Acolher
Ou a dádiva do tempo.
Olá,
Um dos atos mais generosos que consigo conceber é o de querer acompanhar e apoiar alguém no seu crescimento. Implica a intenção, bem consciente, de estar presente na vida dessa pessoa, contribuindo ao máximo para potenciar os seus interesses, aptidões e capacidades. Para isto é preciso tempo. É preciso uma vontade genuína – um altruísmo, de facto – para alocar parte da vida, rotina e energia mental para acolher outro ser humano. De não ver essa tarefa como um problema a solucionar mas, sim, como uma contribuição para um mundo melhor. O sonhador e otimista que habita em mim gosta de imaginar que esta prática terá feito com que humanidade chegasse onde estamos.
Há dias li uma crónica que falava da importância das regras na utilização de ferramentas digitais como a internet ou o smartphone. Constata coisas que, a meu ver, são óbvias e que deviam fazer parte do léxico e prática dos pais e responsáveis por crianças: limite de horas em frente a ecrãs, acompanhamento e supervisão da utilização no caso de menores e constante diálogo sobre os conteúdos que proliferam nas redes sociais e páginas da rede global de informação. É uma das formas contemporâneas de acolhermos os nossos filhos numa Era digital que molda hábitos, rotinas e comportamentos nas novas gerações.
A realidade é que basta irmos a um restaurante ou centro comercial ou andar de transportes públicos para percebermos que há uma brutal falta de acolhimento das nossas crianças. A capacidade de um ecrã entreter e ser considerado uma atividade tão banal quanto fazer um desenho numa toalha de mesa tornou-se a norma. Crianças, cada vez mais novas, coladas a ecrãs nas refeições, num silêncio comprado às custas do desenvolvimento cognitivo e da imaginação. Roubamos-lhes, também, o aborrecimento. Aquele estado de espírito em que nada parece satisfazer o desejo de existir e que, quebrando a barreira inicial, desconfortável, dá azo à criatividade. Arranjamos sempre maneiras de nos entreter.
O aborrecimento até pode ser usado como uma ferramenta de trabalho. O escritor Neil Gaiman já confessou que escreve com a seguinte premissa: ele só precisa de se sentar em frente ao computador com o processador de texto aberto. Não é obrigado a escrever absolutamente nada. Mas não pode fazer mais nada a não ser olhar pela janela ou para o ecrã. Nem pegar no telefone, nem ler, nem fazer qualquer tipo de tarefa. Isto porque, inevitavelmente, o aborrecimento fará com que a musculatura criativa se ponha a escrever. É isso ou ficar a olhar para uma parede. Eu percebo-o perfeitamente. Escrevo na mesma premissa, nas viagens suburbanas de comboio para o trabalho. Abro sempre o computador no colo, logo na estação. Posso não ter absolutamente nada para dizer (como me acontece amiúde às oito da manhã), mas fica o ecrã aberto até sair alguma coisa. Sai sempre porque, tal como o Gaiman, não me apetece ficar a olhar para a parede. Nem para as trombas cansadas das classes exploradas e precárias do meu país, mas deixemos este assunto para um outro texto.
Mas este exemplo é pernicioso e muito influenciado pela ditadura produtivista que grassa na nossa civilização. Torna-se quase imperativo criar alguma coisa ao invés de simplesmente estar absorto nos pensamentos, com o olhar a vaguear alguma paisagem, ou amontoado de pessoas num comboio. Mas há uma diferença entre sabermos estar aborrecidos para permitir uma centelha de criatividade ou pensamento original e utilizar esse direito a não fazer nada para manter um fluxo de produção. As crianças ainda não estão nessa fase de otimizar as suas rotinas e fluxos de trabalho para exponenciar a sua produtividade. Estarem aborrecidas é o que lhes permite olhar para uma cadeira e uma manta e fazer um forte que está prestes a ser invadido por uma horda de Orcs esfaimados. Mas o desconforto que todas as crianças sentem a certa altura quando dão por si a olhar para a parede, ou para o teto, acaba por ser consequente para os responsáveis pela sua educação quando verbalizam: “Estou aborrecido”.
Tenho o hábito de responder que é ótimo estar aborrecido, que faz bem à cabeça e à imaginação. Também vou explicando, pontualmente, que não sou um brinquedo e que não tenho a responsabilidade de entreter os meus filhos a toda a hora. Tenho os meus limites pessoais, outras responsabilidades e o direito a estar sossegado a fazer as minhas coisas. Claro que também brinco, converso, rio e faço coisas com eles. O problema é que, mesmo fazendo tudo isto, é inevitável ouvir: “Estou aborrecido” ou “O que é que eu faço?”. E estas perguntas causam desconforto a quem tem responsabilidade sobre as crianças. Porque implica escutar o queixume, legítimo, e imaginar o comportamento mais instável a chamar a atenção que a criança tendencialmente adota nestas alturas. Estou a partir da minha experiência, como filho e como pai: lidar com o desconforto dos nossos filhos é das maiores provações a que a paternidade nos submete.
