6 meses disto
Balanço de meio ano de crónicas.
Olá,
Esta crónica sai no primeiro dia de Março, um mês que costuma anunciar a chegada da primavera e se despede do clima austero dos últimos meses. Sou, evidentemente, uma pessoa de sol e acho que o mês do equinócio de primavera é um dos que mais aguardo anualmente. Estive nos primeiros meses do ano numa espécie de hibernação ativa a planificar e estruturar o que quero fazer com 2024, a aproveitar os dias curtos e frios para pensar como quero agarrar o calor dos meses que se avizinham.
O texto de hoje, tem outro propósito. Este projeto arrancou há sensivelmente 6 meses. Nasceu de uma ideia já antiga mas que andava a ser procrastinada há décadas e foi, finalmente, impulsionada por uma conversa com o meu melhor amigo no Verão do ano passado. Gosto de datas e sinto que sou facilmente marcado por elas. E, sem dúvida, que escrever crónicas semanais há 6 meses é algo que me deixa orgulhoso e com a sensação empoderadora de dever cumprido.
Um dos meus maiores problemas é ter muitas ideias e um entusiasmo desmesurado com elas. Acresce uma incapacidade crónica de me fixar numa delas por um período de tempo prolongado. Há um certo prazo de validade na capacidade de me galvanizar e a prossecução das minhas ideias cai, muitas vezes, em saco roto: chega uma ideia ou interesse novo e, como boa vítima de défice de atenção, lá vou eu. Tive inúmeros blogs, e projetos de escrita, mas nenhum teve a duração, nem consistência, que este teve até agora. Pergunto-me o que terei feito de forma diferente ou se algo em mim mudou. Talvez o segredo seja um pouco de ambos.
Desta vez, umas das grandes diferenças, foi ter deixado de escrever por capricho. Ou seja, não espero que uma inspiração divina vinda de uma musa me segrede ao ouvido enquanto escrevo. Escrevo, sim, dentro de uma rotina, já de si imensamente preenchida por um trabalho a tempo inteiro, a paternidade e logística familiar e doméstica. Encontrei no tempo de viagem casa-trabalho o local ideal para escrever. São cerca de 35 minutos diários, sentado, com um computador no colo, em que penso, escrevo e edito cada crónica, semanalmente. Às vezes consigo ser ainda mais profícuo e escrevo, na mesma semana, mais que uma crónica. Vou criando uma espécie de fundo de emergência literário que me dá a tranquilidade necessária para escrever sem pressão.
Outra coisa que faço diferente é ser consistente. A palavra consistência ganhou uma importância enorme na minha vida. Todas as sextas-feiras, às 08 da manhã, tenho que ter uma crónica pronta para publicação. E criei mecanismos para isso possa acontecer. Guardo quatro viagens de comboio por semana para a poder escrever e editar, não tenho limite de caracteres, posso escrever sobre o que quiser, recomendar o que quiser e ser livre. Nunca aconteceu mas, interiormente, permito-me escrever só uma quadra. Uma frase. O que for. Qualquer coisa que ache digna e representativa daquilo que é a minha escrita. A consistência está no aparecer em cada viagem, semana após semana, e manter o compromisso com quem me gosta de ler. Produzir um texto que acho que possa ser relevante. Ainda não falhei uma semana e não tenciono falhar. E, mais que isso, trabalho para cumprir com esta ambição.
