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Começo a escrever este texto no arranque da semana em que vou celebrar o meu trigésimo oitavo aniversário. Por questões de coerência e consistência, esta crónica será publicada na sexta-feira, como todas as outras, um dia depois de completar 38 voltas ao Sol.
Neste meu retorno solar, tudo me parece diferente. Estou há algumas semanas em esforço para conciliar entregas de projeto num lado, aulas à noite e ao Sábado noutro. Há um cansaço constante que mistura a privação de sono acumulada com o cuidar de uma família com um rapaz de 6 anos cheio de energia e um bebé pequeno. A exaustão de trabalhar demasiadas horas. Falta pouco, vou-me dizendo, galvanizado pela expetativa de um Natal como já não tenho há demasiado tempo. Vamos ser muitos à mesa. Falta pouco.
Tenho ouvido alguns podcasts do Arthur C. Brooks. Ele fala muito sobre felicidade e sobre a relação que temos com ela. Tem aparecido em vários programas a apresentar o seu último livro em que é co-autor com a Oprah Winfrey. Ele tem uma visão sobre a felicidade - e uma desconstrução dos conceitos que a orbitam, como o desejo, o propósito, a realização - que me fez refletir nas últimas semanas. Recomendo que ouçam uma das conversas mais recentes, feita pela Tara Brach.
Na altura do seu aniversário ele faz uma reflexão interessante sobre a sua vida, principalmente sobre os seus objetivos e desejos. De uma forma meta-cognitiva (pensando sobre o que está a pensar e a sentir) tentar perceber que desejos e motivações são para ele realmente essenciais. Isto porque muito do nosso sofrimento, Dukkha na filosofia Budista, advém precisamente da ignorância de querermos e desejarmos o que não temos, em vários níveis: profissional, familiar, de saúde, material, espiritual. Porque no momento em que nos prendemos nesse desejo, ficamos presos na antecipação de algo e na frustração de ainda não ter acontecido. E perdemos, sempre, o agora.
Vejo muito isto nas crianças. Quando estão tão embrenhadas em brincar com os seus amigos e chega a altura de lhes dizermos que estamos quase a ir embora, para aproveitarem os últimos minutos. A reação natural é de mostrar desagrado e frustração, criando uma resistência muito grande à ideia de ter que terminar a sua brincadeira naquele momento. E neste processo, os últimos minutos que podiam ser de alegre brincadeira e diversão perdem-se em argumentos e nas manifestações físicas e corporais das frustrações. Perdem o agora, onde podiam ter efetivamente continuado a boa brincadeira que tanto resistem a largar. Também vejo muito este tipo de resistências nos adultos.
Brooks faz então uma reavaliação dos seus objetivos - das suas projeções para o futuro, dos seus desejos e objetivos - e tenta perceber se estão coadunados com os seus valores e com o rumo que quer para a sua vida. Também lista, como diz, as suas bênçãos. E há aqui uma equação matemática que joga com o que tem e gostaria de ter. E na gestão, real, das suas necessidades, do que tem e do que pensa que gostava de ter está o que ele afirma ser um processo saudável de pensar a felicidade. Pareceu-me boa ideia e quis fazer o mesmo.
Vou fazer anos pela primeira como pai de dois filhos. São saudáveis, cheios de vida e personalidade. Tomo demasiadas vezes isto como garantido e é tão bom relembrar disto para sentir a profunda gratidão de que este seja um dos meus privilégios. Ultimamente as minhas manhãs têm sido pontuadas por um abraço ensonado do meu filho mais velho, um sorriso com dois dentes no andar de baixo do mais novo e um beijo com boa pressão labial ao pedaço de perfeição que é a Sofia. Acabamos os 4 na nossa cama em amena cavaqueira, a rir e a existir num ninho de amor. Posso ter mais sono, sorrir mais ou menos, exausto, mas isto é das melhores coisas que poderia ter na minha vida. Que gratidão.
Tenho aprendido muito neste último ano. Ser pai de dois ensinou-me que o amor não se divide: multiplica-se. É mesmo infinito e algo de muito espiritual nele. Quando os fico a ver a dormir, a comer ou simplesmente a existir, não consigo deixar de pensar que talvez isto seja a essência do que é Divino.
Aprendi que o essencial é exatamente isso mesmo: essencial. Sou feliz com pouco e, lá em casa, fazemos a festa com pouco. Picnics ao pé de casa, passeios na quintinha ou à beira rio de bicicleta. À medida que me fui desapegando do que não me é essencial, senti-me livre. Tenho o que basta para aquilo que gosto. Claro que ainda sinto a vontade de ter isto ou aquilo, talvez uma novidade ou zingarelho tecnológico. Também sinto a inveja ter de fazer escolhas e gestão mais eficiente dos recursos. Sinto, por vezes, que há limites naquilo que posso proporcionar aos meus filhos. Todos gostaríamos de viver mais desafogados. Mas é cada vez mais raro sentir isto. Quero apenas ter o que vestir, o que comer e o conforto de poder fazer coisas em família e amigos. Será preciso mais? Tenho feito esse exercício: se acho ou penso que preciso de algo (que não seja uma necessidade básica) penso durante semanas ou meses se quero mesmo aquilo. Na maior parte dos casos acabo por perceber que, realmente, não preciso nem quero. Tenho a ideia de que a maior parte das pessoas também não precisa da maior parte das coisas que pensa que quer.
Neste último ano, também, tenho sido relembrado que as coisas mudam de repente. A saúde, bem a qualidade e modo de vida, de quem gostamos podem mudar de um momento para o outro. E é preciso aproveitar e afirmar como prioridade que o importante não são as coisas, nem o estatuto, nem as nossas conquistas. É tempo de qualidade com quem gostamos e amamos. Não me lembro em que podcast o ouvi dizer isto mas o Brooks usou uma frase que teve uma grande ressonância comigo: usar as coisas, amar as pessoas e não inverter esta ordem.
Descobri outros pais que querem falar de Parentalidade. Costumo dizer que é uma espécie de alcoólicos anónimos para pais. Um espaço seguro onde podemos falar dos nossos medos, das dificuldades, do que é ser-se Pai. E conheci outras parentalidades e um sentimento de estar acompanhado na difícil jornada que é criar os nossos filhos. É tão importante sentir que não estamos isolados neste processo que consegue ser tão solitário. E conheci pessoas novas com quem gosto genuinamente de falar.
O que é que eu quero para a próxima volta ao Sol? Quero continuar a dar prioridade em ter tempo para me cuidar física, psicológica e emocionalmente. Desta forma, posso estar mais centrado e pleno no tempo que partilho com quem mais amo. Quero continuar a escrever, ser consistente. Quero continuar a aprender; manter a mente de principiante e questionar e duvidar de tudo. Estar aberto a novas realidades e adiar o mais possível a cristalização da minha inteligência. Quero ser melhor pai, acolhendo as necessidades dos meus dois filhos, com amor, carinho e muito colo. Quero estar com a minha família, falar e rir com todos eles, mais vezes. E quero continuar a chegar a casa e poder contar com o farol que a Sofia é na tempestade que a minha vida às vezes.

