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Olá,
Quando esta publicação chegar às vossas caixas de correio e ficar no arquivo deste Substack e do blog, serei pai há oito anos. Todos os anos me surpreendo com a incrementação do número. A velocidade relativa do tempo é facilmente comprovada com a paternidade: foram oito anos que pareceram ter acontecido em poucos dias, com muitas horas que senti durarem anos.
Neste dia, em 2017, aconteceram várias coisas: peripécias, aflições, alívios e descobertas. Se me permitir estar sentado com a memória do que esse dia foi, consigo recordar quase tudo, em detalhe. Sou assim com as datas importantes, fixo-me nos detalhes, nos pormenores. Lembro-me de estar na sala de espera da Maternidade Alfredo da Costa e, com os nervos, numa ida à casa de banho, ter puxado o fio do alarme em vez do autoclismo. Quando saí tinha uma sala de espera bastante divertida e eu sem perceber o porquê. Sorrio com esta memória. Também me recordo do medo e da preocupação: que algo acontecesse à Sofia, ou ao A, que a tragédia se abatesse sobre nós. A minha incapacidade crónica de lidar com o sofrimento de quem mais amo era quase paralisante. Recordo a batida cardíaca na garganta e ansiedade nas vísceras. O medo, genuíno e intenso, que senti quando no final do trabalho de parto me é explicado que tenho que sair porque a Sofia tinha que ir para o bloco operatório. As palavras complicações, stress fetal, intervenção ecoavam na sala de partos e na minha ignorância. E, como todos os outros seres humanos, temo o desconhecido. Fiquei quarenta e cinco minutos à espera, sem saber se os meus piores receios se tinham concretizado. Lembro-me da dilatação do tempo. Lembro-me de me fustigar pela imbecilidade de ter decidido deixar o tabaco com a minha irmã. Um fumador, em stress, sem tabaco, de madrugada; ninguém merece.
Fui socorrido pela minha melhor amiga que também é cunhada e tia dos meus filhos. Sem hesitação, pôs-se na mota e trouxe-me tabaco. Encontramo-nos à porta das urgências da Maternidade e fumei o meu cigarro avidamente. Dizia-lhe que não sabia de nada, que estava à espera, que a Sofia estava no bloco operatório. Novamente as palavras: complicações, stress fetal e intervenção. Ficaram indeléveis na minha memória. Subitamente, fomos interrompidos por uma auxiliar rabugenta e frustrada por eu ter ousado ir para o exterior fumar. A empatia nem sempre é servida nas melhores doses e alturas certas. Informou-me que já estava. Perguntei logo, estão todos bem? Não sei, sei que a sua mulher já está na sala de partos, respondeu, apressada, sem pensar em mim, na minha aflição e terror. Novamente a batida cardíaca na garganta seca e fétida de um cigarro mal fumado. Caminhei pelos corredores a tentar acompanhar a senhora que parecia fugir de mim. Chegados a uma esquina escurecida pela pouca luz ela vociferou, estão ali. E comecei a ouvir um choro agudo que me dilacerou a espinha. A goela de um bebé aberta a furar-me os tímpanos e, de repente, a minha ansiedade nos píncaros. Não me lembro de andar: a memória é traiçoeira e recordo que flutuei até à sala. Entrei e vi a Sofia deitada de lado com um embrulho numa manta que emitia aquele choro de recém-nascido. Olhei-o e chorei. Chorei num descontrolo, esmagado pela emoção de ver um filho pela primeira vez. Não encontro uma metáfora capaz de explicar o que é isto de ser obliterado pela existência de outro ser humano. Procuro mas não encontro palavras para descrever a transcendência e felicidade. As lágrimas lá pararam. Contemplei o meu filho, rosado, choroso e tentar abocanhar o peito da mãe.
