A Prisão da Auto-censura.
Olá,
Tinha começado a escrever uma crónica. Falava sobre autoridade, citei Bukowski e ia relacionar o meu problema com figuras autoritárias com a falta de justificação para esse autoritarismo. Talvez a acabe para a semana. Escrevi outra. Falava de coisas que acabei por ter que me auto-censurar: não quero que me leiam tudo. Hoje, se me estão a ler, consegui escrever estas palavras para criar a ilusão de consistência nas minhas publicações semanais. Mas sei que será uma crónica pequena, do tamanho do meu coração nos últimos dias.
Não publiquei determinado texto não por medo do julgamento de outros, mas porque há limites e consequências para o que escrevo. Não gosto da sensação de não poder escrever tudo o que me apetece. Supostamente é este o meu reduto de liberdade, onde a escrita me permite abrir as asas e voar. A pergunta que me deixou amargor na boca: somos livres quando nos censuramos por causa de outros? Somos livres quando o nosso livre arbítrio é condicionado?
A liberdade ser um conceito lato e espectral, assusta-me. Ela deveria ser absoluta; com as suas benesses e consequências. Quando o receio de enfrentar as consequências nos amarra, ficamos reféns. Prisioneiros das nossas próprias concepções. Talvez esta gestão delicada seja a base da civilidade: construímos uma existência em harmonia através destas cedências, destes compromissos. Ou, quiçá, confundamos algumas vezes este consenso não verbal com moral ou ética. Não obstante, não gosto da prisão da auto-censura.
Para a semana haverá mais, espero. A tal crónica que me falta acabar, ou outra qualquer. A liberdade também se constrói todos os dias.
Abraço-vos,
João


Também tenho sentido essa prisão de forma crescente, mas acho que é inevitável. A única forma de fugir era manter um diário - mas não, consigo lembrar-me imediatamente de algumas coisas que nunca confiei a nenhum diário.