Existem outras maneiras de fazer as coisas, claro. Podemos desresponsabilizar-nos e deixar parte – ou a totalidade, muitas vezes – da educação e presença com os nossos filhos junto de ecrãs e algoritmos. Podemos iludir-nos com dar-lhes o máximo de responsabilidade tendo liberdade máxima quando, no fundo, estamos a imiscuir-nos de ser presentes. A escolha do verbo, aqui, é propositada. Porque se não somos com os nossos filhos, eles serão sem nós. Serão algo, sem dúvida, mas sem o acolhimento e a presença dos seus pais serão outra coisa qualquer. Vejo um filho como uma semente plantada e que começa a ser planta. É moldada pela terra e o meio ambiente, mas também pelo cuidado que damos a essa terra, revolvendo-a com os melhores nutrientes, podando-a para exponenciar o melhor que essa planta poderá ser no pedaço de terra que lhe calhou. Os pais são tanto a terra como o jardineiro. Há diferenças numa árvore que cresce por si e noutra que é cuidada. E podemos investir esse cuidado de forma mecânica ou investir parte de nós e criar um trabalho de amor. Nature versus nurture.
Fazemos isto, em graus diferentes, nos vários tipos de relações que vamos tendo. Também elas são plantas que podem ficar ao deus-dará ou serem cuidadas. É o mesmo para os nossos pais, companheiros, filhos, amigos, colegas, estagiários, vizinhos. A forma como acolhemos as várias pessoas da nossa vida dita a qualidade das relações que temos. Acolher passa por sermos conscientes do que se passa com essas pessoas, de forma empática e presente. Podemos fomentar essa presença percebendo, em primeiro lugar, que atalhos menos saudáveis estamos a utilizar no nosso dia-a-dia e de que forma minamos as relações com as pessoas que mais amamos. A quantidade de tempo de ecrãs de uma criança é uma escolha. O tempo que nós passamos em frente a ecrãs é uma escolha. Acolher implica escolher presença em detrimento destas distrações. A empatia e consciência dos outros só pode ser feita com atenção plena. É preciso tempo, esse recurso escassíssimo num mundo que só pensa em maximizar a sua produção. Precisamos de estar aborrecidos uns com os outros, precisamos de pausar a constante estimulação. Talvez, enfadados, possamos construir relações mais sólidas e presentes. Porque, parece-me, tecemos relações cada vez mais frágeis e intermediadas por inúmeras plataformas. Acolhamos, então.
Abraço-vos,
João
O meu pai pediu-me para lhe comprar um livro há uns meses. Era um romance de autor português, que tinha ganho o prémio Leya 2024. Falo do “Pés de Barro” do Nuno Duarte. Ele gostou de o ler e eu, levado pelo entusiasmo do meu progenitor, quis ler também. Achei-o o bom primeiro romance. Está bem escrito, apesar de ter uma prosa que bebe — às vezes em demasia — a Saramago. Passa-se nos anos 60., em Portugal, no período de construção da ponte sobre o Tejo. Com esta edificação em plano de fundo, vamos conhecendo os habitantes de uma ilha operária em Alcântara, com todas as suas particularidades e um grande foco na gritante desigualdade social que grassava no Estado Novo. Embrulhada com o mofo nacionalista e religioso, a narrativa é-nos entregue através de Vítor Tirapicos, o protagonista que o autor escolheu fazer chafurdar um pouco no miserabilismo, munindo-se de alguns estereótipos que gostaria de ver mais trabalhados. Salvam-se as histórias e desventuras caricatas e peculiares que nos arrancam uns sorrisos, mas há uma falta de profundidade em algumas personagens chave. A escrita é cativante, no início, mais cai no erro de deixar deslumbrar por ela mesma: repetem-se receitas, reforçam-se pontos da história que acabam por cansar e saturar. Falta, quiçá, maturidade ao autor para saber discernir quando é que a forma serve o conteúdo. A maior crítica que posso fazer foi ter sentido, muitas vezes, que estava a ler uma versão aguada de Saramago. Uma tentativa de imitar a cadência do Nobel que, infelizmente, considero não ter sido bem sucedida. O final, também, não me pareceu muito bem resolvido. É um largar repentino do suporte histórico e conhecido do Portugal de então e achei que o mergulho na ficção especulativa apareceu do nada. Não obstante, a história é boa e consigo perceber o prémio Leya: há nestas páginas uma promessa de algo maior. Ficarei, portanto, à espera.