Ainda hoje contemplo. Olho para ele e lembro-me da primeira vez que o vi. Que o cheirei, que lhe senti o peso da existência. Quando nasce um filho nasce, também, uma responsabilidade. Consequentemente, nasce uma escolha. Tenho escolhido, na maior parte dos dias, tentar fazer melhor que aquilo que foi feito comigo. Respeitar quem ele é e deixá-lo ser, dentro dos limites de quem eu sou. É uma espécie de negociação interna ser-se pai: regatear constantemente com os nossos condicionamentos, valores e intenções. Pôr na balança a necessidade de espaço individual e de tempo e, no contra-peso, oferecer incondicionalmente todo o tempo e espaço mental que temos. Não é fácil, claro. Acho que nunca se consegue, verdadeiramente, esse equilíbrio; vivemos numa constante tentativa, malabaristas no espetáculo da nossa própria vida.
Ter sido pai salvou-me de muitas maneiras. Em primeiro lugar, de mim mesmo e dos abismos que tanto me atraem. Em segundo, porque me permitiu saber quem realmente sou. Não foi imediato, atenção. Houve todo um processo evolutivo, com vários estágios. A começar pelo achar que sabia tudo, o de perceber que nada sabia e depois reconhecer que havia demasiadas coisas em mim que nunca aceitei. E é difícil viver constantemente desiludidos ou desanimados com quem somos. Ser pai permitiu-me bater num fosso existencial e pedir ajuda: deixar os preconceitos com a terapia e permitir-me ser ajudado. Tanto mudou desde então. Aprendi a aceitar a criança que fui, a acolher as mágoas do passado e olhar esse miúdo dos anos oitenta e dizer-lhe que gosto muito dele. Que fez o melhor que conseguiu. Só desta maneira posso olhar para os meus próprios filhos e repetir esta aprendizagem. Mostrar-lhes que gosto muito deles. Repetir até à exaustão que os amo e ouvir, sim, já sei, já disseste. Viver com a lição de que, também eles, fazem o melhor que conseguem. Que, independentemente do que façam, serão sempre amados. Ou, mais importante, que não há nada que possam fazer que me faça gostar menos deles. E dizer-lhes isto, muitas vezes, até lhes ficar cravado na mente. Só assim lhes poderei agradecer terem-me salvo de tantas, mas tantas maneiras.
Abraço-vos,
João
Em finais de Agosto dei caras com esta publicação do Luís Leite – O que Faz Falta sobre clubes de leitura. Bom, não é só sobre clubes de leitura. É sobre a necessidade muito humana de sentirmos que pertencemos a algum lado, que podemos partilhar com os nossos pares e sentido de comunidade. Fez-me tanto sentido que aderi logo ao clube de leitura que ele dinamiza e já estou a ler o primeiro livro. Faz-me falta falar dos livros que leio com outras pessoas que também os estão a ler. Infelizmente, os livros são lidos à velocidade de cada um e só muito pontualmente nos cruzamos com alguém que também o está a ler. Claro que podemos falar de livros em diferido: ainda há poucas semanas um amigo estava super entusiasmado com o Mito do Normal do Gabor Maté. Li-o há uns anos, mas foi tão seminal na minha atual forma de ver o mundo que tivemos uma conversa maravilhosa sobre ele. A parte menos boa é que não tenho os detalhes tão frescos e não pude contribuir com eles na conversa. Parece que ficou aquém, principalmente quando sinto que o livro merece mais discussão, debate e integração. Acho que descobri o remédio para este problema.



Um feliz aniversário ao A.! Tenho de lhe arranjar um presente para quando o voltar a ver. E parabéns a ti e à Sofia! E obrigada por esta partilha maravilhosa, com a qual me relaciono de cima abaixo. Ser mãe e pai não é fácil, é muito desgastante às vezes, mas também é arrebatador no melhor sentido da palavra. Sinto-me fascinada todos os dias.
Ler este texto depois de ter divagado até às tantas da madrugada a escrever a história do parto da minha filha é a cereja no topo do bolo. A coincidência perfeita!
Poucas vezes se perspectiva o outro lado, o do pai e os seus receios. Pergunto-me agora como seria se o meu marido o fizesse.
Um aparte, ter puxado o fio do alarme em vez do autoclismo não é caso único. 🤣
E parabéns ao pequeno!