A Balbúrdia
Olá,
Voltei! Já devem ter reparado na mudança do subdomínio do Substack. O Substack do João é, agora, A Balbúrdia. Tenho estado a trabalhar nesta mudança com calma, sem pressas, para que estivesse tudo pronto na rentrée. Porque Setembro assinala os dois anos de publicações semanais neste Substack. Este cantinho digital soma agora mais de duzentos subscritores, uma comunidade que acompanha semanalmente o que vou escrevendo. Nesta economia da atenção, é valiosíssimo o tempo que cada um de vocês gasta com o que escrevo e tenho consciência disso. Muita gratidão é o que sinto por cada pessoa que me acompanha.
Fui muito impactado pelo artigo do Fred Rocha sobre o futuro da internet. Entrei, hiper fixado, na temática da Internet livre e da detenção total do conteúdo (detesto esta palavra, mas enfim) que criamos nesta enorme rede global. Recomendei-o a muitas pessoas, escrevi um artigo inspirado nele. Mas acima de tudo, resolvi seguir o conselho simples do final do artigo: criar o meu próprio website, com o meu domínio, onde a portabilidade seja, de facto, sinónimo de liberdade. Livre das amarras de plataformas fechadas que acabam, irremediavelmente, por se “enmerdar”. Enshittification é a expressão que o Cory Doctorow cunhou e usa amiúde, mas gosto da tradução portuguesa que fiz. Faz-me todo o sentido ter o controlo sobre os textos que produzo, as imagens que partilho e, ao mesmo tempo, defender uma Internet mais livre, mais parecida com a sua génese: uma série de sítios conectados uns aos outros, livres das amarras dos gigantes tecnológicos. Não é só saudosismo. É mesmo uma tomada de posição: quero uma rede o mais livre possível e sem o gatekeeping das plataformas monopolistas.
Assim, decidi criar o meu próprio domínio, com o meu blog, a operar em paralelo com o meu Substack. A importação das crónicas anteriores não correu de forma suave, apesar das minhas inúmeras tentativas. Penso que quase todos os textos estão já no meu novo domínio, mas com problemas de formatação e acesso a imagens; enfim, não é o ideal, mas fico feliz de ter conseguido levar a minha empreitada digital avante. A página é ainda muito rudimentar, mas serve o propósito. A ideia é ir implementando novas funcionalidades e conteúdos de modo a otimizar a experiência de navegação e interface com o utilizador. Para já, está criado o meu cantinho digital. O pronominal possessivo é a parte mais importante. Tenho um lugar só meu, independente de plataformas, com total portabilidade e sustentado numa tecnologia de código aberto. Adequa-se mais a quem sou, aos meus valores e intenções como pessoa e cidadão digital.
O domínio do Substack também mudou; podia fazê-lo uma vez mantendo todas as hiperligações anteriores, dizem os senhores desta plataforma que há uma espécie de reencaminhamento. Espero que tenha funcionado porque, agora, não há volta atrás. E porquê mudar de nome? Porquê Balbúrdia ao invés de esternocleidomastóideo? Andei a cirandar por várias palavras, claro. Lembro-me de estar refastelado numa espreguiçadeira, em Junho, em frente a uma piscina a pensar: algazarra. Havia uma sonoridade e uma carga energética na palavra que não sentia. Partilhei-a com a Sofia. Ela detestou de uma forma ainda mais enfática que a da minha perceção sensorial. Pu-la de lado, claro. Mas a ideia de algo confuso, espraiado e composto pelas múltiplas dimensões de quem sou continuava agarrada a mim. Até que me lembrei da porta do meu quarto da casa onde vivi até aos meus vinte e sete anos. Quando era mais novo, a porta estava sempre fechada, graças à minha mãe. Era um quarto tão desarrumado e caótico onde os múltiplos apelos à minha intervenção para o arrumar eram sucessivamente ignorados. Venci pelo cansaço - ou excesso de mimo e privilégio - e a minha mãe, ao invés de se chatear com a desarrumação, passou a ter a porta fechada ou encostada. Pouco tempo depois desta norma ter entrado em vigor, num passeio qualquer vimos umas placas de cerâmica com várias inscrições. Uma delas dizia “Balbúrdia”. Claro que foi prontamente adquirida e colada na porta do meu quarto, como que a descrever, de forma certeira, o seu interior até ao dia em que saí de casa.
