Águas de Março
A fechar o Inverno.
Olá,
Já estamos em Março. É o mês que anuncia o final do Inverno e a chegada da Primavera. Olhamos para os últimos três meses e fazemos contas ao frio, à reclusão e à falta de luz solar. Ainda nos sobram resquícios das dificuldades que, enquanto espécie, passámos há uns milhares de anos? Sobrevivemos, contudo. Vamos começar a sair, aos poucos, da nossa reclusão e saborear o sol, as temperaturas amenas e ansiar, cada vez mais, pelo Verão. Lá em casa, é quando somos mais felizes: pretextos para estar ao ar livre, piqueniques, amigos e natureza. Não fossem as minhas alergias aos pólenes e poeiras típicas da altura, seria perfeito. Mas se um nariz ranhoso e comichão nos olhos são o preço a pagar, pago-o com gosto. Bom, não com gosto, mas pago na mesma.
O equinócio da Primavera está quase aí ao virar da esquina. Nesse momento teremos quantidades iguais de luz e de noite e começamos a trilhar o caminho maravilhoso até ao solstício de Verão; onde a luz ganha com grande margem, os dias tornam-se longos e lânguidos e as noites teimam em largar o calor. Olho para trás, novamente: lá em casa, tivemos um bom Inverno. Soubemos amar, acolher e crescer juntos. Estivemos protegidos por uma casa, comida na barriga e o privilégio de estar com família e amigos. A cereja no topo do bolo foi ter lido muito: para mim e para o mais velho. Estamos na reta final do segundo livro da saga do Harry Potter; sai-me do pelo ler quase todas as noites um pouco daquele mundo mágico, nem sempre tenho paciência, ou força, ou voz. Mas é tão bom vê-lo e senti-lo entusiasmado com uma história onde a imaginação lhe dita todos os pormenores que ficam nas entrelinhas. É por estas e por outras que um filme nunca será tão bom um livro: o que pode a conceção visual de outra pessoa fazer contra a infinitude da imaginação?
Sinto que crescemos todos. Amamos melhor, acolhemos melhor, ouvimos melhor, comunicamos melhor. Olho para os meus filhos e já quase não os reconheço. Um já quase lê, ávido de interpretar todas as sílabas.
É piço, pai. É piço.
Depois de processar o horror de lhe ouvir tão hedionda expressão, fui à carga:
Desculpa, não percebi.
Apontou para o que estava escrito na televisão. Temi o pior: os conteúdos dos desenhos animados tinha definhado por completo, mas olhei na mesma. Depois, suspirei de alívio.
Épico, filho. Lê-se Épico.
Crescer é muito isto. Momentos cómicos, únicos e irrepetíveis que nos lembram que não somos a mesma pessoa que éramos ontem. Também os há em versão nada engraçada, mas igualmente únicos e irrepetíveis. O mais novo também já fala, demasiado, mas ainda não percebemos quase nada.
Olá Pou. Pé. Não. Já ‘tá.
Olá Pombo, Pé, Não e Já está. O resto são palavras de uma linguagem muito própria, seguramente rica e versátil, mas que infelizmente só ele a fala. O inverno fez-lhe bem: maturou-lhe as sílabas, a capacidade de compreensão e deu azo a crises de personalidade. É aquela síndrome mais conhecida por “à minha maneira”. Os Xutos até lhe fizeram um hino, acho. Cresceu, portanto. É outro filho o que agora habita à minha frente, um Inverno depois. Vou ter outros dois filhos no Verão, seguramente. Ser pai é uma coisa diferente a cada dia, em cada fase. Mas somos pais de muitos filhos. Clarificando: os filhos são os mesmos, mas mudam a um ritmo vertiginoso. Vamos conhecendo-lhes várias versões. Porque, tal como nós, são agentes de mudança. Nós moldamos os nossos filhos, eles moldam-nos a nós, ao mundo. E o mundo imprime-nos particularidades e o ciclo só acaba quando algum dos elementos desta equação deixar de existir.
Vamos, então, aproveitar este surto de crescimento e enfrentar o ciclo que tende para a luz da melhor forma - os dias vão ficar maiores e é nossa responsabilidade vivê-los da melhor forma. Saborear os detalhes que nos tornam únicos lá em casa e continuar a aprender uns com os outros. Sempre gostei de Março: parece que me torno em flor e, também eu, desabrocho. Não fosse este o mês da poesia, dos versos. Vão seguidinhos no final do mês: o equinócio, dia vinte, às nove horas e um minuto da manhã. Dia vinte e um, celebramos os poetas e os seus poemas. Eu costumo sentir vontade de criar e fazer coisas novas, nesta altura. Vêm-me ideias à cabeça, urgências que precisam de passar para o papel ou ser concretizadas através de ações. Se as abelhas me viessem buscar néctar fariam um mel de imaginação. Sempre tive curiosidade de saber a que sabem os sonhos. A ver se os provo nos próximos tempos.
Abraço-vos,
João
Esta semana desisti de mais um livro. Fez-me bem ter lido uma crónica do Miguel Esteves Cardoso em que ele assume que salta de livro em livro até parar num que o prenda. Eu requisitei na biblioteca, e em língua original, o Slaughterhouse-Five, do Kurt Vonnegut. Vi-o recomendado numa newsletter do Fumaça, pelo Ricardo Esteves Ribeiro. Já me tinha cruzado com outras recomendações e referências ao autor. O tema, um livro anti-guerra, pareceu-me interessante, ainda para mais escrito por um americano que andou na Europa a combater nazis. Mas a forma como está escrito, não me cativou. Esforcei-me até pouco mais de meio. Achei engraçadas algumas passagens, mas o estilo e a cadência não me conseguiram cativar. Continuo na senda: não gosto, sigo para outro. Voltei a pegar no Niketche da Paulina Chiziane. Rapinei-o de casa do meu pai: li o início, mas valores mais altos se levantaram (vulgo Babel). Agarrou-me; depois conto como foi
Lá em casa temos estado a curtir Fujii Kaze. Põe todos a dançar e a sorrir, com uma pop despretensiosa, cheia de ritmo e tudo made in Japan. Músicas orelhudas e que levantam o astral para as nossas refeições e momentos de parvoíce. Dou por mim a sentir que estamos numa introdução de um anime sobre uma família de doidos; há algo na libertação da parvoíce colectiva do quarteto lá de casa que nos fazem bem, coletivamente. É continuar.



Também sou fã do Fujii Kaze! Gosto, em particular, da música e do videoclipe "Workin' Hard". Até me emociono quando ouço essa música. Mas, no geral, as músicas dele deixa-me bem disposta :)