Acaba aqui.
Não se aceita, ponto.
Olá,
Permite-me um alerta à navegação desta semana: a crónica de hoje pode ter alguns gatilhos emocionais. Fala sobre violência doméstica e familiar, ciclos de violência e trauma geracional.
Estreou na semana passada um vídeo produzido pelo SNS que mexeu muito comigo. Alguém o partilhou numa storie do Instagram e, quando cliquei, não sabia ao que ia. Foram quatro minutos e vinte e um segundos intensos que espoletaram imensas emoções dentro de mim. O meu semblante mudou porque o que o vídeo narra atuou como gatilho da minha bagagem emocional. Porque mexe com um conjunto de valores e crenças que tento desconstruir (as que sinto que não me são úteis) e construir (as que entendo que me faltam).
A história começa com uma senhora a dar banho a um idoso. Percebemos a humilhação na cara do senhor e a ausência de empatia da senhora. Fiquei logo incomodado com a violência dos gestos, do trato. Na forma como conseguimos desumanizar quem nos rodeia e quem, em tempos, foi parte integrante do nosso núcleo. De que amámos. O senhor acaba abandonado a olhar para uma televisão, impotente, num canto de uma sala que poderia ser de qualquer um de nós. O ser empático que há em mim projeta-se no futuro e pensa “espero que os meus filhos nunca me façam isto”. Mas relembro-me que as ações não são estanques no tempo, nem podem ser compartimentadas em micro narrativas. O contexto confere outras perspetivas. Precisamos entender o todo e creio que em cada ato há uma causalidade, estejamos conscientes dela ou não. Em milissegundos, ainda antes de a narrativa prosseguir, reformulo o meu pensamento: “espero nunca fazer nada para merecer isto”.
O resto do vídeo é sobre um ciclo de violência. O mesmo idoso, quando jovem, a ignorar e a ser violento com a sua filha, a ser violento com a esposa ainda grávida, a ser violento com um médico num hospital e acaba com os exemplos de violência a que foi sujeito em criança. Há uma cicatriz que une o fio narrativo e é uma ótima metáfora para a marca indelével que a violência tem em nós. Ela acompanha-nos para o resto da vida. É uma história que fala sobre a perpetuação de ciclos de violência. Este vídeo foi feito no seguimento da campanha do Programa Nacional de Prevenção da Violência no Ciclo de Vida. Termina com uma solução simples: em algum momento, temos que decidir fazer de forma diferente daquela a que nos habituaram e como nos fez crescer e quebrar com o ciclo, com o trauma geracional, com a violência. Em vez de bater, ignorar ou gritar, escolher acolher, amar e abraçar.
Para mim, o vídeo foi devastador. Porque me recordou que há vários tipos de violência a acontecer no seio das famílias: física, psicológica, interpessoal, doméstica, familiar. Porque me relembrou que pertenço a uma geração onde muita dessa violência foi normalizada e tida como pedagógica. Muitas práticas abjetas eram consideradas educativas: prender a língua com mola por causa de um palavrão, deixar crianças de castigo num quarto escuro. Os exemplos são muitos. Crescer com esse condicionalismo torna-nos, na maioria das vezes, incapazes de questionar se há outras maneiras de se fazerem as coisas. Diria, até, que nos forma a crença que é normal, que é assim que as coisas se fazem. Que estas também são formas de amar. Parte-me o coração saber que existem pessoas que nunca terão a possibilidade de olhar para dentro, para a sua própria dor e dela tirar ilações, presas na ignorância e condicionalismo que, ainda hoje, tem o aval da sociedade. Porque este é um processo que requer ajuda externa e muita reflexão. E estes dois ingredientes encontram-se em processos terapêuticos a que a esmagadora maioria dos portugueses não tem acesso. E ainda há os que têm o privilégio do acesso mas sem a consciência necessária para olharem para dentro.
Cresci a ver inúmeras famílias presas a ciclos de violência. Cresci a achar que apanhar com um chinelo era normal e a consequência natural para uma ação irrefletida de uma criança. Vi estalos, palmadas. Cheguei a ver pais possessos a darem pontapés a miúdos em plena rua. Cresci a ouvir berros e descargas emocionais de adultos. Ameaças e chantagens emocionais de modo a manipular o comportamento das crianças. A afirmarem que estão quase a chegar a roupa ao pêlo (expressão transversal a tantas pessoas que conheci). “Em casa falamos”, este deslize freudiano que assume que a violência em público é condenável, mas no recato do lar não. Que estão quase a dar uma razão válida para chorar. Pessoas a culpabilizar crianças, a responsabilizar, a exigir pedidos de desculpas quando, muitas vezes, nem existiu entendimento do que de errado se fez. E comíamos calados, porque não se podia interromper os relatos dos pivôs da televisão, ou os jogos da bola, ou os comunicados de alguém de fato e gravata, como se os ciclos noticiosos não se repetissem ad nauseam. Onde não podíamos contestar, responder, questionar e agora - surpresa! - queixam-se de sermos uma geração pouco proactiva. Fomos crianças educadas na base do suborno e da recompensa para termos certos comportamentos e quando estas metodologias falhavam, o medo imperava. Questiono-me que tipo de respeito criamos e desenvolvemos por alguém com base no medo? Que tipo de ligação emocional se cria quando o medo condiciona? Penso que o medo no curto prazo é eficaz na manipulação de seres humanos, principalmente crianças, mas não é duradouro. Vemos isso nas múltiplas revoltas e insurreições contra instituições que se estabeleceram através do medo. As crianças não são diferentes e quando o período da dependência para subsistir termina, surgem os conflitos, as dissidências com os seus encarregados de educação.