O que escrevo é um reflexo de quem sou. Das muitas instâncias que encarno diariamente, que mudam com o que vou vivendo, com o ambiente que me rodeia, com o que leio, vejo e penso. Reflete os múltiplos interesses que fazem parte de mim. Os vários Joões. O que é amigo, companheiro, pai, filho, sobrinho, tio, primo, colega, editor de som, professor, cidadão, leitor, espetador, bon vivant. Sou um pedaço de mim em todas estas coisas que me constituem. Uma autêntica balbúrdia, portanto, consolidada pela minha impaciência e tendência a pensar demasiado rápido as coisas. Uma confusão que vai sendo organizada pensamento a pensamento, texto a texto, que não pretende ser escondida, nem posta de lado. Que quer ser assumida como parte integrante de quem sou, de como sou. Fez-me sentido, então, adoptar este nome para o que escrevo. Sinto que, de muitas maneiras, me define e acolhe o que aqui vou escrevendo.
Vou tentar escrever mais na minha página. Ando a incluir por lá algumas coisas diferentes como as Notas da Semana, ou o segmento Assim Não, ambos numa fase embrionária. Manter-se-ão as crónicas semanais no Substack e na página, publicadas, como sempre, todas as sextas-feiras às 08h. Escrever tem somado significados para mim. O que era há um par de anos, foi sendo também outra coisa. Escrevo para organizar o que penso do que penso. Escrevo para os meus filhos me lerem um dia, se quiserem. Escrevo para nutrir a necessidade tão humana de ser visto e escutado socialmente, E sendo a escrita um ato político, escrevo sobre o que é este mundo onde habitamos e, por vezes, como o gostaria de ver um pouco melhor. Exerço uma real politik através da minha visão e das ações que pratico, consequentemente. São dois anos de escrita semanal por aqui. Não escondo o orgulho desta conquista. A consistência, a criação de uma rotina que permite escrever. O privilégio enorme que é ter quem me leia. Espero que gostem desta nova fase!
Abraço-vos,
João
Não esperava ter conseguido ler no campismo, com duas crianças e toda a algazarra que isso implica. Até porque o momento mais propício à leitura, a noite, não tem luz suficiente. Fui, então, sem expectativas. Mas consegui ler a “Solidão dos Números Primos” do Paolo Giordano, um livro muito bonito, com uma escrita maravilhosa, que me prendeu e me fez acompanhar um casal improvável, com uma espécie de determinismo matemático que tanto os atraía como repelia. Foi o FMR quem mo recomendou e não desiludiu.
Li, também, a “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”, a peça do Tiago Rodrigues que teima em fugir-me. Estive quase para a ver em 2021 mas a Pandemia adiou-me o prazer. Desde então, chego sempre tarde demais às bilheteiras. A esperança é a última a morrer, pelo que espero conseguir assistir a uma interpretação da peça um destes dias. Porque li-a de uma assentada, completamente submerso naquele mundo, naquela família e a acompanhar uma das reflexões mais pertinentes do nosso tempo: como lidar com as múltiplas instâncias dos fascismos que vamos encontrando nas últimas décadas. Como intervir junto daqueles que compram a banha da cobra que lhes promete a solução para todos os seus problemas? Acabei o livro a pensar que estava perante um marco do Teatro Português e que devia ser leccionado no ensino obrigatório. Foi esse tipo de livro: que aguça o pensamento crítico e ilumina um pouco as sombras que assolam a nossa sociedade
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Li A Solidão dos Números Primos há muitos anos e lembro-me de ter adorado. Cheguei a pegar noutros livros do autor mas depois não explorei.
Que corra tudo bem com o novo domínio!
É um prazer ler-te! Assim que tiver tempo vou espreitar p novo domínio. Mas queria desde já dar-te os parabéns! Um abraço