A utopia de um ser empático.
Ou o otimismo em tempos de merda.
Olá,
Antes desta crónica, existiram duas tentativas de textos que chegaram a meio. Em ambos os esboços, pairava um pessimismo nas palavras: sentia-me a repetir a receita de apontar o dedo aos males do mundo, frustrado com a desumanidade e cansado de ser forçado a aceitar que a humanidade é assim. Até que me deparei com uma crónica na Gerador ainda mais pessimista que terminava assim:
Não há charme nenhum em acreditar nisto, mas é no que acredito, leitor: quando nascemos, a Civilização não vem incluída.
No Ípsilon, do Público, li um artigo, a propósito da mais recente tradução de um livro do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi, cujo título era:
A espécie humana não sobreviverá a este século.
Percebi que a minha escrita não precisa de se juntar ao canto do cisne moribundo, já há demasiadas pessoas sem esperança, resignadas que aceitam o fatalismo dos dias de hoje. Suspeito que este sentimento universal de impotência e desespero que nos é incutido é intencional: é o que nos leva a aceitar as coisas como são, por mais indignas que sejam, como se nada houvesse a fazer para mudar, ou não se pudesse imaginar uma outra maneira de fazer as coisas.
Aceita que dói menos.
Este chavão, que é o pináculo do modernismo resignado, é ouvido muitas vezes nas suas múltiplas variantes: é assim que as coisas são, o que podemos fazer, é o que é. Mas sou uma pessoa crítica por natureza, com uma grave resistência ao autoritarismo e gosto pouco de chavões cuja missão é remeter-me a um canto, quieto, calado e conformado. Talvez não queira aceitar e ache que a espécie humana pode sobreviver em melhores condições. Que quando nascemos será o tipo de civilização que nos rodeia a estabelecer as fundações de quem viremos a ser.
Um dos maiores progressos que fiz em terapia é ter-me aceite como eu sou, com as sombras e condicionamentos que fazem de mim quem sou a cada dia. Sentir que não tenho que pedir permissão a ninguém para pensar, ou falar, nem temer o que os outros possam julgar. Encontrei uma maior liberdade nos meus dias, livre de amarras imaginárias. E, talvez, aqui tenha também encontrado uma boa razão continuar a ser o otimista que sempre fui, com os meus altos e baixos, com maior ou menor crença num mundo melhor.
No fim-de-semana passado, fui à festa da inauguração da livraria da Catarina Alves de Sousa, a Story Owl. É bom ver projetos que tentam fugir à lógica comum e querem oferecer algo mais. Neste caso, uma livraria com uma curadoria fantástica, em Português e Inglês, onde adorei ver imensos livros que recomendo bem como aqueles que quero ler. E livros que não se encontram nas livrarias dos circuitos comerciais, normalmente. Fui convidado a ler alguns poemas e escolhi levar “A Importância do Pequeno-Almoço” da Francisca Camelo. Tem sido um livro-terapia-crescimento daqueles com que nos cruzamos poucas vezes na vida. E foi bom, entre gritos de crianças a brincar, famílias, estantes de livros, hidromel, salgadinhos e as melhores bolinhas de churro recheado de sempre, ler dois poemas. Precisei da coragem de um bom vinho tinto para enfrentar as pessoas: estava nervoso e muito ciente que é diferente ler um poema ao vivo do que num microfone onde depois posso editar as melhores leituras. Mas correu bem. Entre cada poema, o meu filho mais velho veio dar-me um abraço; não percebi se era orgulho ou felicidade de ter acabado a seca, mas fiquei contente na mesma. Enquanto lia, o mais novo também passou por mim, mas não gostou de estar no palco com tantos olhares e rapidamente foi brincar para outras paragens. Foi mesmo bom ver pessoas tão diferentes em volta de livros, de conversas de livros, a apoiar amigos e a querer sair da rotina que nos é imposta. E, com grande surpresa, fiquei a conhecer a Rafaela Mota Lemos e o Daniel Carvalho, companheiros de escrita no Substack, que sem dúvida enriqueceram muito o final da minha tarde.
Foi um banho da humanidade que não tenho visto muito: com fome de acesso à cultura, de livros, de ler, de querer ouvir, de discussão livre. E que nos faz tanta falta. Há umas semanas fui tomar um café com a Raquel Dias da Silva e o FMR e acabámos numa tertúlia interessantíssima, espontânea. Faz-me falta isto, faz-nos falta este estar e pensar em companhias diferentes. Nenhum homem é uma ilha, diria Donne. Apesar de tudo, existem pessoas que nos complementam, estimulam e trazem ao de cima versões melhores de nós mesmos. E está nas nossas mãos: fazermos nós a cultura possível, o debate necessário. Refutar as ideologias que nos são impingidas e tomar as rédeas. Podemos ser nós a organizar as coisas, a juntar as pessoas. Um mundo melhor será feito das comunidades que conseguiremos construir. E tenho encontrado tecidos comunitários que me faziam falta, como o Paternidades. Mas há tantos outros. Clubes de livros das mais variadas temáticas, tertúlias, encontros de homens, de mulheres, de famílias. Em comunidade, e no sentimento de pertença e experiência partilhada, encontramos o que há de melhor na humanidade. O adubo que nos permitirá reivindicar melhores condições de vida, no trabalho, nas cidades, vilas e aldeias. Mais apoios à natalidade e paternidades plenas, à parentalidade, respeito pelas famílias nas suas mais variadas composições. Eduquemo-nos para exigir melhores escolas e educação para as crianças, organizemo-nos em soluções à escala humana para a habitação e lutemos pelo acesso universal à saúde. Tudo isto nasce, primeiramente, em nós e nas comunidades que nutrimos e nos nutrem.
