6 anos
Esta semana fez 6 anos que nasceste. E, nesse dia, também (re)nasci como pai.
Hei-de escrever sobre o teu parto e os vários graus de consciência que fui adquirindo dele. Mas hoje interessa lembrar a torrente de emoção que senti no meu peito quando te comecei a ouvir no corredor das salas de parto. E a descarga de lágrimas e choro convulsivo que tive ao ver-te, incapaz de processar o que é conhecer um filho acabado de nascer. Estavas colado no lado esquerdo da tua mãe, abrigado da entrada no mundo. Nada nos prepara para isto. Nada pode ser equiparado ou comparado. Sempre ouvi relatos e descrições, de como tudo muda, de como as perspetivas mudam. Mas acho que as palavras são insuficientes para descrever o que se sente naquele momento.
Eram 05:45h da manhã e tornaste-me pai.
São 6 anos de ti. A conhecer-te um pouco mais todos os dias, a tentar acolher as especificidades da tua existência e, mais importante que tudo, a aprender contigo. Eu, que raramente considero alguém digno capaz de me ensinar, por ignorância, arrogância ou condicionamento sócio-cultural, aprendo contigo todos os dias. E cresço, como ser humano. Aprendo que é ao processar as minhas emoções e reações que dou o exemplo que quero que sigas. De que nada me vale verbalizar o que é melhor se não o incorporar no meu dia-a-dia. Aprendi que tenho que tentar ser o exemplo que quero que sigas.
Ensinas-me muitas coisas. Que todas as emoções e sentimentos são válidos e devem ser acolhidos. Que o meu papel é ser porto de abrigo. Que a masculinidade que nos é imposta é um fenómeno cultural que pode, e deve, ser desconstruído. Que há nobreza e valentia na fragilidade e empatia.
Aprendo contigo a ser mais justo. Que ninguém, mas principalmente tu, merece ser alvo das descargas das minhas frustrações emocionais. A minha iliteracia emocional não deve ser o fardo de ninguém. Que é bom admitir que se erra, porque é com o erro que aprendemos e ficamos mais sábios e permeáveis a experimentar novas coisas, sem receio de julgamentos.
Eu não estava preparado para nada disto. Estava ainda muito enraizado nas crenças sociais da educação pela autoridade, pela imposição. Pelo medo, se formos honestos. Pela violência, por mais que nos seja difícil admitir. Pela integração da maneira de ser de uma criança num quotidiano que não lhe permite autonomia, criatividade e lugar de fala. Nem um centímetro lhes damos para explorar estas competências que, com um enorme grau de hipocrisia, lhes exigimos que adquiram.
Mas tu ensinaste-me que quando respeitamos as maneiras de ser de cada um, podemos viver em harmonia. Podemos adequar-nos as diferentes maneiras de ser e conseguir explorar o melhor de cada um. Vejo isto no cuidado com que te conectas a outras pessoas, no cuidado e respeito pelos mais novos, pelo amor incondicional pelo teu irmão que tanto protagonismo de tirou. Pelo carinho e empatia perante os outros. E por um sentido de justiça único: quando é respeitando permite-te florescer e ser maior que o próprio universo. E quando é pisado, bates firmemente o pé e exiges o óbvio: respeito e dignidade. A quem quer que seja. E principalmente a mim. E eu só posso ficar grato por todos os dias me tornares numa pessoa melhor.
Hoje escrevo para te celebrar e para te agradecer. Por me fazeres querer ser melhor pai, melhor pessoa, melhor companheiro, melhor amigo. Mais saudável e livre de adições e vícios comportamentais como formas de lidar com os meus traumas. Ainda tenho um longo caminho a percorrer, estou longe de ser perfeito, mas aprendi contigo a lembrar-me que estou a tentar o melhor que posso. E a ser mais compassivo comigo mesmo.
Obrigado por seres como és, por me ensinares tanto e me amares mesmo na minha insuficiência.


