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti. - John Donne
Este texto era suposto terminar depois desta citação. Mas deu-se uma sincronicidade: a Raquel Dias da Silva escreveu sobre o tema na semana passada e, no chat do Substack dela, lançou um desafio. “Escrever para a newsletter sobre os amigos que nos viram crescer e a aventura de fazer novos amigos quando já somos pessoas feitas”. Achei que se coaduna perfeitamente com o que tinha escrito e resolvi expandir o texto inicial.
Sou mesmo um privilegiado: tenho o mesmo melhor amigo há 32 anos, mais coisa menos coisa. Trinta e dois anos. Começou por ser vizinho da porta do lado, depois foi colega de turma. Acabámos a partilhar uma vida, com os seus altos e baixos, e é das pessoas que melhor me conhece. Mais importante: conhece o que fui e o que passei para me tornar no que sou hoje. Somos feitos de passados; eles podem ser relatados e contextualizados. Mas não é a mesma coisa que serem testemunhados. Quando somos mais velhos percebemos a importância de ter um amigo tão antigo. É um reflexo da nossa existência e as nossas conversas contêm décadas em cada palavra. Há um entendimento rápido: passe o tempo que passar, aconteça o que acontecer, a frequência é a mesma. Os valores são os mesmos. Não é uma questão quantitativa: a antiguidade não é um posto. É qualitativa, como um vinho bem envelhecido, nas condições ideais, duma colheita fenomenal e do qual retiramos uma experiência indescritível.
Gostei, especialmente, da segunda parte do desafio da Raquel: a aventura de fazer novos amigos quando já somos pessoas feitas. É mesmo uma aventura. Os amigos sobre os quais escrevi nos parágrafos iniciais foram adquiridos até à adolescência. As pessoas mais importantes na minha vida, os que ficaram, conheci-os todos até aos meus dezoito anos. Fui muito amigo de outras pessoas, mas fomos perdendo o contacto ao longo dos anos. É assim que se vão perdendo os tais vivos: não é só a negligência, o tempo também rói o tecido de uma amizade. Tenho (quase) quarenta anos. Na segunda metade da minha vida, os últimos vinte, foi-me sendo cada vez mais difícil fazer novos amigos. Fui conhecendo pessoas, e criando rotinas com elas, mas há qualquer coisa na idade adulta que parece que nos impele a um isolamento. A rotina do trabalho, casa e momentos de lazer acaba por se fechar nos mesmos grupos. Também me fechei sobre mim mesmo. Hábitos pouco saudáveis contribuíram para um constante isolamento e fechamento sobre uma bolha específica de pessoas. Essa bolha foi diminuindo e a consequência foi que fui perdendo alguns amigos. Hoje em dia, como pai, trabalhador, companheiro, filho, vejo-me à rasca para fazer novos amigos. Mas tenho sempre a estrelinha do meu lado: acabo sempre por conhecer pessoas novas e há sempre uma nesga de espaço para podermos estar juntos. Nos últimos meses têm-me ajudado muito ter largado as redes sociais: não tenho mais a ilusão da conexão com as pessoas de quem gosto. Se sinto falta delas, não será uma fotografia numa rede social que satisfará o desejo de requinte. É preciso combinar algo, fisicamente. Na pior das hipóteses, um telefonema. Na comunicação, a voz continua a ser muito mais valiosa que caracteres num ecrã. Acho que a palavra chave aqui é afinidade. A aventura de fazer novos amigos passa muito pela afinidade que temos com as pessoas que vamos encontrando. A idade é um posto que nos permite ir sabendo que tipo de pessoas gostamos, que interesses partilhados são relevantes. Onde é que nos revemos e espelhamos.
Também percebemos que somos aquilo que consumimos. O que lemos, o que ouvimos e escolher ver. As pessoas que escolhemos para nos rodear moldam-nos. Talvez, por isso, seja mais difícil fazer amigos em adultos: somos mais seletivos e exigentes. Queremos garantir que são pessoas que nos vão fazer bem. Que vão nutrir a nossa existência com coisas boas; quanto mais velho fico, ,menos paciência para fretes tenho. E não se pode fazer fretes com amigos, a vida é demasiado curta para isso.
Abraço-vos,
João
A Cris, doravante conhecida como a minha sommelier de livros, voltou a acertar no empréstimo literário. Confesso que julguei o título e a capa do livro e o tomei por uma história de amor português merdoso. Que injusto fui. Primeiro porque não estou a ver a Cris a emprestar-me tal temática, porque me conhece. Segundo, porque não é de todo merdoso, apesar de ter muito romance, e relações e humanidade. “E se eu morresse amanhã?” da Filipa Fonseca Silva fez-me rir imenso. É um livro pequeno que consegui ler em pouco menos de três dias. Fala sobre a velhice, sobre tabus, sobre a forma como as pessoas jovens teimam em ver as pessoas mais idosas. Senti a escrita muito pegada ao relato e à descrição e senti falta de um pouco mais da voz da Filipa. Não me interpretem mal, o livro está bem escrito e estruturado, mas talvez por ter gostado tanto, ficou-me a faltar mais poesia nas frases. Mas aprendi muito com o livro, fez-me rir e sorrir, fez-me sentir ternura pelos velhinhos que ainda tenho na minha vida. E li-o na altura certa, quando precisava de algo para animar. Estava lá na prateleira, emprestada há já alguns meses, a aguardar a seleção. Talvez seja por isto que gosto muito da comparação entre prateleiras de livros e garrafeiras. Vamos comprando livros e garrafas mas só usufruímos deles no momento indicado.
Também tenho lido newsletters que têm mexido comigo. Deixo aqui alguns textos que gostei muito de ler.
Gosto de comprar o Público às sextas por causa do Ípsilon. Na sexta-feira passada deparei-me com um artigo sobre o músico Ted Lucas, que não conhecia. A história é muito interessante - perfecionismo, preguiça e falta de timming que acabam em desolação. Fiquei com a pulga na orelha e fui procurar a reedição do disco, passados cinquenta anos da sua publicação original, esquecida e abandonada. Adorei e acho que devia partilhar convosco esta pérola.





Nos temas da amizade e da solidão, estamos em sintonia. É da idade e é das vidas que vivemos, tão similares umas às outras. Gostei muito de te ler.
Gostei muito, tanto da primeira parte como da segunda. Espero que eu e a Joana cheguemos aos 32 anos de amizade (ou mais, se der para isso). Se não me engano, vamos nos 20s. Mas é de facto o que dizes: é reflexo da nossa existência. São pessoas que, mais do que nos verem crescer, cresceram connosco, e moldaram porventura a forma como crescemos juntos. É difícil superar essa intimidade. E fazer amizade em criança é muito diferente de quando já somos adultos, porque em adultos já perdemos a oportunidade de brincar com aquela pessoa, a inocência, a vulnerabilidade, são tudo ingredientes que acredito ajudarem ao desenvolvimento de uma amizade. Em adultos, somos menos vulneráveis, mais cautelosos e calculistas. Não quer dizer que não se façam bons amigos, amigos para a vida, mas requer uma dose maior de coragem: a coragem de nos deixarmos ver sem saber ainda se aquela pessoa merece. Na faculdade, fiz alguns amigos para a vida assim (e que corajosa fui porque há coisas que não voltaria a fazer à frente de ninguém). Agora já tenho mais noção do ridículo e é difícil abrir-me como antigamente. Não sei se também sentes isso.