Tenho-me debatido muito se existem soluções para os problemas do nosso mundo ou se é a nossa humanidade é condição sine qua non para desigualdades e atrocidades que testemunhamos diariamente. Esta insistência na autoridade hierárquica e na crença inabalável que somos feitos de uma genética egoísta que se traduz forma como construímos as nossas civilizações. Uns dias acho que somos um caso sem esperança, noutros acho que há uma luz no fundo do túnel. Também percebi que não preciso de respostas a este questionamento. Levantar as questões já me ilumina parte do caminho a seguir: na dúvida, seguir com as minhas intenções. Com toda a incoerência que isso acarreta, com as dicotomias e paradoxos que me tornam tão humano quanto quem me está a ler. Talvez deixar de encolher os ombros perante o mundo a acontecer à minha volta e agir, em pequenos passos, dentro da minha possibilidade e sempre no questionamento constante. Sei que quero tornar o mundo um bocado melhor, seja de que forma for. Ajudar quem precisa e ter empatia para com todas as vidas.
Ser a mudança que quero ver no mundo.
Esta talvez tenha sido a frase que mais escrevi nestes quase dois anos de crónicas. Talvez se tenha transformado num mantra que escrevo e reescrevo para me ir lembrando da sua enorme importância para mim. Para a forma como educo os meus filhos. E talvez porque quero que quem me lê se pergunte, muitas vezes, como podem deixar o mundo um lugar melhor, a cada interação, a cada dia. Nestes tempos de trevas, como podemos iluminar novos caminhos?
Abraço-vos!
João
Alvíssaras caros leitores, alvíssaras! Passados dois meses terminei a autobiografia da Emma Goldman. Foi uma empreitada que passou por vários estágios anímicos: alegria, frustração, cansaço, aborrecimento. Mas permitiu-me conhecer uma das mulheres mais fascinantes que caminhou na terra e cuja vida foi pautada pela defesa inabalável da liberdade e autodeterminação. Ajudou, e muito, o final do livro passar-se em território soviético, poucos anos depois da revolução de Outubro, e ter uma perspetiva crítica do que foi o aparelho de estado comunista naquela altura. Verdadeiramente revolucionária, Emma nunca se permitiu a qualquer tipo de cegueira ideológica que minasse os valores mais básicos que sempre defendeu. Para não falar das suas ideias, avançadas até nos dias de hoje, pioneiras em tanto e uma disseminadora de pensamento crítico. Fazem-nos falta mais pessoas assim nos dias de hoje.
Não fui entrevistado outra vez, mas saiu a versão portuguesa da Shelfie da Raquel Dias da Silva. Caso ainda não tenham tido oportunidade ou queiram ler-me na língua de Camões aqui fica
Termino com um texto corajoso da carolina novo. Revi-me em muitas coisas, mesmo sendo homem. Ou precisamente por ser homem. Mas foi um daqueles textos em que nos sentimos compreendidos e vistos e cuja experiência partilhada nos faz sentir um pouco menos sós. Fazem-me falta textos assim, que me arranquem do lugar do conforto e me obriguem a olhar para sombras que vou insistindo em varrer para debaixo do tapete. Está em inglês, mas vale mesmo muito a pena para quem estiver à vontade com a língua de sua majestade.






Gostei muito desta tua reflexão e não podia concordar mais sobre a importância das comunidades. Num mundo hiperestimulante, é bom percebermos que é possível pararmos um pouco junto de quem partilha connosco interesses e convicções; e, quem sabe, fazer desses momentos de tertúlia pequenos fóruns para o futuro?
Obrigada por este texto, João. É talvez um dos mais importantes que li nos últimos tempos. Ser otimista é também um ato de coragem, de revolta, de luta -- muitas vezes até connosco mesmos, porque não é fácil virarmo-nos do avesso e acreditarmos quando tudo parece tão cinzento. Mas acho mesmo que é isso que nos vai salvar. Ou melhor, se há coisas que ainda nos podem salvar de tudo, o otimismo é uma delas. É a visão de mundo que nos permitirá pegar nas ferramentas que temos e construir mesmo sob o mundo áspero, agregar comunidades, procurar novos caminhos. Parece clichê, mas é só possível fazê-lo se acreditarmos. Se continuarmos a acreditar -- estaremos mortos no dia em que deixarmos de o fazer. E a tua incrível reflexão ajuda muito a continuar a acreditar. Gostei muito, parabéns. E obrigada mais uma vez, são precisos mais textos assim. São também eles a mudança no mundo.
E obrigada, claro, pela menção ao meu texto. Sabes que significa muito, muito. Fico emocionada de cada vez que penso no impacto que tive e que nunca poderia ter imaginado. É um orgulho ser mencionada aqui por ti, João, obrigada 🥺