A última novidade assenta na minha liberdade de escrita, na forma e conteúdo mais concretamente. Em todos os meus projetos idealizei uma linguagem, uma narrativa, um fio condutor que, de certa forma, se tornava castrador da minha liberdade criativa. Muitas vezes não era eu, era uma persona idealizada para falar sobre determinado assunto. Somos os piores inimigos da nossa criatividade. Neste Substack escrevo sobre o que me passa na cabeça, o que penso sobre isso, como penso sobre isso e as coisas que preciso desconstruir. O fio condutor é quem sou e, desta forma, descobri - quase de imediato - a minha voz. Escrevo sobre o que vivo, os desafios, as coisas boas, as menos boas, os meus interesses. Escrevo sobre vários fios condutores e sobre temas que se cruzam e compõem a minha existência. Naturalmente, a paternidade, e as questões com ela relacionadas, assume um papel especialmente importante. Reflito aqui sobre quem sou como pai, quem quero ser e como quero ser para os filhos. Reflito sobre o mundo onde os estou a criar, que os envolve e modela. Reflito sobre dividir esta responsabilidade com a minha companheira e os desafios que surgem numa vida partilhada. Reflito sobre a vida em geral. E acho que é precisamente isso que faz com que haja quem me leia: partilho a minha humanidade com outros humanos. A experiência partilhada é uma ferramenta poderosa de comunicação e estas crónicas não são excepção.
Eu escrevo principalmente para mim. É a forma que encontrei para organizar o que penso e como penso; as crónicas dos últimos meses são prova disso mesmo. Às vezes só consigo perceber o que sinto sobre determinado assunto ou acontecimento escrevendo sobre ele. Mas escrevo, também, para ser lido, para receber retorno e crítica construtiva, para dinamizar conversas e debates sobre temas e perspetivas. É um privilégio enorme ter quem me leia semanalmente. Brilha um centelha de orgulho quando percebo que há pessoas que chegam e ficam, através da subscrição. Que querem ler mais. Que se identificam com as minhas divagações e as partilham nas redes sociais fazendo a minha escrita chegar a cada vez mais pessoas. E não têm noção do feliz que me deixam sempre que clicam numa crónica, ou a abrem no seu correio eletrónico. Porque me incentivam a perseguir e prosseguir com um sonho: escrever. É uma prenda generosa que me é dada. Cada leitor cede o seu tempo e atenção, duas das coisas mais preciosas que temos para oferecer a alguém. Não tenho palavras para descrever a gratidão que tenho para com quem me lê.
Na descrição deste Substack digo que faço exercícios de escrita sobre paternidade e afins. São seis meses disto. É difícil descrever que projeto é este e, nessa indefinição, encontro-me. Encontro a minha voz, o meu ritmo, as minhas particularidades, opiniões, sensibilidades. Forço-me a olhar para as pessoas que sou. Que companheiro sou, que amigo sou, que pai sou, que filho sou, que tio sou, que irmão sou, que escritor sou. E tento perceber, como todos nós, se o que sou é o que quero ser. Não há uma meta neste processo. Percorre-lo é, por si só, a finalidade. Obrigado, de coração, por caminharem comigo.
Até para a semana,
João
P.S. Na última semana ouvi dois podcasts muito interessantes e que me têm dado em que pensar. Deixo aqui:
A questão do impacto do açúcar na saúde física e mental ganhou uma grande relevância desde que me tornei pai. É um tema que me deixa muitas vezes apreensivo com familiares, tecido escolar e a sociedade em geral. A ignorância e condicionamento social não podem ser desculpa. É importante perceber que, nos últimos 20 anos, a informação que temos sobre o consumo de açúcar, a forma como é metabolizado pelo nosso corpo e o impacto na saúde mudou radicalmente e levantou várias bandeiras vermelhas. Apesar de (ainda) não vivermos na distopia norte-americana do consumo inconsciente, temos vários problemas aqui em Portugal com a normalização do consumo de açúcar e do seu fácil acesso. Deixo aqui para que todos possamos ter as ferramentas necessárias para fazer uma reflexão e, quiçá, repensar alguns padrões de consumo.
Um dos melhores textos de um blog que já tive o privilégio de ler é deste senhor, apesar de nunca ter associado o nome da pessoa ao autor. Ele escreve, há anos, no blog Wait But Why e produz reflexões de vanguarda sobre o estado do mundo com uma irreverência e humor poucas vezes vistos. Torna assuntos complexos em análises interessantes. Esta conversa com o Lex acaba por ser um perfeito exemplo do trabalho do Tim no blog, da sua forma de pensar.


Gostei! Parabéns pelos 6 meses 😀🎉🎉🎉