A violência marca. E há muitos tipos de violência. Não é só a agressão física que marca uma criança para a vida. Também há a violência psicológica. Assisti a centenas destes exemplos enquanto crescia, alguns dos meus pais e familiares, outros dos pais dos meus colegas, amigos e conhecidos. Não lhes guardo rancor, faziam o melhor que sabiam, com as ferramentas emocionais que tinham. Fico com a sensação que o problema é transversal. A violência psicológica pode deixar marcas ainda mais profundas no desenvolvimento de uma criança. Porque é um veneno cuja dose é administrada diariamente, sem causar grandes impactos no imediato e acaba por condicionar crenças e formas de olhar a vida. E, o pior, para além de normalizada, é que não é tida como violência. Acham que é uma prática pedagógica. Como quando ameaçam com castigos ou consequências constantemente e não percebem que estão a minar a auto-estima e a capacidade de uma criança se sentir suficiente só por existir. Quando criticam e dizem que são feios, porcos, mal educados porque não agiram dentro de uma expetativa e, em vez de terem acolhimento que as permita perceber o que corrigir, são desvalorizadas pelo seu comportamento. Como aqueles pais e mães que se refugiavam no trabalho e pouco mais que trinta minutos estavam com os seus filhos por dia e, porque eram pré-adolescentes ou adolescentes, se justificavam a dizer que lhes estavam a dar responsabilidade e autonomia. Esta desresponsabilização do cuidado é um forma de violência. Quando os remetem para ecrãs o tempo todo de modo a ter as crianças quietas e caladas. Vi, também, muito rancor de pais para os filhos. Por existirem e lhes roubaram a vida, por não corresponderem às expetativas, sejam elas quais forem. Vi guardarem ressentimentos durante décadas, presos a atitudes de crianças e adolescentes, incapazes de perceberem que os seus filhos cresceram, mudaram. A Mia costuma citar um ditado sueco que é qualquer coisa deste género: “Ama-me quando eu menos mereço porque é quando eu mais preciso”. O rancor consome e deixa marcas fundas na forma como, depois, essas crianças se vão relacionar consigo mesmas e com o mundo.
Os ciclos de violência na nossa sociedade têm consequências. Os filhos deixam de falar com pais, avós ou outros cuidadores. As crenças e práticas são continuadas com as descendências e poucos são capazes de ter pensamento crítico e auto-análise para fazer de outra forma. Destroem-se, de forma inconsciente, elos emocionais e afetivos. A violência continua; muitas vezes exponencial. O ciclo não quebra.
“Espero nunca fazer nada para merecer isto”. Este pensamento permite-me ser o único responsável dos meus atos e não remeter para terceiros a forma como ajo. Permite-me, também, ter a capacidade de perceber que quero fazer de forma diferente. Mas continuo a falhar. Ainda tenho comportamentos instintivos e viscerais condicionados pela forma como fui educado. Nos segundos, minutos, em que sou tomado pela amígdala e fico num estado de sequestro emocional, os meus padrões são constituídos pelos mesmos ciclos em que fui socializado - por pais, família, escola, sociedade. E não são de todo os melhores, na maioria das vezes. Preciso, sempre, ter o discernimento de tentar respirar ou afastar-me da situação de modo a deixar o córtex pré-frontal tomar conta do assunto e agir da forma que eu acho melhor: sem violência, assente em amor e empatia. A violência acaba aqui. Por escolha própria.
Esta campanha do SNS é de vital importância para a saúde mental do nosso país. Porque expõe um problema que, acho eu, é visto pela esmagadora da população como sendo “normal”. É este um dos tais “mitos do normal” que o Gabor Maté fala no seu último livro e que precisa de ser desconstruído. Precisamos parar para pensar nas nossas ações, na forma como nos comportamos com os outros e perceber se estamos alinhados com os nossos valores ou se estamos a perpetuar, inconscientemente, ciclos de violência.
Até para a semana,
João
P.S. Estive com um amigo que já não via há demasiado tempo. Nos últimos tempos tenho tentado voltar a estar com pessoas que sinto que me fizeram bem e ajudaram a construir uma versão melhor de mim mesmo. Foi um almoço maravilhoso onde a conversa fluiu, desde as nossas crias, aos nossos trabalhos mais recentes e, claro, música. Partilho convosco algumas descobertas que fiz com ele.


Vale a pena referir toda a violência normalizada da sociedade. Os filmes violentos, a violência no noticiário... Enquanto vegano, lembro também a violência contra os animais, que não é reconhecida como tal, que é empurrada para níveis inconscientes da mente... Todos sabem mais ou menos, a crueldade a que os animais são sujeitos na pecuária, mas escolhem não pensar sobre isso, e não há discussão pública sobre isso (as televisões nunca passam documentários sobre pecuária, com medo de perderem anunciantes).... Temos assim violência na televisão contra os humanos, para gerar anunciantes, mas uma violência geral contra animais que é varrida para debaixo do tapete... E que causa dissonância cognitiva... É fácil argumentar que a pecuária é o maior crime de sempre, pois se matássemos humanos á mesma velocidade que matamos animais, ficaríamos extintos em 15 dias, e esta estimativa nem inclui os triliões de peixes que matamos por ano.
Ao mesmo tempo que falamos de violência, queria também referir que a permissividade é igualmente lesiva, que foi o que aconteceu na minha infância. O essencial é ensinar às pessoas a ver tudo à luz da consciência e da atenção plena, a saber pensar sobre os assuntos, a se responsabilizarem sobre a sua vida.