A sustentação da incerteza
A importância de criar espaço no tempo e tempo no espaço.
Olá,
Acho importante darmos espaço aos acontecimentos - pessoais, profissionais, políticos. Nem sempre fui capaz de criar esse espaço. Cresci com uma ansiedade que se manifestava na ação rápida e imponderada das coisas: das opiniões, das relações, das posições extremadas. Foi o mecanismo que desenvolvi para lidar com a incerteza: se não me demorar com as coisas, sou menos afetado por elas. Olhando em retrospetiva, não faz muito sentido; é fascinante a forma como conseguimos agir de forma irracional sem nunca pôr essa irracionalidade em causa. Sempre foi tudo muito rápido: o lazer, a aprendizagem, a apreensão. Muitas vezes, deu merda.
Depressa e bem não há quem.
Fartei-me de ouvir este pedaço de sabedoria popular mas insisti nos mesmos padrões. Ou não fui capaz de fazer melhor. Bem via a ponderação de outras pessoas, a minúcia, o foco e tempo de concentração. Nunca os invejei, parecia-me um desperdício de tempo. Achava que fazia o mesmo, mas mais rápido. Bom, se calhar invejava, não o processo mas a conclusão. Sim, os desenhos eram mais básicos, com menos pormenores e com as cores a saírem pelas linhas. Sim, a minha caligrafia foi - e ainda é, com a pressa - ilegível. Os enunciados eram facilmente mal interpretados porque precipitava-me em respostas. Isto acompanhou-me até ao ensino superior. Na cadeira de História e Teoria do Cinema, numa frequência, foi pedido que fizéssemos uma análise à importância e significado de um determinado filme do pós-guerra italiano, no Neo-Realismo. E lá fiz, todo orgulhoso, uma bela dissertação sobre o “Ladrões de Bicicletas”. Quando recebi a avaliação de volta, vinha com um redondo zero acompanhado da seguinte nota:
Boa dissertação sobre o “Ladrão de Bicicletas” mas o filme para análise era o “Germania Anno Zero”, como pode constatar no enunciado.
Imaginem o palavrão que gritei em silêncio a olhar para o papel. Acho que ao longo da minha vida pessoal, académica e profissional tive muitas situações destas. Foram melhorando e espaçando à medida que fui crescendo e aprendendo mecanismos para minimizar os estragos. Entretanto aprendi a dar espaço às coisas. A reler os enunciados e aumentar o espaço que se cria entre o estímulo e a reação. A não viver na espuma dos dias, no imediato, no ciclo noticioso, na novidade. Dar tempo às coisas, deixá-las apurar e perceber se valem o investimento da minha energia. Se sim, uso o tempo para aplicar esse foco e atenção de forma mais cuidada e eficaz.
O estado do mundo preocupa-me, principalmente como pai. Que tipo de sociedade estamos a criar - ou a permitir - para os nossos filhos? Que erros do passado vamos teimar em repetir? Poderia viver numa bolha de ansiedade política, ecológica e social tal é a velocidade da subversão dos valores, das morais, dos costumes. Antes de ser pai, afirmei muitas vezes que não queria ser pai. Sou um otimista. Mas sempre me pareceu má ideia trazer crianças a um mundo que nunca me pareceu estar a evoluir num bom sentido. Tinha razão: o mundo caminha a passos largos para algo que ultrapassa a minha compreensão, submerso numa negatividade e antagonismos assustadores. Assistimos este ano à transição de poder mais influente do mundo Ocidental. Onde os homens mais ricos e poderosos do mundo assistiram na primeira fila à inauguração de uma nova Era. De saudações intensas, parecidas com outros momentos mais imperiais ou totalitários. Uma plutocracia, uma tecnocracia, ou outra coisa nunca dantes vista. No silêncio da noite, enquanto os meus dois filhos dormem, penso no enorme privilégio que é podermos ter um teto, comida, conforto térmico e paz nas nossas vidas. E na fragilidade de todos estes dados adquiridos e nas múltiplas formas que os podemos perder. Evito viver nesse padrão de pensamentos, nessa frequência negativa que se retroalimenta. Não enfio a cabeça na areia à espera que a tempestade passe; mas não posso viver ao sabor das merdas que acontecem no mundo, não me faz bem.
Passou quase meio ano e começo a ver melhores formas de lidar com tudo isto. Não fazer parte do problema, não alimentar os ciclos, faits divers e minudências. Ser a mudança que quero ver no mundo, nos meus filhos. Combater esta pressão para nos isolarmos construindo pontes, comunidades e novas relações. Não confundir as presenças virtuais com partilha. Disse-me um conhecido, há uns tempos, que partilha é outra coisa. Implica presença, intimidade, construção sólida de uma relação. Aquilo que fazemos nas redes é publicação: das nossas vidas, hábitos e privacidade. O caminho passa por conversas desafiantes e pelas incertezas, seja daquilo em que acreditamos, seja dos futuros que se avizinham. Passa por fugirmos dos instrumentos de controlo, manipulação e formatação vigentes e procurarmos outras formas de nos nutrir. Emocional, cultural e intelectualmente. Existem outras interações com a internet para procurar informação nos nossos termos. Podemos escolher desacelerar. Não precisamos de correr atrás dos estímulos, nem de viver rodeados deles. Criar espaço, paragem, tempo para absorver, refletir. Fala-se muito dos benefícios de uma vida mais pausada, fora da rede. Não precisamos de nos tornar eremitas para isto acontecer. Equilíbrio é a palavra chave aqui.
As incertezas fazem parte do tecido da vida. E sinto que é o meu estado natural: embrenhar-me na rapidez dos dias e a consumir o que me dão numa velocidade acrítica. Estruturamos grande parte da ação humana em comportamentos que induzem ansiedade e não são conducentes a formas de viver sustentáveis. Parece que sou forçado a agir como uma criança insegura que não se quer demorar com as coisas; é o caminho mais fácil. Mas tento dar tempo e espaço, para existir alinhado com as minhas intenções. Porque não temos que ser o produto irrefletido do que nos rodeia. Podemos escolher fazer diferente; quebrar com ciclos e padrões, se assim nos fizer sentido. E nesta forma de agir, que passa despercebida a tudo excepto à nossa consciência, vou construir o exemplo que quero ser para os filhos. Que também eles possam suster o peso da incerteza da forma mais saudável possível, sem nunca perder o sentido crítico.
Abraço-vos,
João
Estive no Porto há umas semanas e fiz uma tour literária. Pedi uma recomendações a portuenses aqui do burgo (Olá, carolina novo) e a lisboetas fãs de livrarias: FMR & Raquel Dias da Silva. Juntos ajudaram-me a fazer um itenerário catita no google maps e lá fui eu. Uma das livrarias foi a Livraria aberta. Adorei o espaço minimalista e, acima de tudo, a selecção temática: LGBT. É um tipo de literatura que não costumo ler e já andava a querer expandir horizontes há algum tempo. Pedi recomendações de um romance curto. Deram-me várias opções mas acabei por ficar indeciso entre duas da Camila Sosa Villada. Um dos rapazes que lá estava desfez-me a indecisão e recomendou-me começar pelo princípio - o que me faz todo o sentido. Foi assim que me caiu nas mãos um dos melhores livros que li na vida. “As Malditas” é um romance sobre uma comunidade de travestis (expressão usada pela autora e que vou respeitar nesta recomendação literária). Mas é também sobre a condição humana, sobre as múltiplas formas de amar, de acolher. Sobre complexos, sobre corpos. Sobre objectificação. Camila escreve sobre a humanidade de uma perspetiva muito própria, num mundo que é constantemente posto de lado, escondido. Recomendo muito.
Se há algo que sempre prezei é transparência radical. Nas relações pessoais, profissionais, comerciais. Gosto de saber não me são guardados segredos e que não há agendas escondidas. Talvez por isso seja um acérrimo fã do projeto jornalístico Fumaça. Apoio financeiramente o projeto há vários anos. São, para mim, um dos últimos bastiões de liberdade jornalística e já tive o privilégio de fazer oficinas com eles e aprender uma enormidade de coisas. Recentemente, o Ricardo Esteves Ribeiro escreveu um artigo de opinião muito relevante do estado do jornalismo em Portugal e no mundo. Precisamos perceber que as estruturas vigentes perpetuam os privilégios de quem detém o poder de decisão. Acho importante que quem consome jornalista leia o artigo e perceba os moldes em que criamos centros de pequeno poder. Pequeno, mas capaz de censurar.



Olá, olá! 👋
Reflexão incrível, como sempre! Adicionei 'As Malditas' à lista -- e fico contente por ter contribuído, de alguma forma, para essa descoberta!
Excelente texto, João.